Por Gregório de Matos (1696)
5
Pois destes tão mal conselho,
rogo ao demo, que vos tome,
por deixar morrer à fome
um pobre faminto velho:
rogo ao demo, que ao seu relho
vos prenda com força tanta,
que nunca arredeis a planta,
e que a espinha muita, ou pouca,
que me tirastes da boca,
se vos crave na garganta.
6
Assim como isto é verdade,
que pelo vosso conselho
perdi eu o meu vermelho,
percai vós a virgindade:
que vo-la arrebate um frade;
mas isto que praga é?
praza ao demo, que um cobé
vos plante tal mangará,
que parais um Paiaiá,
mais negro do que um Guiné.
A CERTA FREYRA QUE EM DIA DE TODOS OS SANTOS MANDOU A SEU AMANTE GRACIOSAMENTE POR PAM POR DEOS HUM CARÁ.
1
No dia. em que a Igreja dá
pão por Deus à cristandade,
tenho por má caridade
dares vós, Freira, um cará:
se foi remoque, oxalá,
que vos dêem a mesma esmola,
que não há mulher tão tola,
que por mais honesta, e grave,
não queira levar o cabe,
se pôs descoberta a bola.
2
Descobristes a intenção,
e o desejo revelastes,
quando o cará encaixastes,
a quem vos pedia o pão:
como quem diz: meu Irmão,
se quem toma, se obrigou
a pagar, o que tomou,
vós obrigado a pagar-me,
ficais ensinado a dar-me
o cará, que vos eu dou.
3
Levado desta seqüela
promete o mancebo já
de dar-vos o seu cará,
porque fique ela por ela:
se consiste a vossa estrela
em dar, o que heis de tomar,
cará não há de faltar,
porque o Moço não repara
em levar a cópia, para
o original vos tornar.
4
Se assim for, que assim será,
fareis um negócio raro,
porque um cará não é caro
se por um outro se dá:
e pois o quer pagar já
sem detença, e com cuidado,
se o quereis ver bem pagado,
há de ser com tal partido,
que por um cará cozido
leveis o meu, que anda assado.
5
Vós pois me haveis de dizer
(assentado este negócio)
se quereis fazer socrócio,
porque comigo há de ser:
de carás heis de cozer
uma boa caldeirada,
e de toda esta tachada
tal conserva heis de tomar,
que vos venhais a pagar
do cará co caralhada.
A OUTRA FREYRA QUE MANDOU AO POETA HUM CHOURIÇO DE SANGUE.
1
Conta-se pelos corrilhos
que o Pelicano às titelas
sustenta como morcelas
a puro sangue a seus filhos:
vós, Dona Fábia Carrilhos,
se bem cuido, e não me engano,
deveis de ser Pelicano,
que enchestes este chouriço
com o sangue alagadiço
desse pássaro magano.
2
Com que este chouriço gordo,
tão gordo, e especiado
um filho vosso é criado
co sangue do vosso tordo:
porém tomou mau acordo,
quem quer que o empapelou,
e a dar-mo vos obrigou,
pois não tem caminho enfim,
mandares-me o filho a mim,
que outro Pai vos encaixou.
3
O que me dita o toutiço,
é, que o paio se mediu;
e por onde este saiu,
pode entrar qualquer chouriço:
direis, que vos não dá disso,
e eu creio, se vos não dá,
mas alguém vo-lo dará,
e que fora o meu quisera,
porque se fartara, e enchera
do sangue, que vai por lá.
4
Comi o chouriço cozido
com sossego, e sem empenho,
porque outro chouriço tenho
para pagar o comido:
vós tendes melhor partido,
mais liberal, e mais franco,
pois como em real estanco
tal seguro vos prometo,
que por um chouriço preto
heis de levar o meu branco.
5
Sobre vos aventejar
nas cores desta trocada,
vós destes-me uma talhada,
e eu todo vo-lo hei de dar:
se cuidais de mo cortar,
ele é duro de maneira
que a faca mais cortadeira
não fará cousa, que importa,
que o meu chouriço o não corta,
salvo um remoque de Freira.
6
Eu o dou por bem cortado
deste primeiro remoque,
que ao vosso mais leve toque
fique de todo esgorado:
então o vosso cuidado
vendo, que tanto me emborco,
e inda assim vos não emporco,
terá por cousa do Olimpo,
que a tripa de um homem limpo
se dê por tripa de porco.
7
Muito me soube atalhada
do chouriço inda que preto,
e a ser todo vos prometo,
que a ceia fora dobrada:
mas fora mais acertada
cousa, e de menos trabalho
que dando-vos nisto um talho,
uma lingüiça vos cangue,
que o chouriço coalha o sangue,
e a lingüiça leva o alho.
8
Eu sou tão bom conselheiro,
que heis de escolher, o que digo,
porque quem fala comigo,
escolhe em um tabuleiro:
se vos for mais lisonjeiro
o chouriço, que a lingüiça,
dou gosto, e faço justiça:
mas bem sabe quem se abrocha,
que o chouriço a boca atocha,
e a lingüiça o fogo atiça.
MATOS, Gregório de. A freira: ralo, roda e grade In:. Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 1992.