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#Comédias#Literatura Brasileira

Uma noite

Por Machado de Assis (1870)

Sim, eu quisera ser tudo isto - o espelho, o banho, O calçado, o colar... Desejo acaso estranho,

Louca ambição talvez de poeta exaltado...

MIRTO

Tanto sentes por mim?

Cena VI

CLÉON, MIRTO, LISIAS

LÍSIAS

(entrando)

Amor, nunca sonhado.

Se a musa dele és tu!

CLÉON

Lísias!

MIRTO

Ouviste?

LISIAS

Ouvi

Versos que Anacreonte houvera feito a ti,

Se vivesses no tempo em que, pulsando a lira, Estas odes compôs que a velha Grécia admira. (a Cléon)

Quer falar-te um sujeito, um Clínias, um colega, Ex-mercador, como eu.

MIRTO

Ai, que importuno!

LÍSIAS

Alega

Que não pode esperar, que isto não pode ser, Que um processo... Afinal não no pude entender. Pode ser que contigo o homem se acomode. Prometeste talvez compor-lhe alguma ode?

CLÉON

Não. Adeus, bela Mirto; espera-me um instante.

MIRTO

Não tardes!

LÍSIAS (à parte)

Indiscreta!

CLÉON

Espera.

LISIAS

(à parte)

Petulante!

Cena VII

MIRTO, LISIAS

MIRTO

Sou curiosa. Quem é Clínias, ex-mercador? Amigo dele?

LÍSIAS

Mais do que isso; é um credor.

MIRTO

Ah!

LÍSIAS

Que belo rapaz! que alma fogosa e pura, Bem digna de aspirar-te um hausto de ventura! Queira o céu pôr-lhe termo à profunda agonia, Surja enfim para ele o sol de um novo dia. Merece-o. Mas vê lá se há destino pior:

Quer o alado Mercúrio obstar o alado Amor. Com beijos não se paga a pompa do vestido, O espetáculo e a mesa; e se o gentil Cupido Gosta de ouvir canções, o outro não vai com elas; Vale uma dracma só vinte odezinhas belas. Um poema não compra um simples borzeguim. Versos! são bons de ler, mais nada; eu penso assim.

MIRTO

Pensas mal! A poesia é sempre um dom celeste; Quando o gênio o possui quem há que o não [requeste?

Hermes, com ser o deus clos graves mercadores, Tocou lira também.

LÍSIAS

Já sei que estás de amores.

MIRTO

Que esperança! Bem vês que eu já não posso amar.

LÍSIAS

Perdeste o coração?

MIRTO

Sim; perdi-o no mar.

LÍSIAS

Pesquemo-lo; talvez essa pérola fina

Venha ornar-me a existência agourada e mofina.

MIRTO

Mofina?

LÍSIAS

Pois então? Enfaram-me estas belas

Da terra samiana; assaz vivi por elas.

Outras desejo amar, filhas do azul Egeu. Varia de feições o Amor, como Proteu.

MIRTO

Seu caráter melhor foi sempre o ser constante.

LÍSIAS

Serei menos fiel, não sou menos amante. Cada beleza em si toda a paixão resume. Pouco me importa a flor; importa-me o perfume.

MIRTO

Mas quem quer o perfume afaga um pouco a flor; Nem fere o objeto amado a mão que implora o amor.

LÍSIAS

Ofendo-te com isto? Esquece a minha ofensa.

MIRTO

Já esqueci; passou.

LÍSIAS

Quem fala como pensa

Arrisca-se a perder ou por sobra ou por míngua. Eu confesso o meu mal; não sei tentear a língua. Pois que me perdoaste, escuta-me. Tu tens A graça das feições, o sumo bem dos bens; Moça, trazes na fronte o doce beijo de Hebe Como um filtro de amor que, sem sentir, se bebe, De teus olhos destila a eterna juventude; De teus olhos que um deus, por lhes dar mais [virtude,

Fez azuis como o céu, profundos como o mar. Quem tais dotes reúne, ó Mirto, deve amar.

MIRTO

Falas como um poeta, e zombas da poesia!

LÍSIAS

Eu, poeta? jamais.

MIRTO

A tua fantasia

Respirou certamente o ar do monte Himeto. Tem a expressão tão doce!

LÍSIAS

É a expressão do afeto.

Sou em coisas de Apolo um simples amador. A minha grande musa é Vênus, mãe do amor. No mais não aprendi (os fados meus adversos Vedaram-mo!) a cantar bons e sentidos versos. Cléon, esse é que sabe acender tantas almas, Conquistar de um só lance os corações e as palmas.

MIRTO

Conquistar, oh! que não!

LÍSIAS

Mas agradar?

MIRTO

Talvez.

LÍSIAS

Isso mesmo; é já muito. O que o poeta fez Fá-lo-ei jamais? Contudo, inda tentá-lo quero; Se não me inspira a musa, alma filha de Homero, Inspira-me o desejo, a musa que delira,

E o seu canto concerta aos sons da eterna lira.

MIRTO

Também desejas ser alguma coisa?

LÍSIAS

Não;

Eu caso o meu amor às regras da razão. Cléon quisera ser o espelho em que teu rosto Sorri; eu, bela Mirto, eu tenho melhor gosto. Ser espelho! ser banho! e túnica! tolice!

Estéril ambição! loucura! criancice!

Por Vênus! sei melhor o que a mim me convém. Homem sisudo e grave outros desejos tem. Fiz, a este respeito, aprofundado estudo; Eu não quero ser nada; eu quero dar-te tudo. Escolhe o mais perfeito espelho de aço fino, A túnica melhor de pano tarentino,

Vasos de óleo, um colar de pérolas, enfim Quanto enfeita uma dama aceitá-lo-ás de mim. Brincos que vão ornar-te a orelha graciosa; Para os dedos o anel de pedra preciosa; A tua fronte pede áureo, rico anadema;

Tê-lo-ás, divina Mirto. É este o meu poema.

MIRTO

É lindo!

LÍSIAS

Queres tu, outras estrofes mais?

Dar-tas-ei quais as teve a celebrada Laís.

Casa, rico jardim, servas de toda a parte;

E estátuas e painéis, e quantas obras d'arte

Podem servir de ornato ao templo da beleza, Tudo haverás de mim. Nem gosto nem riqueza Te há de faltar, mimosa, e só quero um penhor. Quero... quero-te a ti.

MIRTO

Pois quê! já quer a flor,

Quem desdenhando a flor, só lhe pede o perfume.

LÍSIAS

Esqueceste o perdão?

MIRTO

Ficou-me este azedume.

LÍSIAS

Vênus pode apagá-lo.

MIRTO

Eu sei, creio e não creio.

LÍSIAS

Hesitar é ceder: agrada-me o receio.

Em assunto de amor, vontade que flutua

(continua...)

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