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#Contos#Literatura Brasileira

Onze anos depois

Por Machado de Assis (1875)

— Que estás tu a olhar para aquelas moças? perguntou ele ao amigo, cujos olhos disfarçadamente observavam um rancho de damas.

— Eu? disse Moreira, olhando ao mesmo tempo para Eulália.

— Que tem? Não é natural? perguntou esta, sorrindo-se para o seu antigo namorado. Moreira embasbacou.

Que era aquilo? Um remoque? Uma queixa? Moreira perdia-se em conjecturas. O passeio foi assim cortado de incidentes mais ou menos enigmáticos. A tarde, entretanto, foi melhor; a moça mostrou-se com ele muito amena e afetuosa, o que, no parecer do namorado, fez subir as suas ações cento por cento.

Mas a resposta da carta?

— É impossível, pensou Moreira, que a resposta dela não passe destes agradinhos, muito bons decerto, mas insuficientes para eu saber se ela efetivamente aceita o que lhe disse... Preciso a todo transe de uma resposta.

Pensar isto e escrever um bilhetinho foi tudo a mesma coisa. A nova missiva continha apenas estas palavras:

Minha vida! Que resposta me dás? Devo eu morrer ou viver? Venha a morte, embora, mas sem torturas... Teu, sempre teu — M.

Este bilhete foi deitado de passagem no regaço da moça, que, de novo, estremeceu e corou. Alves estava então de costas e nada viu. Moreira foi ter com ele e perguntou-lhe se havia já lido o Jornal do Commercio desse dia. Travou então conversa a respeito de um artigo que lá vinha acerca de não sei que negócio ministerial, coisa que não interessava absolutamente a Moreira, mas que ele parecia discutir com muito ardor.

Estavam nisto quando Eulália soltou um pequeno grito. Alves voltou-se rapidamente e foi ter com a mulher.

— Que foi?

— Nada; uma pontada.

Alves ajoelhou-se diante dela, levou-lhe a mão ao coração, que batia algum tanto agitado.

— Estás melhor? perguntou ele.

— Estou.

— Anda descansar.

— Não; passou.

Dizendo isto, a moça cravou os olhos no marido, cuja aflição estava expressa no rosto.

— Não é nada, repetiu.

E para mostrar que não era nada, levantou-se e deu-lhe o braço. Saíram até o jardim; Moreira acompanhou-os ao lado e mostrando como podia o interesse que lhe causava a saúde da moça, mas um tanto surpreso com o incidente. A carta nada continha que lhe pudesse causar abalo; a primeira sim. Demais a carta estava já guardada, porque ele a não viu na mão de Eulália.

No fim de uma hora, voltaram para casa; Eulália foi para os seus aposentos; Alves acompanhou-a; Moreira retirou-se para o hotel onde alugara um aposento.

— Que diabo seria aquilo? pensava ele. Natural não me parece que fosse; a causa é que

eu não posso atinar qual seja. Esperemos a resposta; é impossível que se demore muito. A tarde passou sem carta.

IV

Na manhã seguinte, logo depois do almoço, Moreira foi visitar o advogado. Alves tinha saído; Moreira encontrou Eulália na sala.

A moça estremeceu.

— Eulália! disse ele com voz tímida.

E ia naturalmente continuar este discurso que prometia ser ardente e impetuoso, quando apareceu à porta uma senhora; era uma amiga de Eulália.

Moreira mandou interiormente a tal amiga a todos os diabos, e saiu logo depois. Uma hora depois, voltou à casa de Alves; achou-o lá, e recebeu a notícia de que este tencionava voltar para a corte no dia seguinte.

— Já! exclamou Moreira, naturalmente admirado da alteração do programa.

— É preciso; tenho um negócio urgente, disse o advogado. Tu ficas?

— Talvez.

— Em todo caso, preciso falar-te.

— Estou às tuas ordens.

— Será logo à tarde.

Moreira saiu daí a pouco.

— A rapariga é mais fina do que eu julgava, ia pensando Moreira, ou eu sou o mais feliz dos homens. Naturalmente ela fica; tem aqui pessoas de amizade. Eu também sou pessoa de amizade, e cá fico.

Sobre esta frágil base de uma conjectura, edificou Moreira um castelo de esperanças; falou distraidamente a quantas pessoas encontrou, e meteu-se em casa à espera do amigo.

O amigo não se demorou.

Estava justamente Moreira a pensar nele quando a figura de Alves apareceu à porta do quarto.

— Entra.

— Ninguém nos ouve?

— Ninguém.

Alves fechou a porta do quarto com a chave e pô-la no bolso. Moreira olhou para ele espantado, e ia naturalmente perguntar-lhe a causa daquele fato, quando o advogado lhe tirou de todo a voz com outro gesto ainda mais significativo: tirou um revólver da algibeira e pô-lo ao pé de si na mesa. Sentou-se e começou a falar.

Antes, porém, de dizer o que disse Alves ao seu amigo Moreira, voltemos um pouco atrás e digamos ao leitor o acontecimento que deu causa ao outro que vai principiar. Na véspera, logo depois de se retirar a seus aposentos, Eulália mandou chamar o marido. Este ia justamente para lá.

— Que queres? perguntou Alves com solicitude.

Eulália caiu-lhe nos braços lavada em lágrimas.

— Que tens? perguntou o marido ansioso.

Eulália não pôde falar. Alves estava aflito.

— Vamos, não chores, que tens? disse ele.

— Deixa-me chorar, murmurou a moça; estas lágrimas são de alegria.

— De alegria?

— Sim; amo-te.

Alves perguntou-lhe sorrindo:

— Só agora?

(continua...)

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