Por Machado de Assis (1876)
— Vamos lá! disse ele.
Gustavo vestiu-se no curto prazo de 7 minutos; saiu acompanhado do criado e a trote largo caminharam para a Rua da Carioca.
Entraram na casa do Pobre Jaques.
Acharam um velho assentado numa cadeira examinando um par de calças que lhe levara o freguês talvez para almoçar nesse dia. O dono da casa oferecia-lhe pelo objeto cinco patacas; o dono do objeto instava por mil e oitocentos. Afinal cortaram a dúvida, diminuindo o freguês um tostão e subindo o dono da casa outro tostão.
Acabado o negócio, o velho atendeu aos dois visitantes, um dos quais, de impaciente andava de um lado para outro, a passear os olhos nas roupas com a esperança de encontrar o suspirado paletó.
João era conhecido do velho e tomou a palavra.
— Não se lembra de um paletó que eu lhe vendi há coisa de três semanas? disse ele.
— Três semanas!
— Sim, um paletó.
— Um paletó?
Gustavo fez um gesto de impaciência. O velho não reparou no gesto. Pôs-se a afagar o queixo com a mão esquerda e os olhos no chão a ver se lembrava do destino que tivera o paletó introuvable.
— Lembra-me de que lhe comprei um paletó, disse ele, e por sinal que tinha gola de veludo...
— Isso! exclamou Gustavo.
— Mas creio que o vendi, concluiu o velho.
— A quem? perguntou Gustavo desejoso e ansioso ao mesmo tempo de lhe ouvir a resposta.
Antes porém que a ouvisse, ocorreu-lhe que o velho podia desconfiar do interesse com que procurava saber de um paletó velho, e julgou necessário explicar que não se tratava de nenhuma carteira, mas de uma lembrança de namorada.
— Seja lá o que for, disse o velho sorrindo, eu nada tenho com isso... Agora me lembro a quem vendi o paletó.
— Ah!
— Foi ao João Gomes.
— Que João Gomes? perguntou o criado.
— O dono da casa de pasto que fica ali quase no fim da rua...
O criado estendeu a mão ao velho e murmurou algumas palavras de agradecimento; quando porém voltou os olhos, não viu o amo, que apressadamente se dirigia na direção indicada.
CAPÍTULO V
João Gomes animava os caixeiros e a casa regurgitava de gente que comia o seu modesto almoço. O criado do bacharel conhecia o dono da casa de pasto. Foi direito a ele.
— Sr. João Gomes...
— Olé! você por aqui!
— É verdade; venho tratar de um assunto importante.
— Importante?
— Muito importante.
— Fale, respondeu João Gomes entre receoso e curioso.
Ao mesmo tempo lançou um olhar desconfiado para Gustavo que se conservara de parte.
— Não comprou o senhor um paletó em casa do Pobre Jaques?
— Não, senhor, respondeu muito depressa o interpelado.
Era evidente que receava alguma complicação de polícia. Gustavo compreendeu a situação e interveio para sossegar o ânimo do homem.
— Não se trata de nada que seja grave para o senhor, nem para ninguém exceto para mim, disse Gustavo.
E contou o mais sumariamente que pôde o caso da fita, o que tranqüilizou efetivamente o espírito do comprador do paletó.
— Uma fita azul, diz V. Sr.ª? perguntou João Gomes.
— Sim, uma fita azul.
— Achei-a na algibeira do paletó e...
— Ah!
— Tinha dois nomes bordados, creio eu...
— Isso.
— Obra muito fina!
— Sim, senhor, e então?
— Então? Ora, espere... Eu tive esta fita alguns dias comigo... até que um dia... de manhã... não, não era de manhã, era de tarde... mostrei-a a um freguês...
Estacou o Sr. João Gomes.
— Que mais? perguntou o criado do bacharel.
— Creio que era o Alvarenga... Era, era o Alvarenga. Mostrei-lha, gostou muito... e pediu-ma.
— E o senhor?
— Eu não precisava daquilo e dei-lha.
Gustavo teve vontade de engolir o dono da casa de pasto. Como porém nada adiantasse com esse ato de selvageria preferiu fazer indagações relativas ao Alvarenga, e soube que morava na Rua do Sacramento.
— Ele guarda aquilo por curiosidade, observou João Gomes; se V. S.ª lhe contar o que há, estou certo de que lhe entrega a fita.
— Sim.
— Estou certo disso... Até se quiser eu mesmo lhe falo; ele há de cá vir almoçar e talvez a coisa se arranje hoje mesmo.
— Tanto melhor! exclamou Gustavo. Pois, meu amigo, veja se me consegue isso, e far-me-á um grande favor. O João aqui fica para me levar a resposta.
— Não tem dúvida.
Gustavo foi dali almoçar no Hotel dos Príncipes, onde João devia ir ter a dar-lhe conta do que houvesse. O criado demorou-se muito menos porém do que pareceu ao ansioso namorado. Já lhe parecia que ele não viria mais, quando a figura de João assomou à porta. Gustavo levantou-se à pressa e saiu.
— Que há?
— O homem apareceu...
— E a fita?
— A fita estava com ele...
— Achou-se?
— Estava com ele, porque o João Gomes lha tinha dado, como meu amo sabe, mas parece que já não está.
— Inferno! exclamou Gustavo lembrando-se de um melodrama em que ouvira exclamação análoga.
— Já não está, continuou o criado como se estivesse saboreando estas ânsias do amo, já não está, mas podemos dar com ela.
— Como?
— O Alvarenga é procurador, deu a fita à filhinha do desembargador com quem trabalha. Ele mesmo incumbiu-se de arranjar tudo...
Gustavo perdera de todo as esperanças. A esquiva fita nunca mais lhe tornaria às mãos, pensava ele, e com esta idéia ficou acabrunhado.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. História de uma fita azul. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, dez. 1875 a fev. 1876.