Por Gregório de Matos (1696)
Os amantes se pintaram
como amantes tão fiéis,
um largou oito mil-réis,
outro em dez o condenaram:
ao Tesoureiro ordenaram,
mandasse a cera comprada;
ele a deu tão esmerada,
e tanta, que se murmura,
que o fez, porque à sepultura
fosse a perra bem pingada.
ERA DESTA MULATA BASTANTEMENTE DESAFORADA E O POETA, QUE À NÃO
PODIA SOFFRER LHE CANTA A MOLIANA.
Caquenda, o vosso Jacó
me deu com risa não pouca
notícias da vossa boca,
e tão bem do vosso có:
diz, que está tornado um Jó
pobre, podre, e lazarento:
porque quando o barlavento
navegava o vosso charco,
sempre enjoou nesse barco
por ser muito fedorento.
Afirma, que a vossa quilha
em chegando a dar a bomba,
se muito vos fede a tromba,
muito vos fede a cavilha:
a mim não me maravilha,
que exaleis esses vapores,
porque se os cheiros melhores
caçoula formam conjuntos,
de muitos fedores juntos
nasce o fedor dos fedores.
Triste da boca enganada,
que sendo vossa cativa,
quando convosco mais priva
então beija uma privada:
vós não sois não desdentada,
com que o fedor vos não toca:
porém isso me provoca
a ver, se o fedor acaso
vai da boca para o vaso,
se do vaso para a boca.
Isto suporto, é o caso,
a querer, e namorar,
que a natureza vos troca
o bacalhau para a boca
o mau bafo para o vaso:
eu me consumo, e me abraso,
por saber, minha Brasica,
com isto se comunica,
ou como vos não faz míngua
fornicar-vos pela língua
e beijar-vos pela crica.
Fedendo em baixo, e em cima,
que sois má casa, receio,
e quem viver nesse meio,
inda assim cresce em mau clima:
de cima o fedor lastima,
de baixo sobem maus fumos,
e entre tão ruins perfumos
dirá o triste gazul,
pois fedeis de Norte a Sul,
que fedeis de ambos os rumos.
Como o sêmen, que entornais,
dá fedores tão ruins,
é de crer, que lá nos rins
algum bacio guardais:
e pois tanto tresandais,
quando remolhando as botas
as dais ao som das cachotas,
tenho por remédio são,
que tomeis, as que vos dão,
mas vós a ninguém dois gotas.
Se a boca vos fede a caca,
e tanto, puta, fedeis,
eu creio, que descendeis
de alguma Jaratacaca:
sobre seres tão velhaca,
que não há pobre despido,
que vos não tenha dormido,
Jaratacaca bufais,
e quando vós fornicais,
deixais o membro aturdido.
Fedeis mais que um bacalhau,
e prezai-vos de atrevida,
como que se a vossa vida
não fora sujeita a um pau:
olhai, não vos dê o quinau
um Mina de cachaporra,
que um cão morde uma cachorra,
e se em ser puta vos fiais,
sois puta, que tresandais,
e enfastiais toda a porra.
SENTIO-SE BRAZIA GRAVEMENTE DESTA SATYRA, E O POETA AGORA
CAVILLOSAMENTE À SATISFAZ COM ESTAS DÉCIMAS.
Brásia: aqui para entre nós
muitos vossos males sinto,
porque me dizem, que minto,
no que falei contra vós:
se a informacão foi atroz,
os versos como seriam?
mas os que vos conheciam,
não me desmentiram não,
senão os da informação,
que esses são, os que mentiam.
Estou mui arrependido,
e muito desenganado,
de que este povo é malvado,
falso, fito, e fementido:
vós sois como o sol luzido,
que inda que eclipses padece,
como em um instante tece
mais gala a seu luzimento,
vencido o assombramento,
muito mais claro aparece.
Assim vós sombras vencendo
de inveja, e de detrações
ides com mais perfeições
a verdade amanhecendo:
eu a vossas luzes rendo
minha dor e contrição
de haver-vos dado ocasião
a tão sentidos pesares,
e pois o sol busca os mares,
não fujais meu pranto não.
Estou mui desenganado,
que os mesmos murmuradores
vão ao campo a buscar flores,
que não vêem no povoado:
por isso no ameno prado,
onde tendes as raízes,
há quatro flores de Lises
Escolástica, Apolônia,
a flor de Brásia, e Antônia
tão belas, como felizes.
Vivei por entre os verdores
de anos pousos, que contais,
com que cada qual sejais
a Matusalém das flores:
vivei tanto, que os amores
ao mesmo Amor ensineis,
e porque temo, falteis
de flores à condição,
na beleza, e duração
flores perpétuas sereis.
Tanto quero, que vivais,
que essoutras papoulas pardas
vendo flores tão galhardas
creiam, que as aventejais:
tanto assim permaneçais
tão mestra da formosura,
que té a flor mais futura,
que está ainda por nascer,
nasça só para aprender
beleza, e mais compostura.
E pois minha contrição
de todo me tem trocado,
eu me dou por perdoado,
sem ter conta de perdão:
mas faço conta, que não
hei de tornar a ofender-vos,
e se basta a merecer-vos,
meu sentimento, e meu pranto,
perdoai-me, Brásia, enquanto
busco algum modo de ver-vos.
A HUMA MULATA DENTUÇA, QUE TAMBEM VIVIA ESCANDALIZADA, VINDO HUM
DIA DA FESTA DE SAM GONÇALLO, ONDE COM OUTRAS DANÇOU A
MANGALAÇA, A GARUPA DE SEU AMASIO PASSANDO PELO POETA LHE PEDIO
HUNS VERSOS.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.