Por Machado de Assis (1870)
Está prestes a entregar-se. Entregas-te?
MIRTO
Sou tua!
Cena VIII
LÍSIAS, MIRTO, CLÉON
CLÉON
Demorei-me demais?
LÍSIAS
Apenas o bastante
Para que fosse ouvido um coração amante.
A Lesbiana é minha.
CLÉON
És dele, Mirto!
MIRTO
Sim.
Eu ainda hesitava; ele falou por mim.
CLÉON
Quantos amores tens, filha do mal?
LÍSIAS
Pressinto.
Uma lamentação inútil. "A Corinto
Não vai quem quer", lá diz aquele velho adágio.
Navegavas sem leme; era certo o naufrágio.
Não me viste sulcar as mesmas águas?
CLÉON
Vi,
Mas contava com ela, e confiava em ti.
Mais duas ilusões! Que importa? Inda são poucas;
Desfaçam-se uma a uma estas quimeras loucas.
Ó árvore bendita, é minha juventude,
Vão-te as flores caindo ao vento áspero e rude!
Não vos maldigo, não; eu não maldigo o mar
Quando a nave soçobra; o erro é confiar.
Adeus, formosa Mirto; adeus, Lísias; não quero
Perturbar vosso amor, eu que já nada espero;
Eu que vou arrancar as profundas raízes
Desta paixão funesta; adeus, sede felizes!
LÍSIAS
Adeus! Saudemos nós a Vênus e a Lieu.
AMBOS
Io Pæ an! ó Baco! Himeneu! Himeneu!
[1] É do Sr. Antônio Feliciano de Castilho a tradução desta odezinha, que deu lugar à composição do meu quadro. Foi imediatamente à leitura da Lírica de Anacreonte que eu tive a idéia de pôr em ação a ode do poeta de Teos, tão portuguesamente saída das mãos do Sr. Castilho que mais parece original que tradução. A concha não vale a pérola; mas o delicado da pérola disfarçará o grosseiro da concha.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Uma ode de Anacreonte. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, v. 8, n. 1, p. 12-25, jan. 1870.