Por Gregório de Matos (1696)
1
Ó Galileu Requerente,
Macabeu solicitante,
quem vos deu tamanho guante,
tendo-vos de gozo o dente?
Se me dais cá por agente,
sois homens de tantas partes,
que me ganhais estandartes:
eu zombo de vossos pleitos,
porque são vossos direitos
de Pedro de malas artes.
2
Latis, e cuidais, que eu morro
de ouvir o vosso latir,
e eu zombo de vê-lo ouvir,
porque quem late, é cachorro:
vós latis, e eu me desforro
dando-vos estas pedradas,
que quando um cão nas estradas
late ao manso caminheiro,
assentando-lhe o cacheiro
deixa as partes sossegadas.
3
Guardais-vos Israelita,
que se me chega a mostarda,
talvez, que a casa vos arda,
porque é casa de mesquita:
se à força da jeribita
tendes a idéia turbada,
com que vos não dais de nada,
vede, que a minha Camena
como vos corta co'a pena
vos pode cortar co'a espada.
4
Dizem, que um Hebreu vos fez
entre o Porto, e entre Judá,
por isso não falais cá
nem hebreu, nem português:
temo, que caiais de vez
neste, ou noutro qualquer porto,
porque culpado no Horto,
e do Egito no desterro,
não me podeis pegar, Perro,
como eu a vós, Perro morto.
5
Quem vos meteu, canzarrão,
co demo, que vos atiça,
a ser membro da justiça,
se não sois membro cristão?
corre de vós opinião,
que bem pouco vos aflige,
que o mais a que se dirige
o vosso negro saber,
é somente o requerer
crucifige, crucifige.
6
Dirigi pois os sapatos
caminho da terra Santa,
onde heis de fincar a planta
no Pretório de Pilatos:
Lá tão sacrílegos tratos,
como em pretório fiel
fareis, Escriba cruel,
porque vejais entre os cães,
que há na Bahia escrivães,
e Escribas em Israel.
A OUTRO REQUERENTE APELLIDADO O PERALVILHO, QUE COSTUMAVA VENDER AS CAUSAS, E FURTOU AO POETA UM CAVALLO SELLADO.
1
Peralvilho: o Peralvilho
pudera de vos tomar
lições de peralvilhar,
para ser reperalvilho:
vós sereis muito bom filho,
como eu entendo em rigor,
mas sois mau procurador,
porque aqui para entre nós,
em procurar para vós
sois contra procurador.
2
Procurastes ao traidor,
e eu fiquei desenganado,
que fostes já procurado
para mau procurador;
lá entregou ao Senhor
um Judas Escariote,
vós, Peralvilho Quixote,
entregastes como acinte
ao vosso constituinte
como a simples sacerdote.
3
Judas vendeu por dinheiro
a seu Mestre, a seu Rabi,
a vós nem maravedi
vos rendeu ser mau vendeiro:
Judas teve o paradeiro
da sua dor, e fadiga
numa figueira inimiga,
e vós de puro coitado
para seres enforcado,
nem figueira achais, nem figa.
4
As custas me heis de pagar
em ser tido por velhaco,
e por velhaco, e por caco
vos hei de os cacos quebrar:
caco não há de ficar
no vosso casebre inteiro
e por velhaco embusteiro
a vossa casa velhaca
terão por caco de caca,
e a vós por caco, e caqueiro.
5
Sois um simples, e um coitado,
e a mim nada me acobarda,
pois furtando-me uma albarda
vós ficastes o albardado:
ficai agora ensinado
a andar pelo barbicacho,
com focinho triste, e baixo,
vendo, que como ruim
me furtastes um rocim
para cair dele abaixo.
6
Por traidor, e por falsário
a sentença vos condena,
e para dar-vos a pena,
foi curto o vocabulário:
esgotou-se o Calendário
das nossas execuções,
e por encurtar razões
temi, que no caso atroz
cheirasses ao duro algoz
os fundilhos dos calções.
MATOS, Gregório de. Letrados. In: Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.