Por Padre Antônio Vieira (1669)
O “Sermão das Lágrimas de São Pedro”, de Padre Antônio Vieira, foi pregado em 1669, durante a Semana Santa, na Catedral de Lisboa. Partindo da passagem bíblica em que Pedro nega Cristo três vezes e depois se arrepende, Vieira utiliza o episódio para refletir sobre o pecado, o arrependimento e a conversão. O sermão destaca as lágrimas como símbolo do reconhecimento dos próprios erros e da busca pelo perdão divino.
EM SEGUNDA-FEIRA DA SEMANA SANTA NA CATEDRAL DE LISBOA.
Cantavit gallus et conversus Dominus respexit Petrum, et egressus foras, flevit amare.
§I
Fez Cristo sete pregações a Judas, e não se converte Judas; canta o galo uma vez, e converte-se Pedro: tudo dependeu do olhar de Cristo. Do pregador são as vozes, de Cristo é toda a eficácia. As lágrimas de Pedro manaram nos olhos de Cristo, como um dilúvio salvador. A conversão dos ouvintes e as águas que brotaram do penhasco.
Cantou o galo, olhou Cristo, chorou Pedro. Que pregador haverá em tal dia, que não fale com confiança de converter? Que ouvinte haverá em tal hora, que não ouça com esperança de chorar? Na ceia de Betânia e na do Cordeiro, que foram as duas ocasiões últimas em que Cristo teve juntos a seus discípulos, sete vezes falou o Senhor com Judas, e sete vezes lhe pregou para o converter. As palavras, umas foram de amor, outras de compaixão, outras de terror, e porventura que nenhumas disse jamais Cristo tão temerosas: Vae autem homini illi, per quem Filius hominis tradetur (Mt. 26, 24): Ai daquele homem por quem for entregue o Filho do Homem. – Bonum erat ei, si natus non juisset homo ille: Melhor lhe fora a tal homem nunca haver nascido. – Ainda ditas a Judas, fazem tremer estas palavras. Mas nem as amorosas o abrandaram, nem as compassivas o enterneceram, nem as temerosas o compungiram; a nada se rendeu Judas. Negou S. Pedro na mesma noite a Cristo; negou uma, negou duas, negou três vezes; cantou na última negação o galo: Et statim gaílus cantavit (Jo. 18, 27); e no mesmo ponto sai Pedro da casa de Caifás, convertido, e põe-se a chorar amargamente seu pecado: Egressus foras; flevit amare (Lc. 22,63). Notável caso! De maneira que faz Cristo sete pregações a Judas, e não se converte Judas; canta o galo uma vez, e converte-se Pedro? Sim: porque tanto vai de olhar Cristo, ou não olhar. A Pedro pôs-lhe os olhos Cristo: Respexit Petrum (Lc. 22,61); a Judas não lhe pôs os olhos. Se Cristo põe os olhos, basta a voz irracional de um galo para converter pecadores; se Cristo não põe os olhos, não basta a voz, nem bastam sete vozes de mesmo Cristo para converter. Non est satis concionatoris vox, nisi simul adsit Christi in peccatorem respectus – disse gravemente neste caso S. Gregório Papa.2 Do pregador são só as vozes; dos olhos de Cristo é toda a eficácia. E quando temos hoje os olhos de Cristo tão propícios, que pregador haverá tão tíbio, e que ouvinte tão duro, que não espere grandes efeitos ao brado de suas vozes? Senhor, os vossos olhos são os que hão de dar as lágrimas aos nossos.
As mais bem nascidas lágrimas que nunca se choraram no mundo foram as de S. Pedro, porque tiveram o seu nascimento nos olhos de Cristo; nos olhos de Cristo nasceram, dos olhos de Pedro manaram; nos de Cristo quando viu: Respexit Petrum; dos de Pedro quando chorou: Flevit amare. Rios de lágrimas foram hoje as lágrimas de S. Pedro, mas as fontes desses rios foram os olhos de Cristo. Ao Nilo, antigamente viam-se-lhe as correntes, mas não se lhe sabia a origem; tais em Pedro hoje os dois rios, ou os dois Nilos de suas lágrimas. A origem era oculta, porque tinham as fontes nos olhos de Cristo; as correntes eram públicas, porque manavam dos olhos de Pedro. Para o dilúvio universal, diz o texto sagrado, que se abriram as janelas do céu e se romperam as fontes dos abismos; Apertae sunt cataratae caeli, rupti sunt fontes abyssi (Gên. 7, 11). Assim também para este dilúvio (em que hoje fora tão ditoso o mundo se se afogara) abriram-se as janelas do céu, que são os olhos de Cristo, romperam-se as fontes do abismo, que são os olhos de Pedro. Desta maneira inundou aquele imenso dilúvio, em que depois de fazer naufrágio, se salvou o melhor Noé.
Esta é a lastimosa e gloriosa representação com que a igreja dá feliz princípio neste dia a uma semana que devera ser santa na compunção, como é santa no nome. Faltando água no deserto a um povo, que era figura deste nosso, chegou-se Moisés a um penhasco, deu-lhe um golpe com a vara, e não saiu água: deu o segundo golpe, e saíram rios: Egrissae sunt aquae largissimae (Num. 20, 11). Que penhasco duro é este, senão o meu coração e os vossos? Deu a Igreja o primeiro golpe, no dia das lágrimas da Madalena, mas não deram as pedras água; da hoje o segundo golpe, no dia das lágrimas de S. Pedro, e no dia em que tanto chorou Pedro, como não chorarão as pedras? Mas não são estes os golpes que eu trago posta a confiança. Os dos vossos olhos, Senhor; que fizeram rios os olhos de Pedro, são os que hão de abrandar a dureza dos nossos. Pelas lágrimas daquela Senhora que não teve pecados que chorar; nos concedei hoje lágrimas com que choremos nossos pecados. E pois ela chorou só por nós e para nós, sua piedade nos alcance de vossos piedosos olhos esta graça Ave Maria.
§II
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 26 ago. 2026.