Por Machado de Assis (1872)
— Nem por isso deixei de ser até hoje aliado fiel e ativo. Cuida que quando subo à tribuna não vou levado por uma convicção sincera? Vou; mas, se emprego às vezes demasiado ardor, confesso que uma parte dele é o resultado da intenção em que estou de fundar uma posição dominante... por causa dela.
— Mas não vejo...
— Vejo eu. Cuido que desse modo poderei vencer-lhe o orgulho.
O velho abanou a cabeça e franziu os lábios com um gesto de desagrado. Mas a conversa parou aqui.
Luís saiu para o hotel em que morava; o velho foi jantar com um dos chefes da oposição. Ao despedirem-se, disse o velho ao rapaz:
— Então, amanhã é a interpelação.
— Amanhã.
IV
Oito dias depois destas cenas, estando Daniel almoçando em casa, e só, porque eram 11 horas e o velho Marcos almoçava às 8, apareceu Valadares alegre e rubicundo. Daniel ofereceu-lhe o almoço.
— Aceito, porque ainda não almocei, e confesso que não pretendia fazê-lo por não ter vontade nenhuma. Mas pode ser que a tua companhia me abra o apetite. O velho está cá?
— Não.
Valadares sentou-se à mesa e começou a almoçar.
Durante os primeiros minutos, apenas trocaram raros monossílabos. Daniel acabou primeiro e acendeu um charuto.
— Que novidade há? perguntou ele.
— Uma grande novidade, respondeu Valadares.
— Imagino.
— Verás: uma novidade incrível e entretanto verdadeira, uma novidade, que não o é para ti, porque já te dei parte dela, mas então foi um pouco vagamente.
— Vamos ver o que é.
— Caso-me.
— Ah!
— Caso-me daqui a um mês.
— Estimo muito.
Valadares cruzou o talher e recebeu a xícara de café que lhe ofereceu o servente.
— Caso-me com a Amélia Seabra, e deste modo fico aparentado contigo. Ora, queres que te diga? por muito superior que seja um homem, esta idéia de casamento é sempre uma grande preocupação. De cada vez que me levanto da cama pergunto a mim mesmo se é certo que dentro de pouco tempo estarei eternamente unido a uma mulher. Eternamente! eu que nunca dei ao amor mais de dois meses de vida. Que te parece?
— Nada.
Valadares engoliu rapidamente o café, recuou a cadeira, e acendeu também um charuto.
— Dou um baile, sabes? disse ele a Daniel; e peço-te por especial obséquio que assistas a ele.
Daniel fez um gesto de assentimento.
— Creio que terei muita gente, continuou Valadares; conto já com dois ministros e quatro senadores; são convites de meu sogro. Eu apenas me encarrego de convidar os rapazes. A propósito, lá teremos a pequena da liga.
— Que pequena?
— Ora, aquela que deixou cair a liga na Rua do Ouvidor... não te lembras?
— Ah!
Daniel recordou-se então do incidente da Rua do Ouvidor.
— Que fizeste da liga? perguntou Valadares.
— Creio que a pus na secretária.
Levantaram-se da mesa.
Indo para o seu gabinete, Daniel abriu a secretária e encontrou ainda a liga perdida por Augusta.
— Maganão! disse Valadares, guardaste-a!
— Por distração... respondeu Daniel.
E tornou a fechar a secretária.
Depois do encontro com Augusta, era a primeira vez que ela lhe voltava ao pensamento. Daniel recordava-se do gesto de supremo desdém e indiferença com que ela desviara os olhos e entrara no carro.
Se a preguiça, como quer o moralista, destrói todas as paixões, confessemo-lo que o faz lentamente e não de um lance. Daniel ainda tinha em si uma boa dose de orgulho que resistia à ação do elemento dissolvente. A lembrança de Augusta foi de orgulho ofendido. O seu amor-próprio sofreu naquele momento com a evocação da cena da Rua do Ouvidor.
— Com que então a moça da liga vai ao teu baile...
— Vai; é também convite de meu sogro. Sogro! Acho uma novidade nisto; parece-me que vou mudar da terra. Meu sogro! não pensei nunca que tivesse de dar este nome a alguém. E no entanto... É o que te há de acontecer.
Daniel levantou os ombros.
— A mim? disse ele; se toda a humanidade esperar por mim para casar, podemos dar por extinta a raça humana.
— Era justamente o que eu dizia...
— Importa-me pouco o que tu dizias...
— Verás... verás...
Valadares saiu pouco depois e foi direitinho, não para a casa da noiva, mas para a casa de alguém já indicada neste romance.
Hão de ter notado que Valadares em toda a conversa sobre casamento só de passagem aludira à mulher. Contrário a todos os noivos, a futura esposa não lhe merecera cinco minutos de atenção nas suas expansões com um amigo. Nem mais nem menos, tratava se de um desses mercados a que, por cortesia, se chama — casamento de conveniência —, dois vocábulos inimigos que a civilização aliou.
Valadares tinha chegado naquele ponto em que se bifurca a estrada da vida de um estróina: de um lado, o casamento de conveniência, do outro a perdição completa. É difícil naquela situação encontrar uma mulher que se disponha a dar a mão ao estróina; achou a Valadares.
Estas mesmas reflexões fê-las consigo Daniel, apenas se separou do outro, e, fazendo as, comentou-as por modo que eu estenderia muito estas páginas se quisesse desenvolver as suas reflexões.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Qual dos dois. Rio de Janeiro, 1872.