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#Contos#Literatura Brasileira

Ponto de vista

Por Machado de Assis (1873)

Já me lembrou se estaria doente; mas creio que se assim fosse ter-me-ia mandado dizer. Esta carta vai por mão própria; o portador não volta cá; mas sendo por mão própria tenho certeza imediatamente.

Vá; um esforço.

Adeus.

Luísa

XXI

D. LUÍSA A D. RAQUEL

Luiz de Fora, 24 de março

Nada até hoje! Que é isso, Raquel?

O portador da minha carta anterior mandou-me dizer que lhe havia entregue em mão própria; não estava doente; por que razão este esquecimento? Esta é a última; se me não escrever, acreditarei que outra amiga lhe merece mais, e que você esqueceu a confidente do colégio.

Luísa

XXII

D. RAQUEL A D. LUÍSA

Corte, 30 de março

Esquecer-me de você? Está louca! Onde acharia eu melhor amiga men tão boa? Não tenho escrito, é verdade, por mil razões, cada qual mais justa, sendo a principal delas, ou antes, a que as resume todas, uma razão... Não sei como lhe diga isto.

Amor?

Ah! Luísa, o mais puro e ardente que pode imaginar, e o mais inesperado também. Aquela devaneadora que você conhece, a que vive nas nuvens, viu lá mesmo das nuvens o esperado do seu coração, tal qual o sonhara um dia e desesperara de achar jamais.

Não lhe posso dizer mais nada, não sei. Tudo o que eu poderia escrever aqui estaria abaixo da realidade. Mas venha, venha, e talvez leia no meu rosto a felicidade que experimento, e no dele o sinal característico daquela superioridade que eu ambicionei sempre e tão rara é na terra. Enfim, sou feliz!

Raquel

XXIII

D. LUÍSA A D. RAQUEL

Juiz de Fora, 8 de abril

Chegou enfim uma carta, e chegou a tempo, porque eu já estava disposta a esquecer-me de você. Ainda assim não lhe perdoava, se não fosse a razão... Céus que razão! Ama enfim? achou o

homem... quero dizer o arcanjo que procurava a minha cismadora? Que figura tem? é bonito? é alto? é baixo? Vá, diga-me tudo.

Agora vejo que estive a pique de fazê-la perder a sua felicidade. Tanto lhe falei no tal Dr. Alberto, que era bem possível, como às vezes acontece, vir a namora-se dele, e então quando o outro chegasse... era tarde.

E diga-me: será ele velho como o da mariquinhas Rocha? Não se zangue, Raquel, mas o peixe morre pela boca, e era possível que você fosse castigada por ter falado dela. Pela minha parte, não acharia que dizer, uma vez que ele amasse e fosse homem digno de casar com a minha Raquel. Em todo o caso, antes um moço.

Não me atrevo a pedir-lhe o retrato; mas meu marido pede-lho. Não se zangue, eu contei tudo, e ele manda-lhe muitos parabéns. Os meus, irei eu mesma levá-los.

Luísa

XXIV

D. RAQUEL AO DR. ALBERTO

10 de abril

estou muito zangada por não teres vindo ontem; cedo começas a esquecer-me. vem hoje ou eu fico zangada. Ao mesmo tempo quero que me tragas um retrato dos teus; é um segredo.

Ontem perdestes muito; esteve aqui a G... e naturalmente sentiu a tua falta. Sentes isso, não? Pobre da Raquel! Adeus.

Raquel

XXV

O DR. ALBERTO A D. RAQUEL

10 de abril

Perdoa-me se não fui ontem lá; em compensação pensei muito em ti.

Teu pai pediu-me que eu fosse jantar hoje com a família; espera-me cedo.

Levarei nessa ocasião o meu retrato, sem saber para que é; mas espero não será para coisa má. Quanto à G... eu já não sei como te hei de dizer que é uma deslambida de quem não faço caso; se queres, limitar-me-ei a cumprimentá-la apenas. Que mais desejas?

Adeus, minha desconfiada. Crê que eu te amo muito, muito e muito, agora e sempre.

Teu,

Alberto

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