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#Sermões#Retórica

Sermão da Sexagésima

Por Padre Antônio Vieira (1655)

Esta proposição é de fé definida no Concílio Tridentino, e no nosso Evangelho a temos. Do trigo, que deitou à terra o semeador, uma parte se logrou e três se perderam. E por que se perderam estas três? A primeira perdeu-se porque a afogaram os espinhos; a segunda, porque a secaram as pedras; a terceira, porque a pisaram os homens, e a comeram as aves. Isto é o que diz Cristo, mas notai o que não diz. Não diz que parte alguma daquele trigo se perdesse por cousa do sol ou da chuva. A cousa por que ordinariamente se perdem as sementeiras, é pela desigualdade e pela intemperança dos tempos, ou porque falta ou sobeja a chuva, ou porque falta ou sobeja o sol. Pois por que não introduz Cristo na parábola do Evangelho algum trigo que se perdesse por cousa do sol ou da chuva? Porque o sol e a chuva são as influências da parte do céu, e deixar de frutificar a semente da palavra de Deus, nunca é por falta do céu, sempre é por culpa nossa. Deixará de frutificar a sementeira ou pelo embaraço dos espinhos, ou pela dureza das pedras, ou pelos descaminhos dos caminhos; mas por falta das influências do céu, isso nunca é, nem pode ser. Sempre Deus está pronto de sua parte com o sol para aquentar, e com a chuva para regar, com o sol para alumiar, e com a chuva para amolecer, se os nossos corações quiserem: Qui solem suum oriri facit super bonos et malos, et pluit super justos et injustos2. Se Deus dá o seu sol e a sua chuva aos bons e aos maus, que se quiserem fazer bons, como a negará? Este ponto é tão claro que não há para que nos determos em mais prova. Quid debui facere vineae meae, et nonfeci? – disse o mesmo Deus por Isaias.3 Sendo pois certo que a palavra divina não deixa de frutificar por parte de Deus, segue-se que ou é por falta do pregador, ou por falta dos ouvintes. Por qual será? Os pregadores deitam a culpa aos ouvintes, mas não é assim. Se fora por falta dos ouvintes, não fizera a palavra de Deus muito grande fruto; mas não fazer nenhum fruto e nenhum efeito, não é por falta dos ouvintes. Provo. Os ouvintes ou são maus, ou são bons: se são bons, faz neles grande fruto a palavra de Deus; se são maus, ainda que não faça neles fruto, faz efeito. No Evangelho o temos. O trigo que caiu nos espinhos, nasceu, mas afogaram-no: Simul exortae spinae suffocaverunt illud. O trigo que caiu nas pedras, nasceu também, mas secou-se: Et natum aruiL O trigo que caiu na terra boa, nasceu e frutificou com grande multiplicação: Et natum frcitfiuctum centuplum. De maneira que o trigo que caiu na boa terra, nasceu e frutificou; o trigo que caiu na má terra não frutificou, mas nasceu, porque a palavra de Deus é tão fecunda, que nos bons faz muito fruto, e é tão eficaz, que nos maus, ainda que não faça fruto, faz efeito; lançada nos espinhos, não frutificou, mas nasceu até nos espinhos; lançada nas pedras, não frutificou, mas nasceu até nas pedras. Os piores ouvintes que há na Igreja de Deus são as pedras e os espinhos. E por quê? Os espinhos por agudos, as pedras por duras. Ouvintes de entendimentos agudos, e ouvintes de vontades endurecidas, são os piores que há. Os ouvintes de entendimentos agudos são maus ouvintes porque vêm só a ouvir sutilezas, a esperar galantarias, a avaliar pensamentos, e às vezes também a picar a quem os não pica: Aliud cecidit inter spinas. O trigo não picou os espinhos, antes os espinhos o picaram a ele; o mesmo sucede cá. Cuidais que o sermão vos picou a vós, e não é assim: vós sois o que picais o sermão. Por isso são maus ouvintes os de entendimentos agudos. Mas os de vontades endurecidas ainda são piores, porque um entendimento agudo podese ferir pelos mesmos fios, e vencer-se uma agudeza com outra maior; mas contra vontades endurecidas nenhuma coisa aproveita a agudeza, antes dana mais, porque quanto as setas são mais agudas, tanto mais facilmente se despontam na pedra. Oh! Deus nos livre de vontades endurecidas, que ainda são piores que as pedras. A vara de Moisés abrandou as pedras, e não pôde abrandar uma vontade endurecida: Percutiens virga bis silicem, et egressae sunt aquae largissimae. Induratum est cor Phamonis4. E com os ouvintes de entendimentos agudos e os ouvintes de vontades endurecidas seremos mais rebeldes, é tanta a força da divina palavra que, apesar da agudeza, nasce nos espinhos, e apesar da dureza nasce nas pedras. Pudéramos argüir ao lavrador do Evangelho, de não cortar os espinhos e de não arrancar as pedras antes de semear, mas de indústria deixou no campo as pedras e os espinhos, para que se visse a força do que semeava. E tanta a força da divina palavra, que sem cortar nem despontar espinhos, nasce entre espinhos. E tanta a força da divina palavra, que sem arrancar, nem abrandar pedras, nasce nas pedras. Corações embaraçados como espinhos, corações secos e duros como pedras, ouvi a palavra de Deus, e tende confiança; tomai exemplo nestas mesmas pedras e nestes espinhos.

(continua...)

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