Por Gregório de Matos (1696)
Afirma o Preso em verdade,
que àquela escola ruim
ia aprender mau Latim,
por se querer meter frade:
e sua Paternidade
usava de ingratidão,
pois sem causa, nem razão,
a quem Ihe fez o favor
de o ir desprender de amor,
o tinha posto em prisão.
Item, que sempre fugia
do Fradinho as encontradas,
pois ia em horas minguadas,
quando o Frade às cheias ia:
que sempre se Ihe escondia,
por Ihe ouvir, que é sua Prima
e porque ele o não oprima,
tomava em horas traidoras
as lições das outras horas,
e Ihe deixava as da Prima.
Eu vos proponho os motivos
do sucesso, e seus fracassos,
porque quem ignora os casos,
não sabe os nominativos:
eu perco logo os estrivos
com estas filatarias,
pois vejo todos os dias,
que um Frade (seja quem quer)
pelo meio de as perder
assegura as putarias.
O pobre do secular,
porque o caso vá distinto,
se chama Fulano Pinto,
mas já Pinto de galar:
porém o Frade alveitar,
que eu tenho por macacão,
não entra em publicação,
por que eu perca esse regalo,
pois morro por batizá-lo,
para que morra cristão.
MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.