Por Gregório de Matos (1696)
Por ouvir fico enlevado,
e por ver fico suspenso,
se o ver me prendeu o corpo,
o ouvir a alma me tem preso.
Um pasmo de formosura
do corpo é somente enleio,
e a voz mais doce, e canora
é só d'alma firme emprego.
Mas ser cantora suave,
e ser gentil com portento
é ser labirinto, e pasmo
d'alma, e corpo ao mesmo tempo.
Porém se em laços tão doces
for eterno prisioneiro,
não terão prêmio mais alto
meus firmíssimos intentos.
No nome sois mar de graça,
de prendas sois mar imenso,
não permitais, que naufrague
meu arnor sem ter remédio.
Concedei-me um mar bonança,
porto seguro, e sereno,
que a esperança de servir-vos
é âncora de querer-vos.
Na firmeza sou penhasco,
mas pronto a qualquer aceno,
por isso as ondas mais brandas
desse mar serei ligeiro.
O vento do vosso agrado
sopra sobre mim preceitos,
serei baixel, que obediente
voe como um pensamento.
Seguirei o vosso norte,
e por navegar direito,
só esse sol seja o astro,
que eu observe com empenho.
Não haverá tempestade,
por brabo que sopre o vento,
que obrigue a mudar de rumo,
quando em vosso mar navego.
Venham pois de vossas luzes
os mais brilhantes reflexos,
porque possa encher a altura
da viagem dos afetos.
Mandai, que a vossa presença
chegar possa a salvamento,
pois ao mar dessas ternuras
com vento em popa navego.
À MESMA FREYRA MANDANDOLHE HUM PRESENTE DE DOCES.
1
Um doce, que alimpa a tosse,
cousa muito grande era,
se eu não trocara, e pudera
a doçura pelo doce:
se quisera Amor, que eu fosse
tão digno, e tal me fizera,
que juntos vos merecera
ora o doce, a doçura ora,
maldita a minha alma fora,
se tudo vos não comera.
2
Mas há grande distinção.
e discrímen temerário
entre os doces de um almário,
e as doçuras de uma mão:
e quem é tão sabichão
destro no ré mi fá sol
mal pode errar, em seu prol,
quando sabe, que a doçura
se se come, é por natura,
e os mais doces por bemol.
3
O que enfim venho a dizer,
é, que se à minha ventura
negais comer da doçura,
doces não hei de comer:
não hei de troca fazer,
mais que a palos me moais,
e se comigo apertais,
que os vossos doces almoce,
é fazer-me a boca doce,
quando a mim é por demais.
4
Trocai o doce em favor,
e curai meu mal tão grave
co'aquela ambrósia suave,
com que foi criado o Amor:
o néctar será melhor,
que destilam vossas flores,
que são tão secos favores
são de amor efeitos pecos,
tão mais são amores secos,
como são secos amores.
AO MESMO ASSUMPTO.
Senhora minha: se de tais clausuras
Tantos doces mandais a uma formiga,
Que esperais vós agora, que vos diga,
Se não forem muchisimas doçuras.
Eu esperei de amor outras venturas:
Mas ei-lo vai, tudo o que é de amor, obriga,
Ou já seja favor, ou uma figa,
Da vossa mão são tudo ambrósias puras.
O vosso doce a todos diz, comei-me,
De cheiroso, perfeito, e asseado,
E eu por gosto lhe dar, comi, e fartei-me.
Em este se acabando, irá recado,
E se vos parecer glutão, sofrei-me,
Enquanto vos não peço outro bocado.
A OUTRA FREYRA QUE ESTRANHOU AO POETA SATYRIZAR AO PE. DAMASO DA SYLVA, DIZENDOLHE QUE ERA HUM CLERIGO TAM BENEMERITO, QUE JA ELLA TINHA EMPRENHADO, E PARIDO DELLE.
Confessa Sor Madama de Jesus,
Que tal ficou de um tal Xesmeninês,
Que indo-se os meses, e chegando o mês,
Parira enfim de um Cônego Abestruz.
Diz, que um Xisgaravis deitara à luz
Morgado de um Presbítero montês,
Cara frisona, garras de Irlandês
Com boca de cagueiro de alcatruz.
Dou, que nascesse o tal Xisgaravis,
Que o parisse uma Freira: vade in paz,
Mas que o gerasse o Senhor Padre! arroz
Verdade pois o coração me diz,
Que o Filho foi sem dúvida algum trás,
Para as barbas do Pai, onde se pôs.
A HUMA FREYRA QUE IMPEDIO A OUTRA MANDAR HUM VERMELHO AO POETA DE PRESENTE, DIZENDO, QUE À HAVIA SATYRIZAR.
1
Ó vós, quem quer que sejais,
que nem o nome vos sei,
Freira, a quem nunca falei,
e tão mal de mim falais:
porque à fome me matais,
sem vos dar motivo algum?
pois querendo mandar-me um
vermelho uma Freira guapa,
vós me destes sem ser paga
esse dia de jejum.
2
Não quisestes porfiosa,
que se me mandasse o peixe,
formando para isso um feixe
de razões de bem má prosa:
a Freirinha era medrosa,
e vós, que o peixe intentastes
livrar de tantos contrastes,
de sátiro me arguístes,
e satírica não vistes,
que então me satirizastes.
3
Sendo o conselho tão tosco,
tão bem a Freira o tomou,
que o peixe me não mandou,
por não se espinhar convosco:
mas vós que tendes conosco,
comigo, e minha talia?
e se o peixe vos doía,
em que eu agora me escaldo,
se o fazíeis pelo caldo,
o caldo eu vo-lo daria.
4
Oh: faz a um cuspir no chão
uma sátira o Doutor:
satiriza um Pica-flor,
quanto mais a um peixarrão:
homem de tal condição
não se lhe dá de comer,
e tem pouco que entender,
que o Doutor já fraco, e velho
se há de comer o vermelho
por força o há de morder.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MATOS, Gregório de. A freira: ralo, roda e grade In:. Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 1992.