Por Machado de Assis (1879)
Henriqueta não respondeu nada, nem com a boca, nem com os olhos; falou do último espetáculo, depois do enjôo do mar, do calor, e de Petrópolis. O Pimentel acompanhou a por esse caminho; quis depois tornar ao primeiro, que era para ele a estrada real; ela porém fugiu-lhe. Não insistiu o Pimentel; tratou de coisas estranhas, e procurou até coisas alegres; mas só as achou de uma alegria violenta, como o cômico dos atores sem graça. De noite, entrando no hotel, tirou essa máscara do rosto, e a sós consigo recapitulou as últimas horas, os últimos dias e as últimas semanas. Digo que recapitulou, sem dizer primeiro que se despiu, porque assim mesmo como estava, assim se atirou a um sofá, com o chapéu na cabeça, e os olhos em nenhuma parte, ou longe dali. A expressão do rosto era de abatimento, de despeito, de ânsia; coisa que ainda mais se acentuou, quando ele lançando fora o chapéu, disse em voz alta e rude:
— Perco o meu tempo! não me ama.
Julião foi acompanhá-lo a bordo no dia seguinte; pediu-lhe muito que voltasse e o mais cedo possível.
— Lembre-se que já me prometeu.
— Já.
— E cumpre?
— Cumpro.
— Palavra?
— Para que, se lhe digo que sim? balbuciou o Pimentel.
Despediram-se; o vapor seguiu; Julião veio para terra. Quando o vapor perdeu a vista da cidade, ninguém ouviu, mas é certo que o Pimentel olhando para a água que batia no costado do navio, repetia lá no fundo do pensamento:
— Nem quatro meses, nem quatro anos.
VI
Henriqueta deixou-se estar, nem triste nem alegre; indiferente. A vida da família tornou a ser o que era antes: patriarcal e quieta. Alguns recreios íntimos, poucos externos, e nenhum que excedesse da mediana discreta e honrada. Nessa parte, como em tudo mais, eram harmônicos os caracteres dos dois irmãos: não tinham mais nem menos exigências.
— Seu irmão parece um urso, disse um dia a Henriqueta uma moça da vizinhança, relacionada há pouco com eles.
— Por quê?
— Porque parece.
— Você está enganada, disse Henriqueta. É talvez um pouco assim, calado, metido consigo, mas havendo intimidade...
No outro dia, Henriqueta contou a Julião o reparo da vizinha. Julião riu, sacudiu os ombros e não comentou de outro modo o reparo.
— O que é certo que você é assim mesmo.
— Assim como?
— Bicho do mato.
— Pode ser.
— Sabe você o que se faz com um bicho?
— Que é?
— Foge-se.
— Então, você quer fugir-me?
— E já.
Henriqueta disse esta última palavra, dando um passo para a porta; Julião foi ter com ela, pegou-lhe na mão, e deu-lhe um bolo. Riram-se muito: sentaram-se depois; falaram de mil várias coisas. A tia foi achá-los ali e abanou a cabeça, rindo.
— Vocês parecem dois namorados, disse ela.
— E somos, não é? perguntou Julião.
— Apoiado, concordou Henriqueta.
Dois namorados — eis a verdadeira definição: não havia outra melhor. Tinham as saudades, os arrufos, as criancices dos namorados. A afeição que os ligava, tocante e profunda, era já um vínculo bastante; mas outros vieram reforçá-lo mais. Assim, o costume da vida comum, a índole própria, e afinal a memória do pai. — Vivam um para o outro — foram as últimas palavras do velho moribundo; eles não esqueceram essa recomendação derradeira: ouviram-na como se fora um preceito da eternidade. Viviam exatamente um para o outro; não tinham desejos diferentes, e quando os tinham, chegavam facilmente a combiná-los. Pode-se dizer que as impressões de um eram as de outro, e que um mesmo cérebro e um mesmo coração pensava e batia por ambos. Não seria isto exatamente; não era; alguma vez arrufavam-se, mas essas divergências não eram mais do que o perrexil do afeto, uma coisa que lhe dava melhor sabor.
Já vimos um desses arrufos. Poucos dias depois da conversa da vizinha, Henriqueta lembrou a esta para irem a passeio à Tijuca, um domingo de manha. Assentaram que sim. Henriqueta disse-o depois ao irmão.
— Fizeste mal, disse este.
— Mal?
Julião conformou o dito com o gesto.
— Mas por quê?
— Ora, um passeio à Tijuca!
— Já o temos feito noutras ocasiões.
— É verdade, mas somos nós e titia. Agora, uma pessoa estranha...
— Sim, uma vizinha, que sé dá comigo. Que tem?
Julião não respondeu.
— Pois bem, disse Henriqueta; vou mandar dizer que não podemos ir. Deu um passo para a porta da sala; Julião, que a viu um pouco séria, deteve-a.
— Não, disse ele; não mandes dizer nada; iremos.
— Por quê? se te incomoda?
— Iremos.
Henriqueta ainda insistiu, mas Julião disse-lhe que já agora melhor era realizar o passeio. A tia, que assistiu ao debate dos dois, concluiu rindo:
— Sabe o que é, Henriqueta?
— Não.
— O Julião tem ciúmes de você; não quer que você se dê com suas amigas.
— Sim? dise Henriqueta.
— Que idéia!
VII
Henriqueta ficou um pouco abalada com as palavras da tia. Esta saiu; ela dirigiu-se ao irmão:
— Ciúmes? perguntou.
Julião sorriu, e levantou os ombros.
— Não vê que titia está brincando? disse ele. É uma maneira de explicar a minha hesitação em ir a esse passeio da Tijuca. Pois eu havia de ter ciúmes de você? Dê-se com quem quiser; você sabe que nunca lhe pus obstáculo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Um para o outro. A Estação, Rio de Janeiro, 30 jul. 1879 a 15 out. 1879.