Por Machado de Assis (1874)
— É um vício; corrija-se dele. Charutos, meus senhores?... Hoje fuma-se por toda a parte... Pensa então que o folheto tem bom estilo?
— Excelente.
— É a opinião de algumas pessoas que leram o folheto; eu confesso, de estilos não sei.
— Nem eu, disse o militar.
A situação de Valério estava um pouco salva; a bondade com que o coronel tratava ao escrevente, teve o dom de acalmar os furores do escrivão que já trocava palavras com o rapaz; e quando viu levantar-se o coronel de braço com Valério, a indiferença do escrivão tornou-se em viva simpatia.
Valério pôde contemplar ainda durante meia hora a interessante filha do coronel, que durante essa noite dançara alegremente como quem não tem cuidados no futuro nem saudades do passado.
Depois de despedir-se do escrivão, o coronel apertou a mão do escrevente, dizendo-lhe:
— Não se esquece?
— Não, senhor.
— Nº 14.
Ninguém ouviu estas palavras do coronel ao rapaz; mas o escrivão adivinhou que alguma coisa íntima se passara entre o rapaz e o coronel.
— Cultive esta amizade, disse o escrivão a Valério, guando o coronel saiu; é um excelente homem e dotado de uma inteligência brilhante; freqüente esta roda, que vai bem.
IV
O coronel Borges possuía alguns cabedais, bastante para sustentar a casa e deixar patrimônio à família. A sua principal paixão era a política; era esse verdadeiro pão cotidiano que ele pedia a Deus com heróica humildade. Se lhe tirassem a política do mundo, o mundo ficaria um ermo. A política era para ele o sol do mundo moral; quando a política desaparecesse começaria a morte. Nesse caso, dizia ele, poderei dormir. Pessoas de algum juízo afirmavam que, antes que a morte viesse, o coronel dormiria, e essa realidade era a maior dor que ele poderia ter.
Não nos enganemos, entretanto. A política do coronel não existe nos livros de Montesquieu nem Maquiavel; tinha outros códigos; a outras leis obedecia. A política do coronel começava no subdelegado e acabava no coronel. Uma remoção de comarca valia para ele um princípio. A Guarda Nacional e a polícia eram para ele toda a opinião pública. Sorria com desdém quando lhe falavam de outras coisas que não fossem estas coisas práticas. Escudado no axioma que diz que a política é uma ciência de aplicação, o coronel tinha mais respeito a um juiz municipal que a um artigo de lei, porquanto a lei era o tema e o juiz municipal a imagem da aplicação.
Na Câmara fez um papel de mudo; mas o seu ar de gravidade era respeitado como um sintoma de sabedoria. Aplicava muitas vezes esta resposta de Sólon a Pariandro: Não sabes tudo que é impossível ao tolo calar-se durante um festim? O Parlamento, no juízo dele, era o festim da opinião, e se era verdade, como ele dizia, que a opinião estava na política, podemos sem afronta da lógica compará-lo a um covilhete. Covilhete sou, responderia o homem, mas para a boca dos meus adversários, que me hão de engolir quer queiram quer não.
Não falava nem escrevia. Os amigos políticos ofereceram-lhe um lugar numa gazeta; recusou. Estranharam-lhe a recusa; por que motivo recusava ele a tribuna e a imprensa? Explicou-se, dizendo que não tinha os talentos requeridos. Ninguém aceitou a explicação; atribuíram-lhe a virtude da modéstia. O deputado sorriu. O sorriso é a elasticidade aplicada à conversação; diz tudo e nada; isto e aquilo; o mau e o bom; confessa e nega; aceita e recusa.
Deixou o Parlamento sem fazer manifestação nenhuma; mas ficou-lhe a reputação de homem de bom conselho, qualidades políticas, gravidade de pensar, e recolheu-se à tenda, como Aquiles, disposto a não sair dela sem que lhe matassem um Pátroclo. Aconteceu justamente que um parente da mulher recebeu garrote do governo, e o sangue dessa vítima, que gozava de perfeita saúde, reclamou vingança imediata. Pegou na pena e escreveu um livro de duzentas páginas em que dizia coisas do arco-da-velha ao governo e ao país. Quis conservar o mais restrito incógnito; mandou o folheto à imprensa por mão de seu sobrinho, a quem confiou a direção do preparo tipográfico; e aguardava ansioso o dia em que aparecesse a obra e fizesse pasmar o mundo literário.
— Olha lá, meu André, dizia-lhe a esposa, não te vás meter em trabalhos...
— Que trabalhos, Luísa?
— Eu sei! Descompor o governo! Não te podes arriscar a ser preso?
— Isso não me há de acontecer, por desgraça minha! Obter a palma do martírio! Não, não sou tão feliz!
Benzeu-se a esposa, que era temente a Deus e à polícia, enquanto o coronel mandava para a tipografia as provas que o sobrinho lhe trouxe.
Aguardava-se a publicação da obra, que, na opinião do autor, era uma colubrina de bronze coado, quando se deu o sarau do escrivão e encontro de Valério. O escrevente prometera lá ir à casa do coronel no dia seguinte, e assim o fez, depois dos trabalhos da imprensa, que terminaram pelas sete ou oito horas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Valério. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, v. 12, n. 3, mar. 1874, p. 65-72; n. 4, abr. 1874, p. 97-104.