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#Romances#Literatura Brasileira

Ressurreição

Por Machado de Assis (1872)

Meneses, satisfeito, disse-lhe que era indispensável voltar à cidade. Enquanto falava, porém o rosto de Félix mudou de expressão. A única resposta do médico foi:

— Não! o que está feito, está feito; agora é impossível recuar.

— Impossível! gritou Meneses.

— Impossível, repetiu placidamente Félix.

Meneses levantou-se impaciente e começou a passear. A serenidade do médico mais lhe doía do que indignava, porque alguma razão poderosa devia ele ter para cortar tão peremptoriamente toda a tentativa de reconciliação. Quisera sabê-la e tremia de o interrogar.

O médico, entretanto, deixara-se estar sentado, quase tão tranqüilo como na ocasião em que Meneses lhe entrara no gabinete.

Não era fingida essa tranqüilidade, que durava já de alguns dias, depois de outros, os primeiros, que foram de aflitiva tempestade.

O homem não se esconde de si mesmo, e o maior infortúrnio dos corações pusilânimes é sentirem que o são. Quando Félix chegou à Tijuca tinha passado a excitação do primeiro`momento; o espírito, fraco de si, e abatido pela imensidade do abalo, não achou na solidão o alívio que lhe pedira. Vieram então muitos dias de luta e de febre, em que ele, para fortalecer o animo, lia e relia a misteriosa carta que trouxera consigo. O remédio era antes veneno para a sua alma ulcerada; lembrava-se a felicidade que perdera.

Era isto o que padecia o coração. A consciência padecia também, porque a sociedade, que ele não vira no primeiro instante, agora lhe aparecia como um juiz inflexível, a pedir lhe contas de uma injúria sem explicação. As vezes arrependia-se do ato; outras vezes, não se arrependia, mas acusava-se de precipitado e louco. Nunca mais tristemente serevelara a inconsistência do espírito com o tempo a consciência foi calando as vozes, e com o tempo, e a distancia, e a sua índole variável, se lhe foi aquietando o coração. Aquele homem, que alguns dias antes chorava de desespero, nenhum vestígio guardara de suas lágrimas. Não se lhe apagara o amor da viúva, mas no lugar da paixão veemente, como que ficara apenas uma recordação remota e suave. Esta mudança era em parte obra do seu esforço, que buscava no esquecimento um refúgio; mas em grande parte era um efeito natural dele. Tal foi a situação em que o achou Meneses. A presença deste trouxe à memória do médico a última crise do coração. A impressão foi grande, não longa; a face do lago, que uma rajada encrespara, voltou à serenidade primitiva.

Meneses passeava de um lado para outro, a observar de quando em quando o médico. Ao seu espírito repugnava a idéia de que Félix recorresse a um meio extraordinário para sair de uma situação difícil, não sancionada pelo coração. Uma causa havia, decerto, que se lhe afigurava grave, e que ele a todo custo queria conhecer. Seus esforços convergiam para esse ponto. Instado pelo amigo, Félix aludiu à carta que recebera, mas recusou mostrá-la.

— Há nela um segredo, disse ele, que me impede de a comunicar a ninguém. Lívia tem jus ao meu respeito e possui ainda o meu amor.

Estas últimas palavras foram ditas com certa comoção. Meneses não perdeu a esperança de o vencer. A sinceridade era a sua eloqüência; podia-se dizer que ele falava com o coração nas mãos. O espírito de Félix ia cedendo ao encanto; ele mesmo recordava as horas felizes do passado e as saudosas esperanças do futuro. O coração palpitou-lhe com mais força e a imaginação fez o resto. A carta, porém, a fatal carta lhe ocupou logo o pensamento, e a fronte descaiu diante do insuperável obstáculo. Cansado de lutar, Meneses resolveu partir para a cidade.

—Não sei o que pensarão os outros, disse ele; eu levo a suspeita de que não a amaste nunca, e que esse rompimento estrepitoso foi um meio de salvar a tua liberdade. Ouvindo estas palavras, Félix não pode conter um gesto de cólera. A atitude quieta de Meneses o fez cair em si.

—Tens razão, disse ele depois de algum tempo. Quero que pelo menos alguém me reconheça inocente e digno. Dás-me a tua palavra de honra que nada revelarás do que vais ler?

— Dou.

Félix foi buscar a carteira, tirou dela a carta, e entregou-a a Meneses. Meneses leu o que se segue:

Mísero moço! És amado como era o outro; serás humilhado como ele. No fim de alguns meses terais um Cireneu para te ajudar a carregar a cruz, como teve o outro, por cuja razão se foi desta para a melhor. Se ainda é tempo, recua!

A carta não tinha assinatura.

Meneses ficou atônito; mas foi obra de alguns instantes, poucos. Sua índole generosa repelia a idéia de acreditar na revelação que acabava de ler.

— É impossível! disse ele.

Félix ergueu a cabeça, que apertava entre as mãos, e replicou:

— Essa é a tua convicção; eu quisera que fosse a minha. Mas que testemunho tens tu contra o que aí vês escrito?

— Não sei, respondeu Meneses com calor, mas e o que me diz o coração. Repugna-me crer que essa pobre senhora... Não, é impossível! Demais, uma carta anônima!

— Põe o nome que quiseres aí embaixo não lhe aumentas nem lhe tiras o valor, se a revelação é verdadeira.

— Quem te diz que é verdadeira?

(continua...)

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