Por Machado de Assis (1872)
Mas se era já impossível uma aliança que a natureza não aconselhara, ainda que o pedira a razão, vinha de molde o amigo a quem confiaria os seus infortúnios. Esse foi o primeiro impulso; o segundo foi, não de orgulho, mas de pudor. O coração teve pejo de ir confessar o seu erro diante daquele mesmo a quem repelira um dia.
Era difícil que semelhante situação se escondesse aos olhos de Meneses. A ausência do noivo era inexplicável; Meneses suspeitou a verdade e Raquel lha confirmou. O fim com que a donzela delatou o segredo confiado foi ainda um sacrifício; pediu a intervenção de Meneses para a reconciliação do médico com a viúva.
— Peço-lhe uma cousa difícil, concluiu ela aludindo pela primeira vez ao amor de Meneses, mas é uma boa ação.
— É uma boa ação, e não é difícil, replicou Meneses olhando para ela fixamente. Raquel abaixou severamente os olhos. Um espectador atento concluiria, talvez que a ferida dele não estava longe de cicatrizar, mas que, pelo contrário, a dela continuava a deitar sangue.
Meneses dispôs-se a tentar alguma cousa. Reconhecia que o procedimento de Félix era misterioso; mas não desesperou de lhe descobrir a causa e confiava em que poderia removê-la. Conseguiu saber que o médico se refugiara na Tijuca. Quando estava pronto a ir ter com ele, hesitou, refletiu e recuou da primeira resolução.
Foi preciso que uma nova crise o empuxasse para lá. A viúva recaíra enferma, não tendo podido resistir às longas vigílias e mal dormidas noites. A moléstia desta vez trouxe um caráter menos violento que da primeira vez, mas pertinaz; a febre não era intensa, era constante. O médico assistente não achou que houvesse perigo; recomendou o mais desvelado tratamento, e repouso absoluto de espírito.
Meneses não hesitou; partiu para a Tijuca.
CAPÍTULO XXII / A CARTA
QUANDO MENESES chegou à Tijuca eram quatro horas da tarde. A casa de Félix ficava afastada do caminho. O portão esta aberto; Meneses atravessou rapidamente o espaço que ia da estrada à casa e bateu. Veio um moleque abrir-lhe a porta. Meneses entrou precipitadamente e perguntou:
— Onde esta o senhor?
— Senhor não fala a ninguém, respondeu o moleque com a mão na chave como se o convidasse a sair.
— Há de falar comigo, insistiu resolutamente Meneses.
O tom decidido do rapaz abalou o escravo, cujo espírito, costumado à obediência, não sabia quase distingui-la do dever. Seguiram ambos por um corredor, chegaram diante de outra porta, e aí o moleque, antes de a abrir, recomendou a Meneses que esperasse fora. Perdida recomendação, porque, apenas o moleque abriu a porta, Meneses entrou afoutamente atrás dele.
Era um gabinete pequeno com quatro janelas que o enchiam de luz. Perto de uma janela havia uma rede estendida. Sobre a rede via-se um homem negligentemente deitado com um livro nas mãos.
Era Félix.
Félix levantou a cabeça, deu com os olhos em Meneses, e empalideceu. Meneses não dera um passo mais. Ficaram assim alguns segundos a olhar um para o outro. Enfim, o médico disse ao escravo que se retirasse, e os dous ficaram sós.
O silêncio prolongou-se ainda mais. Da parte de Félix era confusão; da parte de Meneses desapontamento. Viera ele em todo o caminho a descrever na imaginação o estado de Félix, acabrunhado por alguma grande dor, e em vez disso achava-o a ler pacificamente um livro. Quis lançar mão do livro, para conhecer bem até que ponto a sua desilusão era completa; mas o médico rapidamente o afastou.
— Não atendeste à ordem geral que eu havia dado, disse enfim, o dono da casa, e creio que só alguma razão poderosa te obrigaria a isso.
— Assim era, retorquiu Meneses, mas a razão acabou e eu volto para a cidade. Dizendo isto, pôs o chapéu na cabeça e dirigiu-se para a porta. Parou um instante, caminhou de novo até a rede e proferiu secamente Tenho estas palavras:
— Tens consciência do que fizeste?
— Tenho, respondeu Félix; fiz o que me cumpria fazer. Mas, antes de mais nada, vens aqui por inspiração tua ou por mandado de. . .
— Venho porque era um dever da minha parte livrar-te da vergonha, e a ela da morte.
— Da morte! exclamou Félix levantando-se de um pulo.
O terror que se lhe pintara no rosto fez boa impressão no amigo. Suspeitou este que nem tudo estivesse perdido. Sentaram-se ambos, e Meneses referiu ao médico os acontecimentos que deixo narrados no capítulo anterior. Félix escutou a narração do amigo com um interesse que não podia vir senão do amor. Meneses concluiu pintando-lhe com as cores que o caso pedia a baixeza do seu procedimento, o desaire que recaía sobre a viúva, e o remorso que o havia de acompanhar a ele, ainda quando daquele triste episódio não saísse nenhuma fatal conseqüência.
Félix mostrou-se profundamente comovido com a narração de Meneses e as reflexões que lhe fizera.
— Tens razão, disse ele quando o amigo acabou de falar; procedi covardemente. Ela ainda me ama... E perdoa-me, não é? Sim, há de perdoar-me... Pobre Lívia! Se tu soubesses como ela tem sofrido por minha causa!...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Ressurreição. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1872.