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#Contos#Literatura Brasileira

Questão de vaidade

Por Machado de Assis (1864)

A palavra xadrez fez estremecer Eduardo. Era o sinal de um perigo iminente. Todavia, como fino cavalheiro que era, ofereceu o braço a Sara, e seguiu acompanhado de todos para a mesa do jantar.

Até aquela hora um só minuto não pudera falar a sós com Sara. Durante o jantar, era impossível. O jantar foi demorado, mais que de costume. Aproximou-se a noite. Finalmente, levantaram-se todos e foram dar um passeio pelo jardim. Aí, graças à circunstância de dar o braço a Sara, pôde Eduardo falar-lhe mais livremente, apressando ou demorando o passo, conforme as necessidades.

— Soube que tem pensado em mim, disse Eduardo a Sara, caminhando ao longo de uma cerca de roseiras. É verdade?

— Não sei, respondeu a moça.

— Vejo que é uma confirmação.

Quem foi o indiscreto ?

— Foi seu pai, mas é verdade?

— É sim: creio que não faz mal.

— Mal? Oh! nenhum! Fez a minha felicidade.

— Só em pensar?

— Pensar é interessar-se, interessar-se é... sabe o que é?

— Não sei, respondeu Sara corando.

Eduardo queria que a confissão viesse da moça. Esta, para disfarçar a sua perturbação, voltou-se e falou ao pai acerca de algumas necessidades do jardim.

Daí a cinco minutos a conversação entre Eduardo e Sara continuou.

— Sara...

A moça estremeceu ouvindo este modo de falar.

Depois, erguendo os olhos para Eduardo, pareceu dizer-lhe naturalmente: continue!

— Sara, continuou Eduardo, não posso, não quero, não devo ocultar-lhe por mais tempo o sentimento, que a sua beleza me inspirou. Amo-a muito, muito. Desde que eu tive a ventura de salvá-la das ondas, senti que tinha achado o objeto dos meus sonhos. O ideal da minha imaginação. Para ser completamente feliz, basta que o seu coração responda aos sentimentos do meu; basta, para dizer-me desgraçado, a sua recusa ou a sua indiferença. Diga, Sara, ama-me também?

A moça estava embriagada ouvindo esta linguagem. Houve um silêncio em que ela se deleitava com a música das palavras de Eduardo.

Este repetiu a pergunta.

— Sim, respondeu a moça, sim!

As duas mãos se procuraram. Pararam um instante; tinham os olhos embebidos. Assim se passou algum tempo, até que Silvério os foi chamar.

— Então, que é isso? É o jogo do sério?

Os dois voltaram à vida.

Caindo a noite, regressaram todos para a casa. Eduardo ia despedir-se, quando lhe surgiu, armado de um tabuleiro de xadrez, o tio Silvério. Não havia meio de recusar, não já porque o exigisse a delicadeza, mas ainda porque Silvério era dos tais que, em pedindo qualquer coisa, punha a gente num suplício.

Eduardo viu-se obrigado a aceitar a partida de xadrez.

Para a filha de Almeida era isto uma grande felicidade. A conversa do jardim decidira-lhe o coração. O que podia haver de incerto naquela natureza fraca, indecisa, naquele espírito simples e ingênuo, desaparecia diante dos sentimentos que as palavras de Eduardo despertaram. Até então, a moça sentia alguma coisa que a arrastava para aquele homem, mas nem o dizia, nem mesmo interrogava a si própria a razão do novo estado.

Agora, tinha-se-lhe clareado o horizonte. Era amor, que sentia, e amor daqueles que só as almas elevadas são capazes de sentir. O admirável instinto de mulher dera-lhe o resto do que não pudera interpretar das palavras de Eduardo.

Quando Eduardo declarou aceitar a partida de xadrez a moça sentiu que o coração lhe palpitava com mais força. Ela própria foi dispor o necessário para o jogo, não sem levantar muitas vezes os olhos para Eduardo, cujo olhar, pregado nela, exercia uma como fascinação.

Adivinha-se o resto. Entre a paixão do jogo, dominante em Silvério, e os olhares instantes de Sara, viu Eduardo correr as horas sem arredar pé. O jogo deu-se por terminado à meia-noite. Apenas tinham jogado duas partidas, em que Silvério ganhou sempre. Isto, porque ele não estava apaixonado, e Eduardo, se não o estava, acreditava estar, o que não deixa de produzir algum efeito, como a moléstia imaginária fazia Órgon conservar-se na cama.

Silvério apertou afetuosamente a mão de Eduardo, prometendo-lhe ficar pronto para dar lhe a desforra.

À despedida, Sara, em quem já dominava mais o amor que a ingenuidade infantil, colheu no jardim uma flor das roseiras, ao pé das quais tivera a conversa com Eduardo, e ofereceu-a.

Eduardo aceitou, sorrindo a um remoque paternal do velho Almeida, que ainda não calculava o estado do coração de sua filha.

Mas como fosse saindo sem nada dizer, Sara fê-lo parar, e disse-lhe em voz alta, visto não poder ser de outro modo:

— Eu cuidava que me devia retribuir a dádiva com outra... com essa flor que traz aí no peito.

Eduardo olhou a casa do paletó, viu a rosa que lhe fora dada por Maria Luísa. Tirou a flor e deu-lha.

Depois saiu.

Na rua ocorreu-lhe a lembrança que tinha prometido ir tomar chá com Maria Luísa. Lembrara-se dela algumas vezes em casa de Almeida, mas a promessa do chá varrera se-lhe inteiramente da memória.

V

Nas cenas que até aqui tenho esboçado, tentei mostrar a leviandade e a vaidade de um

(continua...)

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