Por Gregório de Matos (1696)
o negro com uma serpe
de bananas, e farinha,
e al não disse o tal negrete.
Fomos, e dobrando o mangue
encontrarnos um banquete,
em que vem Miguel Ferreira
cercado de muita gente.
Allons, allons, lhe dissemos,
e ele nos disse: salvete,
trespassamos o saveiro,
que ia então vendendo azeite.
Fomos à costa correndo,
e ajudados da corrente
de Chico o porto tomamos,
que estava manso, e alegre.
Tocou-se logo a trombeta,
que um búzio era potente,
um sinal de haver chegado
a capitânia do Ostende.
Deu-nos uns poucos de apupos,
e vendo, que Chico desce,
embarcou-se, e socorreu-nos
com China, e melado quente.
Fomos seguindo a viagem
tão folgazões, tão alegres,
que até as duas guitarras
iam folgando de ver-se.
Assim chegamos à Ilha,
e sobre areias de neve
dezoito chancas saltavarn,
com que a Ilha se estremece.
Perguntei por Esperança,
e soube, que estava ausente.
Chico, que entonces servia
de guia dos nossos fretes.
Quis-me eu então repelar,
tendo pouco, que repele,
disse mal da minha vida,
de mim mesmo maldizente.
Corremos a Ilha toda,
por sinal, que o bom Silvestre
fez um letreiro na areia,
cuja letra isto refere.
"O Senhor da Ilha é um Asno"
e foi disto tão contente,
como se no tal letreiro
uma asneira não fizesse.
Nós lhe estranhamos a asneira,
e ele arreganhando os dentes,
a celebrou como sua,
por não ter, quem a celebre.
Achamos uma Mulata,
que estava ali num casebre,
que eu não fretei, por ser Nau
já carregada por prenhe.
Tornamo-nos a embarcar
algum tanto descontentes,
porque em toda a Ilha achamos
dois maracujás somente.
DESCREVE ESTANDO NA CAJAIBA HUMA CAVALHADA BURLESCA, QUE ALI FIZERAM PELO NATAL, HUNS FOLGAZÕES.
1
Veio a Páscoa do Natal,
primeira, e segunda oitava,
quando Araújo assentava,
uma festa garrafal:
mas a Cajaíba é tal,
este monte tão mesquinho,
que para um festim de alinho
veio Araújo famoso,
Paulinho com João Cardoso,
Carvalho, e Falcão Marinho.
2
Só cinco em cinco rocins
foi visto, que em meu sentido
para o pasto andar corrido
poucos bastam, se são ruins:
mas não faltaram malsins,
entre os quais foi mui notado
este número apoucado:
e eu tive os homens por loucos,
pois bons são cavalos poucos
para o pasto andar folgado.
3
O Araújo coitado,
para que nada lhe sobre,
andou sem freio, que ao pobre
sempre lhe falta o bocado:
mas por isso aventejado
andou à outra parelha,
mais que aos mais arnês brilhante,
que Araújo é rocinante,
que val muito pela ovelha.
4
João Cardoso à mourisca
pela encolhida perneta,
tanto mais lustra a gineta,
quanto mais nela se arrisca:
e bem que de todos trisca,
porque com juízo, e brio
nunca paga de vazio
os altos, na refestela
pagou de vazio a sela
três vezes, ou quatro a fio.
5
Paulinho não há alcançá-lo:
era da festa o enigma,
e alguém a dizer se anima,
que indo em mula, ia a cavalo:
deu-lhe tão pequeno abalo
o festim burlesco, e rude,
que nunca obrigá-lo pude
a fazer largas entradas,
porque em verdes laranjadas
era o Juiz da saúde.
6
O meu cavaleiro foi
(por me dar maior regalo)
Carvalho, que ia a cavalo,
e dava passos de boi:
mui prenhado "yo no voy,
estos me lleban" dizia;
tão pouco, e tão mal corria,
que nem ele se correu,
nem o pasto floresceu,
mas sem florescer se ria.
7
O Marinho andou galhardo,
tal, que teve desta vez
o pasto por Aranguês,
que quer sempre o dia pardo:
como é Marinho bastardo,
desprezou seu coração,
gineta, e bastarda então:
mas em osso o coitadinho
nadava como um Marinho.
voava como um Falcão.
8
Nas laranjadas folgou-se
muito bem no meu sentir,
ia Araújo a cair,
e por não cair, deitou-se:
caiu, porém levantou-se
bizarro, e mui animoso,
para que o povo invejoso
veja em seu mesmo rencor,
que se caiu pecador
se levantou virtuoso.
9
João Cardoso não quis
crer, que fora a queda leve,
e dando uma volta breve,
a foi medir co nariz:
achou, que, o que se lhe diz,
era mentira esbrugada,
porque de uma laranjada
quem vai desde a sela ao chão,
achou pela medição,
que era a queda mui pesada.
10
Bem do Marinho se riu,
quando fez co'a terra escambos,
porém sendo a terra d'ambos,
o Marinho não caiu:
o rocinante, que viu
com as costelas quebradas
Araújo às laranjadas,
rindo não se pôde ter,
e assim em vez de correr
se espojou em carcajadas.
11
Inácio não me lembrou,
que branco do sobressalto
antes que entrasse no assalto
coitadamente arribou:
no princípio começou
num cavalo inteiriçado,
e vendo-se mal parado,
não quis mais parar ali,
e dando um homem por si,
partindo o deixou soldado.
12
Depois houve laranjadas
com todos os circunstantes,
e o que eram laranjas antes,
vi em risco de punhadas:
com várias calamocadas
saiu mais de algum mirão,
e foi tal a confusão,
que sendo o Falcão previsto,
e corredor mui bem visto,
hoje está cego o Falcão!
DESCREVE HUMAS COMEDIAS, QUE NA CAJAIBA FORAM REPRESENTADAS PELOS MESMOS, OU PARTE DELLES COM OUTROS DA MESMA CONDIÇÃO.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MATOS, Gregório de. Pança farta e pé dormente. In: Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.