Por Padre Antônio Vieira (1652)
Lembrados estareis que o demônio no deserto e no pináculo do Templo também armou o laço a Cristo com pedras. No deserto: Dic, ut lapides isti panes fiant.5 No pináculo do Templo: Ne forte offendas ad lapidem pedem tuum.6 Mas com os laços e as tentações porecerem tão semelhantes, vede quanto mais astutos tentadores foram os homens que o demônio. Da primeira tentação do diabo, livrou-se Cristo facilmente com um não: Non in solo pane vivit homo.7 Da segunda tentação livrou-se com outro não: Non tentabis Dominum Deum tuum.8 Porém da tentação que hoje lhe armaram os homens, não bastava dizer não, para se livrar, porque, ou dissesse não, ou dissesse sim, sempre ficava no laço. Ou Cristo havia de dizer: Sim, apedrejai; – ou havia de dizer: Não, não apedrejeis. – Se dizia não, ia contra a justiça; se dizia sim, ia contra a piedade. Se dizia não, ia contra a lei; se dizia sim, ia contra si mesmo. Se dizia não, ofendia o magistrado; se dizia sim, ofendia o povo. De sorte que lhe armaram os paus ou as pedras, em tal forma, que, ou quisesse observar a lei ou não quisesse, sempre ficava réu. Se se mostra rigoroso, falta à piedade; se se mostra piedoso, falta à justiça; e se falta ou à justiça ou à piedade, não é Messias.
Outra tentação semelhante urdiram os mesmos escribas e fariseus contra Cristo sobre o tributo de César, quando o Senhor lhes disse: Quid me tentatis?9 Mandaram juntas duas escolas, a sua e a dos herodianos, e depois de uma longa prefação de louvores falsos, propuseram esta questão: Licet censum dare Caesari, an non (Mt. 22, 17)? Mestre, é licito dar o tributo a César, ou não? – Notai a apertura dos termos. O que pediam era um sim, ou um não: é lícito, ou não é lícito? E por que com tanta formalidade e com tanto aperto? O evangelista o disse: Ut caperent eum in sermone.10 Porque com qualquer destas duas respostas, ou Cristo dissesse sim, ou dissesse não, sempre ficava encravado. Se dizia não, era contra a regalia do imperador: se dizia sim, era contra a liberdade e imunidade da nação; se dizia não, crucificava-o César: se dizia sim, apedrejava-o povo. E de qualquer modo, diziam eles, se perde, e o temos apanhado e destruído. Isto é o que se maquinou e resolveu naquele conselho injusto, ímpio e tirânico: Consilium inierunt, ut caperent eum in sernone.11 Houve algum dia demônio que urdisse tal tentação e metesse um homem em tais talas? Nem houve tal demônio nunca nem o pode haver, porque não há nem pode haver tentação nenhuma do demônio, da qual vos não possais livrar facilmente, ou com um sim, ou com um não. Ora vede.
O demônio sempre arma os seus laços ao pé dos Mandamentos: ali só põe a tentação, porque só ali pode haver o pecado: Virtus peccati lex.12 Os mandamentos todos, ou são positivos, ou negativos; e se o demônio me tenta nos Mandamentos positivos, basta para me defender um sim; se me tenta nos Mandamentos negativos, basta para me defender um não. Exemplo: os Mandamentos positivos, como sabeis, são: Amarás a Deus, guardarás as festas, honrarás os pais. Os negativos são: Não jurarás, não matarás, não furtarás, não levantarás falso testemunho, e os demais. Agora ao posto. Se o diabo me tenta nos Mandamentos positivos, diz-me: Não ames a Deus, não guardes as festas, não honres a teu pai. E se eu digo sim, resolutamente, sim hei de amar, sim hei de guardar, sim hei de honrar, basta este sim para que a tentação fique desvanecida e o diabo frustrado. Do mesmo modo nos Mandamentos negativos. Diz o demônio que jure, que mate, que furte, que levante falso testemunho. E se eu digo não: não quero jurar, não quero matar, não quero furtar, – basta este não para que o tentador e a tentação fiquem vencidos. De maneira que das tentações do demônio, basta um sim ou um não, para ficar livre; mas das tentações dos homens, como estas, nem basta o sim, nem basta o não para me livrar, porque vão armadas com tal astúcia, e maquinadas com tal arte, e tecidas e tramadas com tal enredo, que ou digais sim, ou digais não, sempre ficais no laço. Se dizeis que se apedreje a adúltera e que se pague o tributo, incorreis no ódio do povo, e hão-vos de apedrejar a vós; se dizeis que se não apedreje, nem se pague, incorreis no crime da lei e na indignação do César, e hão-vos de pôr em uma cruz. E ainda que o tentado seja Jesus Cristo, sempre os tentadores hão de ter um cabo por onde lhe possam pegar, e lha possam pegar: Ut possent accusare eum.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 26 ago. 2026.