Por Machado de Assis (1892)
— Não, não é falso que te amo sobre tudo neste mundo; mas tenho um coração orgulhoso, e se percebesse que preferias os teus cômodos ao nosso amor, eu preferia perder-te.
— Cala-te.
Calaram-se ambos, por alguns instantes. Ele brincava com uma das mãos dela; ela alisava-lhe os cabelos. Se indagarmo-nos em que iam pensando, acharemos que um e outro, e nada na terra para onde iriam. Góis, ao menos, só cuidou disso, passados uns dez minutos ou mais de enlevo, de devaneio, reminiscências, sonhos — e cuidou para dar à bela D. Paula uma nova causa de espanto.
— E se eu não te propuser o fim do mundo mas o princípio?
— Não entendo. O princípio?
— Sim, há de haver um princípio do mundo pois que há um fim.
— Mas explica-te.
— Se eu te propusesse simplesmente a minha casa?
D. Paula não achou que responder. A proposta era agora tão audaciosa, tão fora de um plano possível, que supôs fosse gracejo, e olhou para ele sem dizer nada. Parece que até começou a rir; mas ficou logo séria, desde que não viu no rosto dele nada que se parecesse com gracejo, nem sequer doçura. Ela já lhe conhecia a expressão da teimosia, e tinha razão para saber toda a escala dos seus atrevimentos. Ainda assim, não creu logo. Compreendia que deixassem a terra pátria para ir purgar os seus erros em algum buraco do mundo; mas sair de uma casa para outra, praticar um escândalo, gratuito, sem necessidade, sem explicação...
— Sei tudo o que estás pensando, disse-lhe ele após alguns segundos.
— Tudo?
— Então és da minha opinião.
— Que...?
— Que me propões um absurdo.
— Tudo se explica pelo amor, continuou ele. Se não achas explicação nenhuma, é que não me amaste nunca ou já não me amas...
D. Paula não teve ânimo desta vez, para tapar-lhe a boca. Abanou a cabeça, com um olhar de censura, e um jeito amargo dos lábios; foi como se não fizesse nada. Góis ergueu-se e estendeu a mão. Ela fechou-a entre as suas; obrigou-o a sentar-se, quis mostrar-lhe que a proposta era um erro, mas perdeu-se em palavras vagas e descosidas, que ele não ouviu, porque tinha os olhos na ponta dos sapatos.
IX
Góis venceu. Poucas horas depois, tinham tudo ajustado. D. Paula sairia no sábado próximo, para a própria casa onde ele morava, em Andaraí. Parece sonho tudo isto, e a pena mal obedece à mão; a verdade, porém, é que é verdade. Para explicar de algum modo esse ato de insensatez, é preciso não esquecer que ele, sobre todas as coisas, amava o escândalo; e que ela não se sentindo presa por nenhum outro vínculo, mal sabia que se expunha. la separar-se de toda gente, fechar todas as portas, confirmar as suspeitas públicas, afrontar a opinião — tudo como se houvera nascido para outra sociedade diversa daquela em que vivia. Não desconhecia o erro e seguia o erro. A desculpa que podia ter é que havia feito a mesma coisa até agora, e ia aliviar a consciência, pelo menos, da hipocrisia.
Na sexta-feira, à tarde, Góis mandou-lhe as últimas indicações escritas. De noite foi verbalmente confirmá-las. D. Paula tinha visitas e parecia alegre, Góis ressentiu-se da alegria.
— Parece que não me sacrifica nada, pensou ele; quisera vê-la abatida, triste e até chorando... Ri, ao contrário; despede-se desta gente, como se devesse recebê-la amanhã...
Essa descoberta aborreceu-o; ele saiu sem fazer nenhuma referência ao ato do dia seguinte. D. Paula, prestes a cometer o escândalo, teve vergonha de falar dele, e os dois despediram-se como se não tivessem de ligar, poucas horas depois, os seus destinos.
X
No dia seguinte, Xavier acordou tarde, tendo-se recolhido tarde, na forma do costume. Indo almoçar não viu a mulher que assistia sempre ao almoço dele; perguntou se estava doente.
— Não, senhor.
— Então, por quê...?
— Está no quarto, sim, senhor.
Xavier acabou de almoçar e foi ter com ela. Achou-a atirada a um canapé, com os olhos meios cerrados, o ar abatido. Tinha dormido mal à noite, duas horas, quando muito, e interrompidamente. Não disse a causa da insônia; não referiu que a idéia de ser a última noite que passava sob o teto conjugal é que a pusera nervosa, inquieta, meia delirante. Também ele não lhe perguntou nada, se teria tido febre, ou dor de cabeça, um resfriado; deu duas voltas e pegou em um livro que viu sobre uma cadeira, um romance francês; leu duas linhas e deixou-o. Em seguida, falou do almoço, que achou detestável, e do tempo, que parecia querer mudar. Consultou o relógio, quase duas horas. Precisava consertá-lo; variava muito. Que horas tinha ela?
— Vai ver, suspirou D. Paula.
Xavier foi ao relógio de mesa — um pequeno relógio de bronze —, e achou que a diferença entre os dois era de quatro minutos. Não valia a pena alterar o seu, salvo se o dela regulava certo.
— Regula.
— Vamos ver amanhã.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Uma partida. A Estação, Rio de Janeiro, n. 24, p. 282-284, 31 dez. 1892.