Por Machado de Assis (1897)
Gostei de ouvi-lo e cuidei de confirmar a opinião, metendo-me a estudar nas férias. Dous dias depois, declarou-me ele que estava disposto a fazer-me trocar de carreira. Não entendi. Ele explicou-me que, bem pensado, era melhor bacharelar me em direito; todos os seus conhecidos mandavam os filhos para o Recife. A advocacia e a magistratura eram bonitas carreiras, não contando que a Câmara dos Deputados e o Senado estavam cheios de juristas. Todos os presidentes de província não eram outra cousa. Era muito mais certo, brilhante e lucrativo. Repetiu-me isto por dias. Eu rejeitei os presentes de Artaxerxes; combati as suas idéias, desdenhei da jurisprudência, e nisto era sincero; as matemáticas e a engenharia faziam-me seriamente crer que o estudo e a prática das leis eram ocupações ocas. Para mim a linha mais curta entre os dous pontos valia mais que qualquer axioma jurídico. Assim que, não era preciso ter nenhuma paixão amorosa para me animar a recusar o Recife; é certo, porém, que a moça do Castelo deu algum calor à minha palavra. Já agora queria acabar um romance tão bem começado.
Sobretudo havia em mim, relativamente à moça do Castelo, uma aventura particular. Não queria morrer sem conhecê-la. O fato de haver deixado o Rio de Janeiro sem tê-la visto de perto, cara a cara, pareceu-me fantástico. Achei razão ao Fernandes. A distância tornava mais dura esta circunstância, e a minha alma começou a ser castigada pelo delírio. Delírio é termo excessivo e ambicioso, bem sei; maluquice diz a mesma cousa, é mais familiar e dá a esta confissão uma nota de chufa que não destoa muito do meu estado. Mas é preciso alguma nobreza de estilo em um namorado daqueles tempos, e namorado poeta, e poeta cativo de uma sombra. Meu pai, depois de teimar algum tempo no Recife, abriu mão da idéia e consentiu em que eu continuasse as matemáticas. Como me mostrasse ansioso por tornar à Corte, desconfiou que andassem comigo alguns amores espúrios, e falou de corrupção carioca.
— A Corte sempre foi um poço de perdição; perdi lá um tio...
O que lhe confirmou esta suspeita foi o fato de haver ficado por minha conta o sótão da Rua da Misericórdia. Custou-lhe muito aceitar este arranjo, e quis escrever ao correspondente; não escreveu, mas agora pareceu-lhe que o sótão ficara em poder de alguma moça minha, e como não era de biocos, disse-me o que pensava e ordenou-me que lhe confessasse tudo.
— Antes quero que me fales verdade, qualquer que seja. Sei que és homem e posso fechar os olhos, contanto que te não percas... Vamos, o que é.
— Não é nada, meu pai.
— Mau! fala verdade.
— Está falada. Meu pai escreva ao sr. Duarte, e ele dirá se o sótão não está fechado à minha espera. Não há muitos sótãos vagos no Rio de Janeiro; quero dizer em lugar que sirva, porque não hei de ir para fora da cidade, e um estudante deve estar perto da Escola. E aquele é tão bom! continuei com o pensamento na minha Pia. Não pode imaginar que sótão, a posição, o tamanho, a construção; no telhado há um vaso com miosótis, que dei à gente de baixo, quando embarquei; hei de comprar outro.
— Comprar outro? Mas tu estudas para engenheiro ou para jardineiro?
— Meu pai, as flores alegram, e não há estudante sério que não tenha um ou dous vasos de flores. Os próprios lentes...
Hoje dói-me escrever isto; era já uma troça de estudante, tanto mais condenável quanto meu pai era bom e crédulo. Certamente, eu possuía o vaso e a doce flor azul, e era verdade que o tinha dado à gente da casa; mas vós sabeis que o resto era invenção.
— E depois és poeta, concluiu meu pai rindo.
Parti para a Corte alguns dias antes do prazo. Não esqueço dizer que, durante as férias, compus e mandei publicar na imprensa fluminense várias poesias datadas da província. Eram dedicadas "à moça do Castelo", e algumas falavam de janelas cerradas. Comparava-me aos pássaros que emigram, mas prometem voltar cedo, e voltam. Jurava neles que tornaria a vê-la em breves dias. Não assinei esses versos; meu pai podia lê-los, e acharia assim explicado o sótão. Para ela a assinatura era desnecessária, visto que me não conhecia. Encontrei a bordo um homem, que vinha do Pará, e a quem meu pai me apresentou e recomendou. Era negociante do Rio de Janeiro; trazia mulher e filha, ambas enjoadas. Gostou de mim, como se gosta a bordo, sem mais cerimônia, e viemos conversando por ali fora. Tinha parentes em Belém, e era associado em um negócio de borracha. Contou-me cousas infinitas da borracha e do seu futuro. Não lhe falei de versos; dando comigo a ler alguns, exclamou rindo:
— Gosta de versos? A minha Estela gosta, e desconfio até que é poetisa.
— Também faço o meu versinho de pé quebrado, disse eu com modéstia.
— Sim? Pois ela... Não confunda, não falo de minha mulher, mas de minha filha. Já uma vez dei com Estela a escrever, com uma amiga, na mesma mesa, uma de um lado, outra de outro, e as linhas não iam ao fim. Feliciana falou-lhe nisso, e ela respondeu rindo — que era engano meu; desconfio que não.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Uma por outra. A Estação, Rio de Janeiro, 15 set. a 15 dez. 1897.