Por Gregório de Matos (1693)
7
As Damas, que mais lavadas
costumam trazer as peças,
e disso se prezam, essas
são Damas mais deslavadas:
porque vivendo aplicadas
a lavar-se, e mais lavar-se
deviam desenganar-se,
de que se não lavam bem,
porque mal se lava, quem
se lava para sujar-se.
8
Lavar para me sujar
isso é sujar-me em verdade,
lavar para a sujidade
fora melhor não lavar:
do que serve pois andar
lavando antes que mo deis?
Lavai-vos, quando o sujeis,
e porque vos fique o ensaio,
depois de foder lavai-o,
mas antes não o laveis.
A BARBORA HUMA MULATA MERETRIZ A QUEM CERTOS FRADES LHE
PASSARAM HUM GERAL, DO QUAL FICOU TAM PERIGOSA QUE VEIO A
SACRAMENTAR-SE.
1
Não era muito, Babu,
o sentires dor de madre,
se vos pespegou um Padre,
ou Padres o sururu:
grandes poderes tens tu,
e vigor mais que papal,
que no clima Americal,
onde um Rodela te topa,
estando fora de Europa,
escamastes um geral.
2
A Macotinha, e Jelu,
Luísa, e Inácia levaram
o geral, porém ficaram,
não como ficaste tu:
ou foi o caralho açu,
que o interno te burniu,
porque jamais ninguém viu,
que molestasse um caralho,
havendo tanto escorralho,
como o teu vaso cumpriu.
3
Se fora a primeira vez,
seria por fraca via,
mas a tua serventia
mil velhacarias fez:
e se tu tão puta és,
e sentisse o tal baldão,
qualquer era fradigão,
dos que dão treze por dúzia,
e já que foste brandúzia,
sente a dor do madrigão.
4
Chegaste do caso tal,
a tomares o Senhor,
e fora muito melhor
dar-te Berzabu bestial:
que quem pecado mortal
comete, e dele enfermou
logo o diabo o levou,
e quem se serve do demo,
navegando a vela, e remo
nos infernos ancorou.
MATOS, Gregório de. Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.