Por Gregório de Matos (1696)
Dama cruel, quem quer que vós sejais,
Que não quero, nem posso descobrir-vos,
Dai-me agora licença de argüir-vos,
Pois para amar-vos tanto me negais.
Por que razão de ingrata vos prezais,
Não pagando-me o zelo de servir-vos?
Sem dúvida deveis de persuadir-vos
Que a ingratidão a formosenta mais.
Não há cousa mais feia na verdade;
Se a ingratidão aos nobres envilece,
Que beleza fará uma fealdade?
Depois que sois ingrata, me parece
Torpeza hoje, o que ontem foi beldade
E flor a ingratidão, que em flor fenece.
ENCARECE O POETA A GRAÇA E A BIZARRIA COM QUE SUA SENHORA DESEMBARCOU A SEUS OLHOS E FOY LEVADA POR QUATRO ESCRAVOS.
1
Esperando uma bonança,
cansado já de esperar
um pescador, que no mar
tinha toda a confiança:
receoso da tardança
de um dia, e mais outro dia
pela praia discorria,
quando aos olhos de repente
uma onda lhe pôs patente,
quanto uma ausência encobria.
2
Entre as ondas flutuando
um vulto se divisava,
sendo, que mais flutuava,
quem por ela está aguardando:
e como maior julgando
o tormento da demora
como se Leandro fora,
lançar-se ao mar pertendia,
quando entre seus olhos via
quem dentro em seu peito mora.
3
Mora em seu peito uma ingrata
tão bela ingrata, que adrede
pescando as demais com rede,
ela só com a vista mata:
as redes, de que não trata
vinha agora recolhendo;
porque como estava vendo
todo o mar feito uma serra,
vem pescar almas à terra,
de amor pescadora sendo.
4
Logo que à praia chegou,
tratou de desembarcar,
mas sair o sol do mar
só esta vez se admirou:
tão galharda enfim saltou,
que quem tão galharda a via,
justamente presumia,
para mais abono seu,
que era Vênus, que nasceu
do mar, pois do mar saía.
5
Pôs os pés na branca areia,
que comparada cos pés
ficou pez, em que lhe pes,
porque em vê-la a areia areia:
pisando a margem, que alheia
de um arroio os dois extremos,
todos julgamos, e cremos
Galatéia a Ninfa bela,
pois bem que vimos a Estrela,
fomos cegos Polifemos.
6
Toda a concha, e toda a ostrinha,
que na praia achou, a brio,
mas nenhum aljôfar viu,
que todos na boca tinha:
porém se em qualquer conchinha
pérolas o sol produz,
daqui certo se deduz,
que onde quer, que punha os olhos,
produz pérolas a molhos
pois de dois sóis logra a luz.
7
Em uma portátil silha
ocaso a seu sol entrou,
e pois tal peso levou,
não sentiu peso a quadrilha:
vendo tanta maravilha
tanta luz de monte a monte,
abrasar-se o Horizonte,
temi com tanto arrebol,
pois sobre as Pias do sol
ia o carro de Faetonte.
OUTRA VEZ O ASSALTÃO NOVOS PENSAMENTOS DE DECLARAR-SE, E TEMER.
MOTE
Ay de ti, pobre cuydado,
que en la carcel del silencio
has de tener tu razon,
porque lo manda el respeyto.
1
Si por fuerça del respeyto,
ou floxedad de alvedrio
nasciste, cuydado mio,
tan captivo, y tan sugeto:
y aun eres tan indiscreto,
que de nescio, y porfiado
quieres por lo bien hablado
librar tu innocencia mucha,
con quien te riñe y no escucha,
Ay de ti, pobre cuydado.
2
Cessa y serás escuchado,
que en la quexa de un tormento
las vozes se lleva el viento,
no el alivio, que es passado:
calla, y no hables deslumbrado
al dueño, à quien reverencio,
y sien la quietud, que agencio,
conviene, que mi razon
se prenda, que mas prision,
Que en la carcel del silencio
3
Mi concejo esto contiene,
y porque mejor se entienda,
antes la razon se prenda,
que quien la rason se tiene:
la prudencia lo previene
con viva demonstracion:
tener quieres duracion?
luego debes entender,
que para rason tener
Has de tener tu rason.
4
Y pues dizirla es perderla,
porque hablada va perdida,
tenla en tu pecho escondida,
que assi vendras a tenerla:
no temas el no entenderla
de tu silencio el objecto:
pues callando te prometto,
que en prueba de rnis lealdades
sepan, que callé verdades,
Porque lo manda el respeto.
A VISTA DE HUM PENHASCO QUE VERTENDO FRIGIDISSIMAS AGUAS LHE CHAMÃO NO CAIPPE A FONTE DO PARAIZO, IMAGINA AGORA O POETA MENOS TOLERAVEL A SUA DISSIMULAÇÃO.
Como exalas, Penhasco, o licor puro,
Lacrimante a floresta lisonjeando,
Se choras por ser duro, isso é ser brando,
Se choras por ser brando, isso é ser duro.
Eu, que o rigor lisonjear procuro,
No mal me rio, dura penha, amando;
Tu, penha, sentimentos ostentando,
Que enterneces a selva, te asseguro.
Se a desmentir objetos me desvio,
Prantos, que o peito banham, corroboro
De teu brotado humor, regato frio.
Chora festivo já, ó cristal sonoro,
Que quanto choras, se converte em rio,
E quanto eu rio, se converte em choro.
COM O EXEMPLO DO LACRIMOSO PENHASCO ENTRA A SUSPIRAR, FAZ PAUSA, E RESOLVE ULTIMAMENTE A PROSEGUIR, RESGATANDO O SILENCIO A NOBREZA DA CAUSA.
Suspiros, que pertendeis
Com tanta despesa de ais,
Se quando um alívio achais,
todo um segredo rompeis?
Não vedes, que a opinião
sente o segredo rompido,
quando no alívio adquirido
Consta a sua perdição?
Não vedes, que se acompanha
o desafogo do peito,
mais se perde no respeito,
do que no alívio se ganha?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MATOS, Gregório de. Ângela. In: Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.