Por Machado de Assis (1906)
Ia a sair também, quando duas figuras lhe passaram pelo cérebro: a sorte grande, naturalmente, e a escola. Atrás delas veio uma sugestão, depois um cálculo. Este cálculo, por mais que digam do escrivão que ele amava o dinheiro (e amava), foi desinteressado; era dar de si muita coisa, contribuir para elevar mais e mais a escola, que era também obra sua. Prometeu dar cem contos de réis para o ensino, para a escola, escola de S. Bernardo, se tirasse a sorte grande. Não fez a promessa nominalmente, mas por estas palavras sem sobrescrito, e todavia sinceras: “. Já na rua, considerou bem que não perdia nada se não tirasse a sorte, e ganharia quatrocentos contos, se a tirasse. Picou o passo e ainda uma vez penetrou no cartório, onde buscou enterrar-se no trabalho. Não se contam as agonias daquele dia 24 de dezembro de 1898. Imagine-as quem já esperou quinhentos contos de réis. Nem por isso deixou de receber e contar as quantias que lhe eram devidas por atos judiciais. Parece que entre onze horas e meio-dia, depois de uma autuação e antes de uma conclusão, repetiu a promessa de cem contos à escola: “ Bateu meio-dia e o coração do Coimbra não bateu menos, com a diferença que as doze pancadas do relógio de S. Francisco de Paula foram o que elas são desde que se inventaram relógios, uma ação certa, pausada e acabada, e as do coração daquele homem foram precipitadas, convulsas, desiguais, sem acabar nunca. Quando ele ouviu a última de S. Francisco, não se pôde ter que não pensasse mais vivo na roda ou o que quer que era que faria sair os números e os prêmios da loteria. Era agora... Teve idéia de ir dali saber notícias, mas recuou. Mal se concebe tanta impaciência em jogador tão velho. Parece que estava adivinhando o que lhe ia acontecer.
Desconfias o que lhe aconteceu? Às quatro horas e meia, acabado o trabalho, saiu com a alma nas pernas e correu à primeira casa de loterias. Lá estavam, escritos a giz em tábua preta, o número do bilhete dele e os quinhentos contos. A alma, se ele a tinha nas pernas, era de chumbo, porque elas não andaram mais, nem a luz lhe tornou aos olhos senão alguns minutos depois. Restituído a si, consultou a carteira; era o número exato. Ainda assim, podia ter-se enganado, ao copiá-lo. Voou num tílburi a casa; não se enganara, era o número dele.
Tudo se cumpriu com lealdade. Cinco dias depois, a mesa da irmandade recebia os cem contos de réis para a escola de São Bernardo e expedia um oficio de agradecimento ao fundador das duas instituições, entregue a este por todos os membros da mesa em comissão.
No fim de abril, casara o escrevente Amaral, servindo-lhe Coimbra de testemunha, e morrendo na volta, como ficou dito atrás. O enterro que a irmandade lhe fez e o túmulo que lhe mandou levantar no cemitério de S. Francisco Xavier corresponderam aos benefícios que lhe devia. A escola tem hoje mais de cem alunos e os cem contos dados pelo escrivão receberam a denominação de patrimônio Coimbra.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O escrivão Coimbra. Almanaque Brasileiro Garnier. Rio de Janeiro, 1906.