Por Machado de Assis (1867)
Apesar de certa incongruência e da aparente afetação desta carta, Ernesto releu-a contente, admirando o belo estilo que até ali não descobrira em si.
Fechou a carta e arranjou meio de fazê-la chegar secretamente às mãos de Onda. A moça respondeu verbalmente que, no dia seguinte, no sarau que se dava em casa de um tio dela, se entenderia com Ernesto.
Ernesto recebeu com alguma amargura esta resposta. Todavia sempre esperançado preparou-se para o sarau, e lá foi ter.
Antes de ir passou pelos olhos, durante o dia, a cópia da carta com que ficara, e a cada período que lia parecia-lhe que Onda não era capaz de resistir.
Não quis ir cedo. Pareceu-lhe melhor fazer-se esperar e fazer nascer da impaciência uma resposta mais pronta. Só às onze horas compareceu ao sarau.
Dançava-se uma polca.
Onda e um cavalheiro (exatamente um dos pretendentes do Teatro Lírico) faziam as delícias dos apreciadores da polca.
Ernesto, com o coração aos pulos, esperou, encostado a um portal, que a dança acabasse.
E posto que dali a dez minutos a polca se tivesse acabado, tal era a impaciência de Ernesto, que lhe pareceu um século. É que não era só a impaciência, era já o ciúme de vê-la nos braços de outro.
Terminada a polca, Onda, contra as previsões de Ernesto, foi percorrer alguns salões pelo braço do cavalheiro.
Que significava aquilo? Ernesto ficou algum tempo perplexo. Finalmente refletiu que, tendo chegado poucos minutos antes, não podia a moça saber logo da sua presença. Devia ir falar-lhe.
Dava alguns passos quando um dos amigos da aposta acercou-se dele e pediu-lhe novas do namoro.
Ernesto, procurando sorrir, disse que mais tarde poderia dizer alguma coisa.
- Os outros estão aqui, disse o amigo.
- Todos? perguntou Ernesto.
- Todos.
- Bem, até logo.
E dizendo isto, Ernesto foi-se em procura da mulher que o prendia.
Atravessando uma sala viu dirigir-se para ele o par que procurava. Deteve-se. E para aparentar indiferença e acaso foi a um espelho e aí fingiu consertar os cabelos, com a mão, ao de leve.
Ficava assim de costas para os dois e podia ver no reflexo do espelho se ela reparava nele ou não.
Ora, o que ele viu foi a moça trocar com o cavalheiro um olhar de ternura, e este arrancar lhe das mãos, que apenas opuseram fraca e doce resistência, uma pequena flor que ela tirara do ramalhete.
Ernesto enfiou.
Após a comoção da cena que acabava de presenciar, outra comoção o tomou: foi a vista do rosto pálido com que ficou.
Os dois passaram.
Ernesto deixou-se cair em um sofá.
Quase a ganhar a batalha, no momento da vitória decisiva, encontrava-se repentinamente no mesmo ponto em que começara as lutas.
Quando passou a primeira comoção veio-lhe à lembrança a carta que escrevera e cuja resposta ia buscar. Mas devia pedi-la depois do que presenciara? E não era a sua posição uma posição ridícula?
Pensando em tudo isto, Ernesto levantou-se e passeou à toa por todas as salas e corredores.
Dançava-se, cantava-se, tocava-se; ele nada via, nada ouvia; via o ridículo e o desdém. Supunha ter metido uma lança em África e descobria agora que era tão medíocre como os outros.
Nestas reflexões amargas andava, quando, ao passar por uma das salas, ouviu a voz de Onda.
A voz partia do vão de uma janela.
Ernesto escondeu-se no vão da janela contígua e procurou cobrir-se entre as cortinas para não ser visto se alguém passasse.
Depois prestou o ouvido à conversação e procurou distinguir as vozes. Não havia voz de homem. Além de Onda, havia uma voz de mulher. Falavam o nome dele. Redobrou de atenção.
- Como és feliz! dizia a voz desconhecida.
- Feliz?
- Ou antes ardilosa!
- Por que ardilosa? Tenho eu culpa que sejam todos os homens de uma mediocridade de espírito incomparável? Divirto-me, nada mais.
- Oh! mas esse, o Ernesto, não é tão medíocre assim...
- Mais que os outros. Tem o que os outros não tinham ou não pareciam ter: a vaidade de agradar por seus encantos.
- Pois este?...
- É o que te digo. Acreditarás tu que foi só depois de muitos dias que me resolvi a prendê lo como todos? Ao princípio afetava uma indiferença sem igual: parecia alheio a mim, e entretanto eu sabia que ardia por figurar entre os meus adoradores. Hoje é o pior de todos. Se visses a carta que me escreveu!
- Ah! escreveu-te...
- Oh! um regimento de tolices, sem pés nem cabeça, umas coisas já muito velhas e batidas, declarando-me que da minha decisão dependia a felicidade ou a condenação dele. Quer fazer supor que morre se eu responder que não o aceito em meu coração. Que tal?
- Pensei que este meio já se não usava.
- Usa-se, usa-se...
- Mas dize-me cá; não gostas de alguém?
- Por ora, não.
- Mas deveras ninguém te inspirou ainda amor?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Onda. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1867.