Por Machado de Assis (1876)
João entretanto reanimou-se como pôde, afiançando-lhe que achava no Sr. Alvarenga muito boa vontade de o servir.
— Sabes o número da casa dele?
— Ele ficou de ir à casa de meu amo.
— Quando?
— Hoje.
— A que horas?
— Às ave-marias.
Era um suplício fazê-lo esperar tanto tempo, mas como não havia outro remédio, Gustavo curvou a cabeça e foi para casa, disposto a não sair sem saber o que era feito da encantada fita.
CAPÍTULO VI
Cruelíssimo foi aquele dia para o mísero namorado, que não podia ler, nem escrever, que só podia suspirar, ameaçar o céu e a terra e que mais de uma vez ofereceu ao destino as suas apólices por um pedaço de fita.
Dizer que jantou mal, é noticiar ao leitor uma coisa que ele naturalmente adivinhou. A tarde foi terrível de passar. A incerteza misturava-se à ânsia; Gustavo ardia por ver o procurador, mas receava que nada trouxesse, e que a noite desse dia fosse muito pior que a antecedente. Pior seria decerto, porque o plano de Gustavo estava feito: atirava-se do segundo andar à rua.
A tarde caiu de todo, e o procurador, fiel à sua palavra, bateu palmas na escada. Gustavo estremeceu.
João foi abrir a porta:
— Ah! Entre. Sr. Alvarenga, disse ele, entre para a sala; meu amo está à sua espera.
Alvarenga entrou.
— Então que há? perguntou Gustavo depois de feitos os primeiros cumprimentos.
— Há alguma coisa, disse o procurador.
— Sim:
E logo:
— Há de admirar-se talvez da insistência com que procuro esta fita, mas...
— Mas é natural, acudiu o procurador abrindo a caixa de rapé e oferecendo uma pitada ao bacharel, que com um gesto recusou.
— Então parece-lhe que há alguma coisa? perguntou Gustavo.
— Sim, senhor, respondeu o procurador. Eu tinha dado aquela fita à filha do desembargador, menina de dez anos. Quer que lhe conte a maneira por que isso aconteceu?
— Não precisa.
— Sempre lhe direi que eu gosto muito dela, e ela de mim. Posso dizer que a vi nascer. A menina Cecília é um anjo. Imagine que tem os cabelos loiros e está muito desenvolvida...
— Ah! fez Gustavo não sabendo o que havia de dizer.
— No dia em que o João Gomes me deu a fita dizendo-me: “Tome lá o senhor que tem em casa exposição!” Exposição chama o João Gomes a uma coleção de objetos e trabalhos preciosos que tenho e vou aumentando... Nesse dia, antes de ir para casa, fui à casa do desembargador...
Neste ponto entrou na sala o criado João, que, por uma idéia delicada, lembrou-se de trazer uma xícara de café ao Sr. Alvarenga.
— Café? disse este. Não recuso nunca. Está bom de açúcar... Oh! e que excelente café! V. S.ª não sabe como eu gosto de café; bebo às vezes seis, oito xícaras por dia. V. S.ª também gosta?
— Às vezes, respondeu Gustavo em voz alta.
E consigo mesmo:
“Vai-te com todos os diabos! Estás apostado para fazer-me morrer de aflição!”
O Sr. Alvarenga ia saboreando o café, como entendedor, e contando ao bacharel a maneira por que dera a fita à filha do desembargador.
— Ela estava a brincar comigo, enquanto eu tirava do bolso alguns papéis para dar ao pai. Com os papéis veio a fita. “Que bonita fita!” disse ela. E pegou na fita, e pediu-me que lha desse. Que faria V. S.ª no meu caso?
— Dava.
— Foi o que eu fiz. Se visse como ficou alegre!
O Sr. Alvarenga acabara de tomar o café, ao qual fez um novo elogio; e depois de sorver voluptuosamente uma pitada, continuou:
— Já eu não me lembrava da fita quando hoje o Sr. João Gomes me contou o caso. Era difícil achar a fita, porque isto de crianças V. S.ª sabe que são endiabradas, e então aquela!
— Está rasgada? perguntou Gustavo ansioso por vê-lo chegar ao fim. — Parece que não.
— Ah!
— Quando lá cheguei perguntei com muita instância pela fita à senhora do desembargador.
— E então?
— A senhora do desembargador respondeu-me com muita polidez que não sabia da fita; imagine como fiquei. Chamou-se porém a menina, e esta confessou que uma sua prima, moça de vinte anos, lhe tirara a fita da mão, logo no dia em que eu lha dei. A menina chorara muito, mas a prima dera-lhe em troco uma boneca.
Esta narração foi ouvida por Gustavo com a ansiedade que o leitor naturalmente imagina; as últimas palavras, entretanto, foram um golpe mortal. Como haver agora essa fita? De que maneira e com que razões, se iria procurar nas mãos da moça o objeto desejado?
Gustavo comunicou estas impressões ao Sr. Alvarenga, que depois de sorrir e tomar outra pitada, lhe respondeu que dera alguns passos a ver se a fita pudesse vir parar às suas mãos.
— Sim?
— É verdade; a senhora do desembargador ficou tão penalizada com a ansiedade que eu mostrava, que me prometeu fazer alguma coisa. A sobrinha mora no Rio Comprido; a resposta só pode estar nas suas mãos depois de amanhã porque eu amanhã tenho muito que fazer.
— Mas virá a fita? murmurou Gustavo com desânimo.
— Pode ser, respondeu o procurador; tenhamos esperança.
— Com que lhe hei de pagar tantos favores? disse o bacharel ao procurador que se levantara e pegara no chapéu...
— Sou procurador... dê-me alguma coisa em que eu possa prestar-lhe os meus serviços.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. História de uma fita azul. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, dez. 1875 a fev. 1876.