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#Romances#Literatura Brasileira

Ressurreição

Por Machado de Assis (1872)

— Cecília, respondeu Félix dando à voz toda a doçura compatível com a rigidez da sua resolução, há circunstancias que me obrigam a não jantar cá nem hoje nem nunca. Cecília empalideceu. Félix procurou tranqüilizá-la dizendo que ia explicar-se melhor. Insensível às suas palavras, foi ela sentar-se no sofá e aí permaneceu alguns instantes silenciosa. Félix deu alguns passos na sala, aspirou as flores que tinham sido postas numa jarra. naquele mesmo dia. talvez para recebê-lo melhor; acendeu um charuto, e foi sentar-se em frente de Cecília. A moça fitou nele os olhos úmidos de lágrimas. Depois, como se os lábios tivessem medo de romper uma cratera à chama interior, murmurou estas palavras:

— E por que nunca mais?

— Cecília, disse o doutor deitando fora o charuto apenas enceta do, eu tenho a infelicidade de não compreender a felicidade. Sou um coração defeituoso, um espírito vesgo, uma alma insípida, capaz de fidelidade, incapaz de constância. O amor para mim é o idílio de um semestre, um curto episódio sem chamas nem lágrimas. Há seis meses que nos amamos; por que perderás tu o dia em que começa o ano novo, se podes também começar uma vida nova?

Cecília não respondeu; fitava nele os olhos, que, se eram ternos e buliçosos nas horas de alegria, eram naquele momento sombrios e profundos. Félix pegou-lhe na mão. Estava fria

— Não fiques abatida; o que faço agora não é novidade, ouviste-me dizer muita vez que a nossa afeição era um capítulo curto. Rias então de mim; fazias mal, porque era alimentar uma esperança vã.

— Era, interrompeu Cecília com voz trêmula, reconheço agora que era. Esperava, com efeito, que eu pudesse, com a minha constância, resgatar os erros que me pesavam na consciência. Agarrei-me a ti como a uma tábua de salvação; a tábua não compreendeu que salvaria uma vida e deixa-se levar pela onda que a arrebata das minhas mãos. Enganei-me. Não te faço recriminações; espero que me farás justiça...

— Faço-te toda a justiça, redargüiu ele; acuso-me eu mesmo de estar abaixo do papel de redentor.

Cecília não prestou atenção ao tom irônico destas palavras, nem sequer as ouviu. Levantou-se, deu alguns passos, encostou-se ao piano e pondo a cabeça entre as mãos soluçou à vontade. Mas essa explosão foi quase silenciosa e durou pouco. Meia hora depois despedia-se Félix de Cecília declarando-lhe que saía dali como um gentleman, que ela receberia os meios necessários para viver até que o esquecesse de todo.

Cecília recusou esse ato de generosidade. Espantou-o imensamente tamanho desinteresse; concluiu que ela teria algum amor em perspectiva. Saiu. Na Rua do Ouvidor encontrou o Doutor Meneses, jovem advogado com quem entretinha relações.

— Vem jantar comigo, disse.

— Não jantas com Cecília?

— Acabei o capítulo; Cecília está livre.

— Houve choro?

— O choro pertence ao cerimonial da separação. Era indispensável. Cecília verteu algumas lágrimas, que eu procurei enxugar, prometendo-lhe os meios de viver algum tempo. Recusou; mas eu não lhe aceito a recusa.

— Fizeste mal em separar-te dela; Cecília amava-te.

— Meneses, disse Félix, eu nunca faço mal quando quebro uma cadeia: liberto-me.

— Talvez tenhas razão.

— Mas vem jantar comigo, continuou Félix, dando-lhe o braço.

— Não posso, vou jantar com minha mãe.

— Ah!

— São apenas duas horas; passearei contigo até às três. Ou vais para casa?

— Não.

Deram o braço e desceram a rua.

— Se não é indiscrição, Félix, disse Meneses ao cabo de alguns minutos, houve algum arrufo sério entre vocês?

— Não.

— Desconfiavas dela?

— Também não.

— Nem te arrufaste, nem tinhas desconfiança. Sei que ela gostava de ti, e tu mesmo me afirmaste que não era nenhuma desperdiçada. Havia portanto um milheiro de razões para que vocês prosseguissem neste romance. Dar-se-á que tenhas em vista algum casamento?

Félix riu-se e levantou os ombros.

— Então, não compreendo, concluiu Meneses.

— Eu te digo respondeu Félix; os meus amores são todos semestrais; duram mais que as rosas, duram duas estações. Para o meu coração um ano é a eternidade. Não há ternura que vá além de seis meses; ao cabo desse tempo, o amor prepara as malas e deixa o coração como um viajante deixa o hotel; entra depois o aborrecimento, mau hóspede.

Menezes ouviu as palavras de Félix com os olhos postos no chão; sorriu ligeiramente quando ele acabou.

— Queres ouvir uma cousa? perguntou.

— Dize.

— O teu cinismo parece-me hipocrisia

— Não é hipocrisia nem cinismo; é temperamento.

— Não creio.

— Por quê?

Meneses não respondeu.

— Quase me arrependo de ser teu amigo, disse ele depois de

— És meu amigo? perguntou Félix com ar de mofa

Meneses parou e encarou o companheiro.

— Duvidas? disse.

— Não duvido; mas ignorava isso até agora; sabes que as nossas relações datam de pouco tempo.

— Que importa o tempo? Há amigos de oito dias e indiferentes

— Há.

A conversa tomou outra direção. Meneses ainda tentou falar da moça, mas Félix não lhe prestou atenção. As 3 horas separaram-se, Félix para as Laranjeiras, Meneses para o Rocio.

(continua...)

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