Por Machado de Assis (1862)
Pode entrar.
BASTOS
(à parte)
Será algum colega? Chega tarde!
MATEUS
Não tenho a honra de ser conhecido por V. Exa., mas, em poucas palavras, direi quem sou...
MARTINS
Tenha a bondade de sentar-se.
MATEUS
(vendo Bastos)
Perdão; está com gente; voltarei em outra ocasião.
MARTINS
Não, diga o que quer, este senhor vai já.
BASTOS
Pois não! (à parte) Que remédio! (alto) Às ordens de V. Exa.; até logo... não me demoro muito.
Cena VII
MARTINS, MATEUS
MARTINS
Estou às suas ordens.
MATEUS
Primeiramente deixe-me dar-lhe os parabéns; sei que vai ter a honra de sentar-se nas poltronas do Executivo, e eu acho que é do meu dever congratular-me com a nação.
MARTINS
Muito obrigado. (à parte) É sempre a mesma cantilena.
MATEUS
O país tem acompanhado os passos brilhantes da carreira política de V. Exa. Todos contam que, subindo ao ministério, V. Exa. vai dar à sociedade um novo tom. Eu penso do mesmo modo. Nenhum dos gabinetes anteriores compreendeu as verdadeiras necessidades da pátria. Uma delas é a idéia que eu tive a honra de apresentar há cinco anos, e para cuja realização ando pedindo um privilégio. Se V. Exa. não tem agora muito que fazer, vou explicar-lhe a minha idéia.
MARTINS
Perdão; mas, como eu posso não ser ministro, desejava não entrar por ora no conhecimento de uma coisa que só ao ministro deve ser comunicada.
MATEUS
Não ser ministro! V. Exa. não sabe o que está dizendo... Não ser ministro é, por outros termos, deixar o país à beira do abismo com as molas do maquinismo social emperradas... Não ser ministro! Pois é possível que um homem, com os talentos e os instintos de V. Exa. diga semelhante barbaridade? É uma barbaridade. Eu já não estou em mim... Não ser ministro!
MARTINS
Basta, não se aflija desse modo.
MATEUS
Pois não me hei de afligir?
MARTINS
Mas então a sua idéia?
MATEUS
(depois de limpar a testa com o lenço)
A minha idéia é simples como água. Inventei uma peça de artilharia; coisa inteiramente
nova; deixa atrás de si tudo o que até hoje tem sido descoberto. É um invento que põe na mão do país, que o possuir, a soberania do mundo.
MARTINS
Ah! Vejamos.
MATEUS
Não posso explicar o meu segredo, porque seria perdê-lo. Não é que eu duvide da discrição de V. Exa.; longe de mim semelhante idéia; mas é que V. Exa. sabe que estas coisas têm mais virtude quando são inteiramente secretas.
MARTINS
É justo: mas diga-me lá, quais são as propriedades da sua peça?
MATEUS
São espantosas. Primeiramente, eu pretendo denominá-la: O raio de Júpiter, para honrar com um nome majestoso a majestade do meu invento. A peça é montada sobre uma carreta, a que chamarei locomotiva, porque não é outra coisa. Quanto ao modo de operar é aí que está o segredo. A peça tem sempre um depósito de pólvora e bala para carregar, e vapor para mover a máquina. Coloca-se no meio do campo e deixa-se... Não lhe bulam. Em começando o fogo, entra a peça a mover-se em todos os sentidos, descarregando bala sobre bala, aproximando-se ou recuando, segundo a necessidade. Basta uma para destroçar um exército; calcule o que não serão umas doze, como esta. É ou não a soberania do mundo?
MARTINS
Realmente, é espantoso. São peças com juízo.
MATEUS
Exatamente.
MARTINS
Deseja então um privilégio?
MATEUS
Por ora... É natural que a posteridade me faça alguma coisa... Mas tudo isso pertence ao futuro.
MARTINS
Merece, merece.
MATEUS
Contento-me com o privilégio... Devo acrescentar que alguns ingleses, alemães e americanos, que, não sei como, souberam deste invento, já me propuseram, ou a venda dele, ou uma carta de naturalização nos respectivos países; mas eu amo a minha pátria e os meus ministros.
MARTINS
Faz bem.
MATEUS
Está V. Exa, informado das virtudes da minha peça. Naturalmente daqui a pouco é ministro. Posso contar com a sua proteção?
MARTINS
Pode; mas eu não respondo pelos colegas.
MATEUS
Queira V. Exa., e os colegas cederão. Quando um homem tem as qualidades e a inteligência superior de V. Exa., não consulta, domina. Olhe, eu fico descansado a este respeito.
Cena VIII
Os mesmos, SILVEIRA
MARTINS
Fizeste bem em vir. Fica um momento conversando com este senhor. É um inventor e pede um privilégio. Eu vou sair; vou saber novidades. (à parte) Com efeito, a coisa tarda. (alto) Até logo. Aqui estarei sempre às suas ordens. Adeus, Silveira.
SILVEIRA
(baixo a Martins)
Então, deixas-me só?
MARTINS
(baixo)
Agüenta-te. (alto) Até sempre!
MATEUS
Às ordens de V. Exa.
Cena IX
MATEUS, SILVEIRA
MATEUS
Eu também me vou embora. É parente do nosso ministro?
SILVEIRA
Sou primo.
MATEUS
Ah!
SILVEIRA
Então V. S. inventou alguma coisa? Não foi a pólvora?
MATEUS
Não foi, mas cheira a isso... Inventei uma peça.
SILVEIRA
Ah!
MATEUS
Um verdadeiro milagre... Mas não é o primeiro; tenho inventado outras coisas. Houve um tempo em que me zanguei; ninguém fazia caso de mim; recolhi-me ao silêncio, disposto a não inventar mais nada. Finalmente, a vocação sempre vence; comecei de novo a inventar, mas nada fiz ainda que chegasse à minha peça. Hei de dar nome ao século XIX.
Cena X
Os mesmos, LUÍS PEREIRA
PEREIRA
S. Exa. está em casa?
SILVEIRA
Não, senhor. Que desejava?
PEREIRA
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Quase Ministro. In: ASSIS, Machado de. Teatro de Machado de Assis. São Paulo: Martins Fontes, 2003. (texto originalmente representado em 22 nov. 1862, Rio de Janeiro).