Por Gregório de Matos (1696)
11
Diz ele, que em caso tal
outra tal vos respondera,
e mãos, e pés vos pusera
a não vir o General:
vós, Pedro, não fazeis mal,
porque sois enfim fidalgo,
mas sejais algo, o no algo,
têm todos por certo agouro,
que se vos foram ao couro,
heis de correr como um galgo.
12
Temo, vos há de matar
este mal de fidalguia,
por falta de uma sangria,
que ninguém vos manda dar:
importa logo sangrar,
e carregar sobre tudo,
porque o sangue linhajudo
fora da imaginação
fará que fiqueis vilão,
mas heis de ficar sisudo.
DEDICA HUM ESTUDANTE HUMAS CONCLUZÕES AO DITO COM O BRAZÃO DOS NEYVAS NA FAXADA: E IMPACIENTE O POETA DO DESAFORO ROMPE NESTAS QUEIXAS.
1
Digam, os que argumentaram,
qual mais desaforo indica,
quem as conclusões dedica,
ou a quem se dedicaram:
se as torres, que lhe gravaram
com tanta magnificência
não são da sua ascendência,
posto que dos Neivas são,
concedo-lhe a conclusão,
mas nego-lhe a conseqüência.
2
Concedo, que aquele escudo
com gravados torreões
seja dos Neivas brasões,
mas não de um Neiva orelhudo:
que homem pode haver sisudo,
que vendo aquele jumento
não conclua o argumento,
de que os seus timbres, e duelos
não são torres, são castelos,
porém castelos de vento.
3
A um cavalheiro vilão
estas armas lhe hão de dar,
sobre escudo verde-mar
uma aguilhada, e um podão:
item porque lá em Milão
morando na casa alheia
foi Lacaio de libréia,
passa-aqui de rocinante,
lhe dão em campo brilhante
uma almofaça, e uma peia.
4
Pelo torreão guerreiro
dão-lhe em jurídica forma,
na praia uma plaraforma,
onde seja aguardenteiro:
e porque vai a escudeiro
por casar co'a Indiana
com dote de porcelana,
e enxoval de canequim,
lhe dão por armas enfim
um chuço, uma partasana.
5
Desaforo tão insano
sofrerão outras nações,
que dedique as conclusões
um magano a outro magano?
que sendo costume lhano
oferecer, e dedicar
ao Prelado, ao Titular,
ao Príncipe, ao Monarca,
se veja uma suja alparca
em tão subido espaldar?
6
Mas enfim, que lhe importou
ver-se assim entronizado,
se tão vil é o dedicado,
como quem lhe dedicou?
tudo o diabo levou,
a honra, a dedicatória
a honra tornou-se escória,
a dedicatória em mijo:
o Brasil se ri de riso,
aqui paz, e depois glória.
AO MESMO RETIRANDO-SE HOMIZIADO PARA O CARMO, POR TER NOTICIA DE HUM DECRETO, QUE VEYO DE SUA MAJESTADE AO DEZ.OR. ANTONIO RODRIGUES BANHA, PARA PRENDER, OS QUE HAVIÃO NA CIDADE COM HABITOS, E FOROS FALSOS.
1
Treme a Pedro a passarinha,
e tanto teme a prisão,
que o cu lhe cheira a murrão,
e a boca fede a caquinha:
soube, que o decreto vinha,
e antes que o fossem prender,
fugiu logo a bom correr,
pois quando o iam buscar,
tocando o Banha a marchar,
tocou ele a recolher.
2
Pedralves com falso foro
se vê na realidade,
o foro com falsidade,
com verdade o desaforo:
que agora reze no coro,
é justo, e bem permitido,
e porque tem merecido
por serviços ao selim
não ser do campo rocim,
agora está recolhido.
3
Que se despache um caixeiro
criado na mercancia
com foro de fidalguia
sem nobreza de Escudeiro!
e que a poder de dinheiro,
e papéis falsificados
se vejam entronizados
tanto mecânico vil,
que na ordem mercantil
são criados dos criados!
4
O Fidalgo esclarecido
traz de longe a descendência:
mas Fidalgo de influência
sem ter solar conhecido,
é Fidalgo introduzido
enfronhado em fidalguia
e se o fumo da Bahia
a Pedro Fidalgo fez,
fidalgo é da cheminez
dos Padres da companhia.
5
Ser perfilhado em Milão,
e fidalgo em Portugal,
ter Mulher Oriental,
e cunhado Mergulhão,
haver sido Capitão,
trazer uma cruz ao lado,
haver comido um morgado,
e a fidalgo haver subido,
se contudo está caído,
é já fidalgo estirado.
6
Quem quer ser bem despachado
a seu Rei serviços faz,
a vida entre as bolas traz
como valente soldado:
mas por serviço comprado,
com as premissas a pares,
e mentiras como os mares
faz ser caso lastimoso,
que, o que deu honra a um Barroso,
o merecesse um Cazares.
7
Quando hábito se traz
co dinheiro poderoso,
torne outra vez Barroso,
e venha o Doutor Gilvaz:
também nesta conta jaz
Fuão Maciel Teixeira,
Manuel Dias Filgueira,
o Marruás do sertão,
e o Lobato patifão
marido da confeiteira.
8
Também vai a Escudeiro
Marinículas da praia,
porque para isso se ensaia
a fiúza do dinheiro:
por direito um canastreiro
é homenzarrão de chapa,
mas a cruz, que anda em tal capa,
o faz com maior desonra
sambenitado da honra
porque não é cruz, é aspa.
9
Que maganos desta laia
patifes de toda a sorte
subam ser homens de porte,
tanto que o pé põem na praia:
ver eu isto me desmaia,
e me faz cair por terra,
que quatro vilões da serra
tenham tão propícia estrela,
que sendo vis em Cabrela
são fidalgos nesta terra.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MATOS, Gregório de. Opúsculo de Pedro Alz. Da Neyva. In:. Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 1992.