Por Machado de Assis (1874)
Não tardou que a filha do coronel dançasse, e Valério pôde admirar-lhe a graça, a reserva, a elegância dos seus movimentos. O pobre escrevente não lhe tirava os olhos de cima; duas ou três vezes encontraram-se os seus com os dela; Valério corava de vexado, como se o surpreendessem a cometer um crime. Quanto à moça, não se perturbava nem parecia zangar-se; olhava também para Valério com um olhar longo e tranqüilo. O rapaz chegou a supor que era um movimento de simpatia, e Deus sabe que sonhos não lhe passavam então pelo espírito atordoado; a verdade, porém, é que a moça gostava de ser admirada; era uma dessas belezas capazes de vender o patrimônio do amor por um prato de admirações.
À meia-noite foi servida uma ceia volante; Valério deixou discretamente o seu posto e foi para dentro descansar e comer alguma coisa. Confessou de si para si que estava com fome. Sentou-se ao pé de uma mesa pequena, recebeu de um criado uns pastelinhos, e começou a ruminar tranqüilamente. Cumpre acrescentar que ao bom do rapaz repugnou ver comer a jovem rainha da noite. Era escrúpulo de calouro. É mais poético não assistir à operação dos queixos quando se ama a uma mulher, mas — ai triste! — nem por isso fica suprimida a operação. O estômago não tem sexo; e a natureza tem exigências fatais. Aqueles lábios, que nos parecem exclusivamente feitos para risos e beijos, são a entrada indispensável de covilhetes e pastéis. É possível que na próxima edição da obra, o autor da criação corrija esse gravíssimo ponto; mas por enquanto a obra há de ser lida assim... ou morre de traça nos livreiros.
Perto do escrevente estavam algumas pessoas, ocupadas também em dar que fazer ao estômago, exceto o coronel, que tendo já comido, conversava paternalmente com o escrivão e mais dois sujeitos.
— E quando se publica esse folheto? perguntou o escrivão.
— Creio que breve, respondeu o coronel; o autor, que, como lhe disse, é meu amigo íntimo, promete que dentro de uma semana estará à venda.
— Estou ansioso por ver isso! exclamou um velho com feições de militar; ataca o governo?
— Se eu lhe digo que é uma filípica! tornou o coronel. É um opúsculo de fazer época.
— Disso precisamos nós.
Os ímpetos de oposicionista do militar não agradavam ao escrivão, que tinha filho em não sei que secretaria de Estado. Por isso tratava de desviar a conversa do assunto do opúsculo.
— Sempre queria vê-lo dançar, coronel!
— Qual! já não é para mim.
— Como se chama o opúsculo? perguntou o militar.
— Não sei se devo confiar tanta coisa; o autor não me autorizou .. mas... é verdade que daqui uma semana... chama-se o opúsculo: Abaixo as máscaras!
— Magnifico! magnifico título! exclamou o militar.
Ouvindo o título do opúsculo, Valério estremeceu, e prestou à conversa mais atenção do que até ali. O velho militar continuou a elogiar o título, e insistiu com o coronel para que dissesse onde poderia ir comprar o opúsculo quando ele aparecesse.
— Suponho que em todas as livrarias; mas, se quer eu lhe arranjarei um e mandar-lho-ei antes de publicado.
— Tanto favor! A obra é bem escrita?
— Dizem que sim; eu não entendo de estilos.
Sem medir todo o alcance da inconveniência, Valério interrompeu a conversa dizendo:
— Entendo eu um pouco; e acho que o estilo do opúsculo de que se trata é excelente. Houve um súbito silêncio logo depois das palavras do escrevente. O escrivão fez uma careta de desgosto vendo que Valério se intrometia aonde ninguém o chamara; e o coronel, disfarçando quanto podia um sorriso delator, perguntou ao vizinho quem era aquele sujeito; o vizinho disse que o não conhecia. O coronel voltou-se para Valério.
— Conhece então a obra? perguntou-lhe.
— Conheço.
— Conhece o autor?
— Não, senhor.
— Então, houve traição...
— Não, senhor; eu sou revisor de provas na tipografia onde se está imprimindo o folheto. Novo silêncio e mais prolongado. O escrivão tinha a cara mais vermelha que um pimentão; se um olhar fulminasse, Valério já não era gente, pois o que o escrivão lhe lançou continha raios de raiva, despeito, nojo. Traduzido em vulgar, o olhar do escrivão queria dizer:
— Pois este pelintra vem ter a honra de jantar comigo, ver dançar os outros, estar aqui confundindo com pessoas de certa ordem, e se há de ouvir e calar, responde quando ninguém lhe pergunta, e por fim de contas, confessa-se revisor das provas! Valério não viu o olhar do escrivão, nem compreendeu o silêncio de todos.
— Gosto imenso do estilo do folheto, e creio que há de fazer época.
— Eu assim penso, disse o coronel sorrindo para Valério; mas, quem assim fala e julga, não é decerto um simples revisor...
— Sou também escrevente no cartório do sr. Z.
— Ah! Escrevente e revisor! mas não é isso bastante; vejo que tem humanidades... estudou...
— Muito pouco... e há muito tempo.
— Mas tem o gosto apurado...
— Não sei; eu digo o que me parece.
— Descontaremos a modéstia, disse o coronel; vejo que tem certos estudos... Quer um charuto?...
— Não fumo...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Valério. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, v. 12, n. 3, mar. 1874, p. 65-72; n. 4, abr. 1874, p. 97-104.