Por Gregório de Matos (1696)
6
Mas eu não tornei ao mato,
e ao Padre, que me chamava,
respondi, que não gostava
de vaca, senão no prato:
e terei por insensato,
a quem com pau, ou com faca,
brigar com rês tão velhaca
a quem razão não convence,
nem terá prêmio, quem vence
um touro, se o touro é vaca.
7
Custódio, que é prudente,
pacífico, e sossegado,
topou na costa co gado,
e entre ele a vaca nocente:
e em se pondo frente a frente
a vaquinha, que o aguarda,
e em dar carreiras não tarda,
disparou como uma seta,
com que lhe deu a vaqueta
mais susto, que uma espingarda.
8
Tomou o monte de um pulo,
e deu consigo no vale,
sem dar jeito, a que o iguale
a ligeireza de um mulo:
mas o meu Mestiço fulo
o emparelhou no correr
donde veio a suceder,
que Custódio um pé retroce,
sendo pé, que se não troce,
quando o dono o há mister.
9
A vaca é terror da aldeia,
pois faz armada de sanha
praça de armas a montanha,
e a praça veiga de areia:
todo o mundo se receia
de inimiga tão comua,
porque armada a meia-lua
parece pelo cruel
talvez Fatimá de Argel,
talvez de Salé Gazua.
10
Não vi vaca tão ousada
de mais brio, e fantesia,
pois traz toda a freguesia
corrida, e envergonhada:
murmura a gente pasmada,
que uma vaca parideira
nos pusesse em tal fraqueira,
e eu tal medo lhe concebo,
que, quando o leite lhe bebo,
me dá logo em caganeira.
11
Senhor Estêvão, que é dono
da rês, que o branco divisa,
já que lhe deu a camisa,
faça-a mansa como um sono:
e se não em alto tono,
quando a vaca se remangue,
tirei morto ao pé de um mangue,
que se trata de a manter
para o leite lhe beber,
isso é beber-nos o sangue.
12
O Senhor Domingos Borges,
que é sujeito de feição,
se resistir seu Irmão,
responda-lhe logo: alforjes:
e tu, vaca, não me forjes
outra traição mais precisa,
a passada passe em risa,
mas se vens noutra ocasião
a furar-me o casacão,
hei de rasgar-te a camisa.
DESCREVE O DIVERTIMENTO QUE TEVE COM ALGUNS AMIGOS INDO AOS CAYJÚS.
Valha o diabo os cajus,
que a todos tem degradado,
uns vão caminho das ilhas,
outros caminho dos campos.
Assim me coube por sorte
ir um dia degradado
para a de Jorge de Sá,
que é ilha dos mEus pecados.
Saímos com vento em popa,
mas no mais triste pangaio,
que nasceu de embarcações,
de que foi Eva a Nau Argos.
Desembarcamos em terra,
e querendo registar-nos
com nossas cartas de guia,
que nos deu o saibam quantos:
Achamos deserta a ilha
sem câmara, nem senado,
que os cajus são restringentes,
não houve câmara este ano.
Tornamo-nos a embarcar
no mesmo triste pangaio
em demanda de outra ilha,
em que o degredo compramos.
Não pudemos tomar terra
porque era o vento contrário,
assoprava pelo olho,
e era o tal olho o do rabo.
Porque vento tão maldito,
e tão despropositado
só por tal olho saíra,
para nos ir espeidando.
Tomamos porto na pátria
depois de tantos trabalhos,
fomes, que em terra curtimos,
sustos, que no mar tragamos.
Fomos mui bem recebidos,
porque o passado passado,
e sobre os cargos da culpa
nos deram logo outros cargos.
Todos saímos com vara,
como meirinhos do campo
sobre os pobres dos cajus
prendendo, e executando.
Indo a eles uma tarde,
prendemos quase um balaio,
outros deixamos pendentes,
que é o mesmo, que enforcados.
Os maduros se prenderam,
que era a ordem, que levamos,
mas os verdes se enforcaram,
por serem cajus velhacos.
O Meirinho-mor do Reino,
que é Custódio Nunes Daltro,
não larga a vara, e os cajus
andam como homiziados.
Tem uns alcaides pequenos,
que andam correndo esse campo,
e vão ligeiros de pé
por vir pesados de papo.
Este castigo merece
Cururupeba afamado,
porque os engenhos não moem,
e o rio é, quem paga o pato.
Em se acabando os cajus,
as varas vão co diabo,
salvo formos meirinhar
aos airus por esses campos.
DESCREVE A VIAGEM, QUE INTITULOU DOS ARGONAUTAS DA CAJAIBA PARA A ILHA DE GONÇALLO DIAS, ONDE COM SEUS AMIGOS HIA DIVERTIR-SE.
Era a Dominga primeita
desta quaresma presente,
já eu estava na praia,
seriam seis para as sete.
Estava o dia formoso
por ser hora, em que se veste
a esfera de azul, e ouro
com seus renglaves de neve.
A aurora teve bom parto,
pois botou em tempo breve
um menino como um sol
para alegria das gentes.
Gritei eu: ah Sor Gregório,
ele desperto gritou,
aqui estou, e Sor Silvestre.
Só falta o Pissarro moço:
já foi chamá-lo o moleque,
e em se juntando conosco
estamos prestes, e lestes.
Toda a noite não dorrni
com pensamento no beque,
que há de levar-nos à ilha,
onde façamos um frete.
Não tem, que me despertar,
que eu escuso, me despertem,
porque para esta viagem
estive de acordo sempre.
Os três à praia chegaram,
e eu no bergantim co'a gente
mandei embarcar a todos
um por um, ele por ele.
Botamos a Nau no mar
um bergantim excelente
nos nossos mares nascido
obra do estrangeiro mestre.
O alforje lá me esquecia,
disse eu, e a vocês lhes esquece:
mandei logo um negro à casa,
que fosse num pé, e viesse:
Veio logo carregado
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MATOS, Gregório de. Pança farta e pé dormente. In: Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.