Por Machado de Assis (1897)
Um dia, ao abrir a janela, não vi a namorada. Já então nos víamos todos os dias, a hora certa, logo de manhã. Posto que eu não tivesse relógio, sabia que acordava cedo, à mesma hora; quando erguia a vidraça, já a via à minha espera, no alto. Daquela vez a própria janela estava fechada. Estaria dormindo, esperei; o tempo correu, saí para o almoço e para a Escola. O mesmo no dia seguinte. Supus que seria ausência ou moléstia; esperei. Passaram-se dous dias, três, uma semana. Fiquei desesperado; não exagero, fiquei fora de mim. E não pude dissimular esse estado; o meu confidente da Escola desconfiou que havia alguma cousa, eu contei-lhe tudo. Fernandes não acabava de crer.
— Mas como, Josino? Pois uma criatura que nem sequer conheces... é impossível! A verdade é que nunca a viste; mirar de longe um vulto não é ver uma pessoa.
— Vi-a, gosto dela, ela gosta de mim, aí tens.
— Confessa que amanhã, se a encontrares na rua, não és capaz de a conheceres.
— O meu coração há de conhecê-la.
— Poeta!
— Matemático!
Tínhamos razão os dous. Não é preciso explicar a afirmação dele; explico a minha. O meu amor, como vistes, era puramente intelectual; não teve outra origem. Achou-me, é verdade, inclinado a amar, mas não brotou nem cresceu de outra maneira. Tal era o estado da minha alma — e por que não do meu tempo? —, que assim mesmo me governou. Acabei amando um fantasma. Vivi por uma sombra. Um puro conceito — ou quase — fazia-me agitar o sangue. Essa mulher — casada ou solteira, feia ou bonita, velha ou moça —, quem quer que era que eu não conheceria na rua, se a visse, enchia-me de saudades. Fiquei arrependido de não a ter buscado no morro; haver-lhe-ia escrito, saberia quem era, e para onde fora, ou se estava doente. Esta última hipótese sugeriu-me a idéia de ir ao morro procurar a casa. Fui; ao cabo de algum tempo e trabalho dei com a casa fechada. Os vizinhos disseram-me que a família saíra para um dos arrabaldes, não sabiam qual deles.
— Está certo que é a família Vieira? perguntei eu cheio de maquiavelismo.
— Vieira? Não, senhor; é a família Maia, um Pedro Maia, homem do comércio.
— Isso mesmo; tem loja na Rua de S. Pedro, Pedro ou Sabão...
— A rua não sabemos; não se dá com vizinhos. Há de crer que só ultimamente
nos cumprimentava? Muito cheio de si. Se é seu amigo, desculpe... Fiz um gesto de desculpa, mas fiquei sem saber a loja do homem, nem o arrabalde para onde fora; sabia só que tornaria à casa, e era muito. Desci animado. Bem: não a perdi, ela volta, disse comigo.
— E terá pensado em mim?
Resolvi pela afirmativa. A imaginação mostrou-me a desconhecida vendo passar as horas e os dias, onde quer que estava com a família, a cuidar no desconhecido da Rua da Misericórdia. Talvez me tivesse feito na véspera da partida algum sinal que não pude ver. Se cuidou que sim, estaria um pouco mais consolada, mas a dúvida poderia assaltá-la, e a inquietação complicaria a tristeza.
Entramos nas férias. A minha idéia era não ir à província, ficar por qualquer pretexto, e esperar a volta da minha diva. Não contava com a fatalidade. Perdi minha mãe; recebi carta do meu pai, dizendo estar à minha espera. Haveis de crer que hesitei? Hesitei; mas a ordem era imperiosa, a ocasião triste, e meu pai não brincava.
— Vou, não tenho remédio, mas...
Como dizer à misteriosa Pia que ia à província, que voltaria dois ou três meses depois, e que me esperasse? A princípio, lembrou-me incumbir o meu colega Fernandes de a avisar, de manter o sacro fogo, até que me achasse de volta.
Fernandes era assaz engenhoso e tenaz para desempenhar-se disto; mas abri mão dele, por vergonha. Então lembrou-me outra cousa; não deixaria o sótão, conservá-lo-ia alugado, mediante a garantia do correspondente de meu pai, a pretexto de não haver melhor lugar para residência de estudante. Quando voltasse, já ela estaria ali também. Não se enganaria com outro, porque nunca a janela se abriria na minha ausência; eu, apenas tornasse, recomeçaria a conversação de outro tempo. Isto feito, meti-me no vapor. Custa-me dizer que chorei, mas chorei.
Tudo o que vos acabo de dizer é vergonhoso, como plano, e dá idéia de uma sensibilidade mui pouco matemática; mas, sendo verdade, como é, e consistindo nesta o único interesse da narração, se algum lhe achais, força é que vos diga o que se passou naquele tempo.
Embarquei, e fui para a província. Meu pai achou-me forte e belo, disse que tinha boas notícias minhas, tanto de rapaz como de estudante, dadas pelo correspondente e outras pessoas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Uma por outra. A Estação, Rio de Janeiro, 15 set. a 15 dez. 1897.