Por Machado de Assis (1872)
— Quem me diz que o não é? A dúvida era já bastante para justificar o que fiz. Não foi só o receio do futuro que me impeliu, foi principalmente a lembrança do passado. A traição dela, se a houve, não devre doer nada ao marido que se foi; mas ao marido que vem, a idéia da perfídia anterior destrói pela base toda a confiança, que é a condição da felicidade. Não sei o que farias tu no meu caso; eu segui o impulso do coração e da razão.
Meneses ouvira atentamente o amigo. Quando ele acabou:
— Creio-te sincero, disse; e compreendo que sofreste.
— Muito!
— Mas recusarás uma reflexão? Quem escrevia esta carta? Não foi um amigo, decerto. Um amigo, se lhe pesasse o teu ato, viria falar-te cara a cara. Um indiferente também não foi. Resta, pois, um inimigo, teu ou dela...
— Dela?
— Ou um interessado: escolhe.
Félix refletiu um instante.
— Inimigo, não sei se os tinha; interessado. . em quê?
— Ela é rica; algum pretendente...
— Não havia nenhum.
Meneses não fraqueou na defesa da sua hipótese. Quanto mais atentava na revelação da carta, mais o coração lhe bradava contra ela. Para ele a inocência de Lívia era clara como o sol. Félix sentia-lhe a convicção, e lastimava-se de a não ter, tão viva e tão profunda. A noite caíra de todo. Meneses declarou que só voltaria à cidade no dia seguinte.
Félix compreendeu que o amigo não perdera a esperança de o converter, e longe de se irritar agradeceu-lhe a intenção. Era a primeira vez que ele se expandia com alguém a respeito do seu amor; fê-lo com abundância e sinceridade. Não lhe lembrara sequer que Meneses também amara a viúva.
Muitas vezes falaram da carta. Meneses perguntou ao médico em que circunstancias a recebera. Félix referiu a visita de Luís Batista, o objeto dela, a conversa travada entre ambos, até que a carta lhe chegou às mãos.
A singularidade da visita de Luís Batista não escapou a Meneses. :
— Visitava-te esse homem? perguntou ele.
— Nunca.
— Eras amigo dele?
— Havia mais razoes para sermos inimigos que outra cousa.
Meneses hesitou; não se atrevia a desposar uma suspeita. Mas o espírito do médico era terreno fecundo para ela. Apenas as perguntas de Meneses lhe deitaram o gérmen, para logo foi lançando raízes e cresceu.
— Crês então que ele?... aventurou o médico.
— Não sei; mas, não te parece curiosa toda essa história de gravuras? Félix refletiu algum tempo. Como quando os olhos se vão acostumando à meia-luz de um sítio, e começam a distinguir a pouco e pouco os objetos, o espírito do médico entrou a recordar e a examinar todos os incidentes daquela fatal manhã. O que ele a princípio não vira, apareceu-lhe então claro e evidente. O tom ameno e jovial de Luís Batista, a sua estranha verbosidade, o episódio dos amores tão levemente contados a um homem que não era seu natural confidente, tudo isto com a circunstancia da humilhação que recebera quando a viúva lhe fechou a sua sala, enfim a má reputação dele, eram indícios de sobejo para não achar natural a visita que lhe fizera. Mas, como deduzir daqui a autoria da carta?
Meneses resolveu a dúvida naturalmente.
— Se não desses crédito à carta, disse ele, o último de quem te lembrarias seria Luís Batista, porque ninguém faz mal a um homem no mesmo instante em que lhe vai pedir um favor.
Félix aceitou esta explicação; mas o que acabou de o convencer foi uma circunstancia até então deslembrada e agora decisiva. O médico levantou-se rapidamente da cadeira; deu alguns passos na sala e parou em frente de Meneses.
— É verdade, disse; foi ele com certeza! Quando eu li a carta fiquei fulminado. Ele aproximou-se de mim; eu pedi-lhe que me deixasse só. Obedeceu, mas um sorriso, que então me pareceu feroz indiferença mas que hoje vejo que era de triunfo, lhe roçou os lábios. Foi ele; oh! sinto que foi ele.
Entendamo-nos, leitor; eu, que te estou contando esta história, posso afirmar-te que a carta era efetivamente de Luís Batista. A convicção porém, do médico,- sincera, decerto, - era menos sólida e pausada do que convinha. A alma dele deixava-se ir ao sabor de uma desconfiança nova, que as circunstâncias favoreciam e justificavam.
Quando Meneses viu que o maior trabalho estava feito, não teve mais que falar outra vez de Lívia. A placidez do médico desaparecera; todo ele era agora amor e ódio, arrependimento e vingança. A noite foi mal dormida, e quando a aurora os convidou a sair do leito, Félix era totalmente outro. Ardia por ir fazer ao pés da viúva plena confissão da sua indignidade. Era o nome que lhe dava; dar-lhe-ia outro, se os acontecimentos o fizessem duvidar outra vez.
Apressaram a viagem; Meneses estava alegre com o resultado da missão; lamentou com o médico a fatalidade do caso, mas estava certo de que tudo ia acabar como devia. Mil idéias cor-de-rosa enchiam o cérebro de Félix, e ambos desceram rapidamente na direção da cidade.
CAPÍTULO XXIII / ADEUS
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Ressurreição. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1872.