Por Machado de Assis (1873)
— Não é possível; o V. é que deve ficar com a pasta de Estrangeiros.
— Mas o V. não pode entrar nessa combinação.
— Por quê?
— É inimigo do F.
— Sim; mas a deputação da Bahia?
Aqui coçava o outro a orelha.
— A deputação da Bahia, respondia ele, pode ficar bem metendo o N.
— O N. não aceita.
— Por quê?
— Não quer ministério de transição.
— Chama a isto ministério de transição?
— Pois que é mais?
Este diálogo em que todos tomavam parte, inclusive o C. e que era repetido sempre que um dos circunstantes apresentava uma combinação nova, foi interrompido pela chegada de um deputado.
Desta vez íamos ter notícias frescas.
Efetivamente soubemos pelo deputado que o V. tinha sido chamado ao paço e estava organizando gabinete.
— Que dizia eu? exclamou Ferreira. Nem era de ver outra coisa. A situação é do V.; o seu último discurso foi o que os franceses chamam discurso-ministro. Quem são os outros?
— Por ora, disse o deputado, só há dois ministros na lista: o da Justiça e o do Império.
— Quem são?
— Não sei, respondeu o deputado.
Não me foi difícil ver que o homem sabia, mas era obrigado a guardar segredo. Compreendi que aquele é que lambia os vidros por dentro, expressão muito usada em tempo de crise.
Houve um pequeno silêncio. Conjeturei que cada qual estivesse a adivinhar quem seriam os nomeados; mas, se alguém os descobriu, não os nomeou.
O Abreu dirigiu-se ao deputado.
— V. Ex.a acredita que o ministério fique organizado hoje?
— Creio que sim; mas daí pode ser que não...
— A situação não é boa, observou Ferreira.
— Admira-me que V. Ex.a não seja convidado...
Estas palavras, naquela ocasião inconvenientes, foram pronunciadas pelo Lima, que trata a política como trata as mulheres e os cavalos. Cada um de nós procurou disfarçar o efeito de semelhante tolice, mas o deputado respondeu direitamente à pergunta:
— Pois não me admira nada disso; deixo o lugar aos componentes. Estou pronto a servir como soldado... Não passo disso.
— Perdão, é muito digno!
Entrou um homem esbaforido. Fiquei surpreso. Era um deputado. Olhou para todos, e dando com os olhos no colega, disse:
— Podes dar-me uma palavra?
— Que é? perguntou o deputado levantando-se.
— Vem cá.
Foram até à porta, depois despediram-se de nós e seguiram apressadamente para cima.
— Estão ambos ministros, exclamou Ferreira.
— Acredita? perguntei eu.
— Sem dúvida.
Mendonça foi da mesma opinião; e foi a primeira vez que o vi adotar uma opinião alheia.
Eram duas horas da tarde quando saíram os dois deputados. Ansiosos por saber mais notícias, saímos todos e descemos a rua vagarosamente. Grupos de quatro e cinco se entretinham com o assunto do dia. Parávamos; combinávamos as versões; mas não retificavam as dos outros. Um desses grupos já estavam os três ministros nomeados; outro acrescentava os nomes dos dois deputados, pela única razão de os ter visto entrar num carro.
Às três horas já corriam versões de todo o gabinete, mas era tudo vago.
Determinamos não voltar para casa sem saber do resultado da crise, salvo se a notícia não viesse até às cinco horas, pois era de mau gosto (disse-me o C.) andar na Rua do Ouvidor às 5 horas da tarde.
— Mas qual será o meio de saber? perguntei eu.
— Eu vou ver se colho alguma coisa, disse Ferreira.
Vários incidentes nos iam detendo a marcha: algum amigo que passava, uma mulher que saía de uma loja, uma jóia nova em uma vidraça, um grupo tão curioso como o nosso, etc.
Nada se soube nessa tarde.
Voltei para o Hotel da Europa a fim de descansar e jantar; o C. jantou comigo. Conversamos muito do tempo da academia, dos nossos amores, das nossas travessuras, até que a noite veio e resolvemos voltar à Rua do Ouvidor.
— Não era melhor irmos à casa do V., pois que é ele o organizador do gabinete? perguntei.
— Principalmente, não temos tamanho interesse que justifique esse passo, respondeu o C.; depois, é natural que ele não nos possa falar. Organizar um gabinete não é coisa simples. Finalmente, apenas o gabinete estiver organizado cá saberemos na rua qual ele é.
A Rua do Ouvidor é lindíssima à noite. Estão os rapazes às portas das lojas, vendo passar as moças, e como tudo está iluminado, não imaginas o efeito que faz.
Confesso que me esqueceu o ministério e a crise. Havia então menos quem cuidasse de política; a noite da Rua do Ouvidor pertence exclusivamente à fashion, que é menos dada aos negócios do Estado que os freqüentadores de dia. Todavia, achamos alguns grupos onde se dava como certa a organização do gabinete, mas não se sabia ao certo quem eram os ministros todos.
Encontramos os mesmos amigos da manhã.
Ora, justamente quando o Mendonça se dispunha a ir colher alguma coisa certa, apareceu o desembargador com o rosto alegre.
— Que há?
— Está organizado.
— Mas quem são?
O desembargador tirou do bolso uma lista.
— São estes.
Lemos os nomes à luz do lampião de um mostrador. O Mendonça não gostou do gabinete; o Abreu achou-o excelente; o Lima, fraco.
— Mas isto é certo? perguntei eu.
— Deram-me agora esta lista; creio que é autêntica.
— O que é? perguntou por trás de mim uma voz.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Tempo de crise. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, abr. 1873.