Por Machado de Assis (1892)
Conhecia meia dúzia de homens que se mostravam particularmente assíduos nos lugares a que ela fosse, e mais pertinazes em dar-lhe a entender que a queriam. Dona Paula não se alterou com o número, nem com o mal; deixou-os vir. Um deles, bacharel em direito, tinha os seus trinta anos, e a mais bela de todas as cabeças masculinas do tempo. Chamava-se João Góis. Solteiro e abastado. Era parente remoto de uma senhora que vivia na Tijuca, onde eles se falaram pela primeira vez. Dona Paula conhecia-o de o ver muitas vezes, ou no teatro ou na Rua do Ouvidor. Trazia na lembrança os longos olhos dominadores que ela evitava afrontar, por medo do duelo, de que podia sair mal ferida; apenas os via por baixo das pálpebras medrosas. Na Tijuca teve de os fitar ainda que o menos possível, e viu confirmados esses seus receios. Pensou neles, entretanto, e não sonhou com outros. Havia ainda um adorador de vinte e dois anos, olhos meigos e bons, cara sem barba, um triste buço puxado e repuxado sem chegar a bigodes. Para esse era Dona Paula a primeira paixão. Esse chorava por ela, em casa, às noites, e escrevia longas cartas para lhe mandar no dia seguinte, o que não iam nunca, porque lhe faltava tudo, portador e audácia.
Não faltava audácia a João Góis, nem portadores, se lhe fossem necessários. Em breve, estavam as relações travadas entre ele e o marido. Góis não gostava de cartas, mas sujeitava-se a jogar com Xavier nas noites em que este, por acaso, não passava fora ou não tinha os seus parceiros do costume. Dona Paula viveu cheia de temor durante as primeiras semanas; tendo brincado com fogo, aterrava-a naturalmente a idéia de o ver chegar às seias. Góis, que era audaz, era também hábil, e resolveu criar primeiramente confiança. Quando esta se estabeleceu de todo, ele declarou-se, e a batalha, se foi renhida, não foi longa; a vitória acabou completa.
VII
Não direi compridamente os sentimentos de Dona Paula. Foram de duas ordens, mas força é confessar que o temor, última esperança da virtude, desapareceu com esta; e a cegueira que lhe trouxeram os olhos do homem fez com que ela não visse já perigos nem perdas. Não receava o marido; pode crer-se que nem recearia a opinião. Era toda do outro; podia crer-se que a paixão antiga, inspirada pelo marido desde os dezessete anos, enganara-se de porta, e que realmente só amava um homem na terra: este parente da senhora da Tijuca.
Pouco a pouco, a verdade foi transparecendo aos olhos estranhos; eles não sabiam resguardá-la, e pode ser que ele próprio o não quisesse. A vaidade não era, aliás, o elo mais forte daquele homem; realmente, o amor dele era violento; mas, a glória do vencedor crescia com a notícia da posse. A notícia foi cochichada por inveja, por gosto, por maledicência, na sala e na rua, no teatro e no baile, e tanto na palestra de peralvilhos, como entre duas mãos de voltarete dos comerciantes, à noite, nos arrabaldes. Contavam se os indícios; pesquisava-se a vida de ambos; vinham episódios, cenas, encontros. E, posto que não fosse já preciso inventar nada, ainda se inventava alguma coisa.
Dona Paula vivia alheia às murmurações. Não sabia ler nos rostos das outras mulheres, nem lhes achou diferença apreciável no trato. Algumas, por verdadeira repulsão, afastaram-se dela, mas com tal arte e polidez, que a moça nem sentiu a separação. Demais, que separação podia já sentir em tais condições? Amigas houve que buscavam saber por direta confidência o segredo da vida de Paula; nenhuma o obteve. Uma, não menos íntima, quis puni-la pela critica e condenação genérica dos seus atos; ela não a entendeu. Que era a sociedade sem ele? Que era a virtude fora dele? Tal era o estado moral da consorte de Xavier, quando sucedeu o que lhes vou contar.
VIII
Góis teve um dia a idéia de propor a D. Paula que deixassem o Rio de Janeiro e o Brasil, e fossem para qualquer país do mundo — os Estados Unidos da América do Norte, se ela quisesse, ou qualquer recanto da Itália. A própria França, Paris, era um mundo em que ninguém mais daria com eles.
— Você hesita...
— Não hesito, respondeu D. Paula.
— Por que não me responde?
— A proposta é grave, mas não é a gravidade que me impede de responder já e já. Você sabe que irei com você ao fim do mundo, se for preciso...
— Pois eu não te proponho o fim do mundo.
— Sim; e acaso é preciso?
Góis ia a sorrir, mas suspendeu a tempo o sorriso, e fechou o rosto. D. Paula acudiu que estava por tudo; iria à China, com ele, a uma ilha deserta e inabitada... Pleno romantismo. Góis pegou-lhe nas mãos e agradeceu-lhe a resposta. Perguntou-lhe ainda se não cedia de má-vontade, ou se era de coração, se padeceria, caso ele se fosse embora só, e a deixasse... A resposta de D. Paula foi tapar-lhe a boca; não a podia haver mais eloqüente. Góis beijou-lhe a mão.
— Deixar-me? Você pensaria acaso em semelhante coisa, se eu recusasse...?
— Talvez.
— Então é falso que...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Uma partida. A Estação, Rio de Janeiro, n. 24, p. 282-284, 31 dez. 1892.