Por Machado de Assis (1872)
— Venha, disse-lhe Hope, deixe-me agradecer-lhe a ocasião que me proporcionou de ver Sara entusiasmada.
— Ah!
— É um excelente drama este Pedro, disse a moça apertando a mão de Andrade.
— Excelente só? perguntou ele.
— Diga-me, perguntou James, este Pedro sobe sempre até ao fim?
— Não o disse ele no primeiro ato? respondeu Andrade. Subir! subir! subir! Quando um homem sente em si uma grande ambição, não pode deixar de realizá-la, porque justamente nesse caso é que se deve aplicar o querer é poder.
— Tem razão, disse Sara.
— Pela minha parte, continuou Andrade, nunca deixei de admirar este caráter soberbo, natural, grandioso, que me parece falar ao que há de mais íntimo em minha alma! Que é a vida sem uma grande ambição?
Este arrojo de vaidade produziu o desejado efeito, eletrizou a moça, a cujos olhos parecia que Andrade se havia transfigurado.
Bem o percebeu Andrade, que coroava assim os seus esforços.
Adivinhara tudo.
Tudo o quê?
Adivinhara que Miss Hope era ambiciosa.
V
Eram duas pessoas diferentes até àquele dia; daí a pouco, pareciam entender-se, harmonizar-se, completar-se.
Tendo compreendido e sondado a situação, Andrade não deixou de prosseguir no ataque em regra. Sabia para onde iam as simpatias da moça; foi com elas, e tão cauteloso, e ao mesmo tempo tão audaz, que inspirou ao espírito de Sara pouco disfarçável entusiasmo. Entusiasmo, digo, e era esse o sentimento que devia inspirar quem pretendesse o coração de Miss Hope.
Amor é bom para as almas angélicas.
Sara não era assim; a ambição não se contenta com flores e horizontes curtos. Não pelo amor, mas pelo entusiasmo, é que ela devia ser vencida.
Sara via Andrade com olhos de admiração. Ele soubera, a pouco e pouco, convencê-la de que era um homem essencialmente ambicioso, confiado na sua estrela, e seguro dos seus destinos.
Que mais queria a moça?
Ela era efetivamente ambiciosa e sedenta de honras e eminências. Se tivesse nascido nas imediações de um trono, poria esse trono em perigo.
Para que ela amasse alguém, era necessário que esse pudesse competir com ela no gênio, e lhe afiançasse a vinda de glórias futuras.
Andrade compreendera isso.
E tão hábil se houve que conseguira fascinar a moça.
Hábil, digo eu, e nada mais; porque, se houve jamais criatura desambiciosa neste mundo, espírito mais tímido, gênio menos desejoso de mando e poderio, esse foi sem dúvida o nosso Andrade.
A paz era para ele o ideal.
E a ambição não existe sem perpétua guerra.
Como conciliar, pois, este gênio natural com as esperanças que inspirara à ambiciosa Sara?
Deixava ao futuro?
Desenganá-la-ia, quando fosse conveniente?
A viagem à Europa foi ainda uma vez adiada, porque Andrade, competentemente autorizado pela moça, pediu-a em casamento ao honrado comerciante James Hope.
— Perco ainda uma vez a minha viagem, disse o velho, mas desta vez por um motivo legítimo e agradável; faço minha filha feliz.
— Parece-lhe que eu... murmurou Andrade.
— Ande lá, disse Hope batendo no ombro do futuro genro; minha filha morre pelo senhor. O casamento foi celebrado dentro de um mês. Os noivos foram passar a lua-de-mel na Tijuca. Cinco meses depois, estavam ambos na cidade, ocupando uma casa poética e romanesca em Andaraí.
Até então a vida foi um caminho semeado de flores. Mas o amor não podia tudo numa aliança iniciada pela ambição.
Andrade estava satisfeito e feliz. Simulou enquanto pôde o caráter que não tinha; mas le naturel chassé, revenait au galop. A pouco e pouco iam manifestando-se as preferências do rapaz por uma vida calma e pacífica, sem ambições, nem ruído.
Sara começou a notar que a política e todas as grandezas do Estado aborreciam sobremaneira o marido. Lia alguns romances, alguns versos, e nada mais, aquele homem que, pouco antes de casar, parecia destinado a mudar a face do globo. Política era para ele sinônimo de dormideira.
Tarde conheceu Sara quanto se havia enganado. Grande foi a sua desilusão. Como possuísse realmente uma alma ávida de grandeza e poderio, sentiu amargamente este desengano.
Quis disfarçá-lo, mas não pôde.
E um dia disse a Andrade:
— Por que razão a águia perdeu as asas?
— Qual águia? perguntou ele.
Andrade compreendeu a intenção dela.
— A águia era apenas uma pomba, disse ele, passando-lhe o braço à roda da cintura. Sara recuou e foi encostar-se à janela.
Caía, então, a tarde; e tudo parecia convidar aos devaneios do coração.
— Suspiras? perguntou Andrade.
Não teve resposta.
Houve longo silêncio, interrompido apenas pelo tacão de Andrade, que batia compassadamente no chão.
Afinal, levantou-se o rapaz.
— Olha, Sara, disse ele, vês este céu dourado e esta natureza tranqüila? A moça não respondeu.
— Isto é a vida, isto é a verdadeira glória, continuou o marido. Tudo mais é manjar de almas doentias. Gozemos isto, que deste mundo é o melhor.
Deu-lhe um beijo na testa e saiu.
Sara ficou longo tempo pensativa, à janela; e não sei se a leitora achará ridículo que ela vertesse alguma lágrima.
Verteu duas.
Uma pelas ambições abatidas e desfeitas.
Outra pelo erro em que estivera até então.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Uma águia sem asas. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, n. 11, nov. 1872, p. 322-332.