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#Contos#Literatura Brasileira

Possível e Impossível

Por Machado de Assis (1867)

Teófilo sentiu-se outro. Parecia-lhe que estava próximo a entrar na estância da felicidade. Era simples: amava. O amor nasceu-lhe de súbito, como acontece quando é verdadeiro. Quando chegou a vez da sua valsa, o nosso poeta estremeceu. Dirigiu-se para a moça. Sentia-se estranhamente comovido, e por duas vezes esteve para recuar e sair. Enfim Sílvia deu com os olhos no poeta, e era impossível escapar.

Sílvia era valsista consumada. Quando Teófilo sentiu palpitar junto a si aquele seio, e respirou o ambiente estranho que cercava aquela singular criatura, o coração palpitou-lhe mais forte; parecia-lhe um sonho. Que valsa foi aquela? Não foi valsa, foi delírio, delírio de poeta, delírio de fantasia escaldada.

Augusto acompanhou o par com os olhos e reparou na mudança que se operava em Teófilo. Quando pôde conversar com este interrogou-o acerca da impressão que lhe causava Sílvia.

— Aposto que estás apaixonado?

Teófilo olhou para ele silenciosamente e respondeu:

— Não!

Augusto insistiu.

— Queres conhecer o pai? É o conselheiro C...

Augusto apresentou Teófilo ao pai de Sílvia. Uma conversa de poucos minutos decidiu as simpatias do conselheiro pelo poeta. Teófilo saíra dos seus hábitos de extrema reserva e mostrou-se tão discreto quanto agradável. O conselheiro ofereceu os seus serviços a Teófilo.

Esta noite fez uma revolução na vida e no espírito de Teófilo. O poeta encontrara o seu ideal. Mas por que foi achá-lo tão alto? Esta pergunta foi feita ao poeta quando se achou a sós no gabinete de trabalho. Só então medira a distância que existia entre ele e Sílvia. Se o amor, a natureza, a lei divina, podiam aproximá-los, o preconceito social e a lei humana separavam-nos.

O poeta dormiu pouco e tarde. Antes, porém, de procurar o leito, traduziu na linguagem das musas as impressões de que estava possuído. Foi uma das suas poesias mais veementes. Era a um tempo um cântico e uma elegia. No cântico dizia como a encontrara e amara a beleza; na elegia chorava o infortúnio de tê-la visto tão elevada e ser impossível subir até ela.

— Impossível? pensava Teófilo na manhã seguinte relendo os versos. Não. Basta que ela me ame para que tudo desapareça. Que nos importará o resto?

Teófilo freqüentou a casa do conselheiro. Augusto, a quem Teófilo fez apenas meia confidência, servia de cicerone ao tímido amador.

Sílvia, com esse tato delicado das mulheres, reconheceu que era amada pelo poeta, e, longe de procurar dissuadi-lo, animou-o. Esta animação levou ao espírito do poeta a esperança de ser amado.

Todavia os meios empregados por Sílvia não comprometiam nada no futuro. Podiam dar esperanças, não podiam obrigar. Teófilo não reconheceu essa diferença; amava; tomava o mais insignificante olhar como um jubileu de venturas. Vivia dela, por ela, para ela. Um dia Teófilo sentiu que não podia mais conter no coração o segredo do seu amor. Na amizade confia-se um segredo, diz La Bruyère, mas no amor o segredo escapa. É o que sucedeu a Teófilo.

Achava-se a sós com Sílvia. O conselheiro estava no gabinete em consulta de política, não de política militante, mas de política observadora; entendia o conselheiro que a situação caminhava mal; o amigo entendia que não. Sabe-se como estas discussões consomem tempo. Teófilo estava seguro de não ser perturbado.

Sílvia cantava ao piano a cavatina do 1º ato do Trovador. Teófilo a dois passos ouvia enlevado aquelas notas que Sílvia reproduzia como saídas da alma. Tudo lhe esquecia: receios, temores, desconfianças do mundo. Parecia-lhe que era o senhor daquela mulher e daquele coração, e deixava-se embalar na doce ilusão da sua fantasia e do seu amor.

Sílvia, quando acabou, voltou o rosto e deu com os olhos em Teófilo. Depois, tomando de

sobre o piano o leque de penas que ali depusera, levantou-se e dirigiu-se para o sofá onde estava Teófilo.

— Gostou? perguntou ela.

— Muito, disse o poeta adoçando a voz como se respondesse a um anjo. Sílvia sentou-se em uma cadeira que ficava ao pé do sofá.

Teófilo fitou os olhos em Sílvia.

Tudo ali conspirava para a declaração do poeta. Estava diante de uma mulher esplêndida de beleza, de elegância e de graça. A luz, nem muita nem pouca, era suficiente para dar ao quadro um fundo vago e ideal.

Sílvia suportou o olhar amoroso do moço. Depois, abrindo os olhos em um sorriso divino, pronunciou estas palavras com um tom de curiosidade infantil:

— Por que me olha assim?

— Porque... disse o poeta.

E calou-se.

— Por quê? disse a moça.

— Porque... ; ah! perdão!... não poderei guardar este segredo... Eu... amo-a... Dizendo estas palavras Teófilo levantou-se e esperou de pé a resposta de Sílvia. Sílvia baixou os olhos, deu uma volta ao leque, bateu com ele sobre o joelho, e olhou silenciosa para Teófilo.

O moço estava embaraçado. Que fazer diante daquele silêncio? Entretanto a sua felicidade dependia de uma palavra de afirmação da moça. Ela persistia calada. Enfim fez um esforço e murmurou:

— Diga-me...

— Não lhe digo nada, disse Sílvia levantando-se.

— Por quê?

— Porque... não sei.

— Ah!

(continua...)

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