Por Machado de Assis (1867)
— É a rainha, exclamaram todos, menos o eleitor da rainha Leocádia. Teófilo também nada disse, mas tinha os olhos cravados na moça.
Quando Sílvia, continuando no caminho, desapareceu por trás da parede divisória das duas salas, Augusto voltou-se para o poeta e perguntou-lhe:
— É ou não a rainha?
— É, respondeu Teófilo.
Aqui começou um cântico com estrofes e epodos em louvor da beleza de Sílvia. Teófilo voltou ao habitual silêncio.
Depois saíram da sala.
Augusto deu o braço a Teófilo.
— Queres que te apresente a Sílvia? perguntou-lhe.
— Quero.
Os dois moços dirigiram-se para o salão.
A recém-chegada estava então sentada junto à dona da casa, senhora de trinta e seis anos, ainda bela, mas dessa beleza do outono e do crepúsculo que ainda reúne elementos para impressionar.
Uma turba de adoradores tinha-se já reunido à roda de Sílvia. Ela respondia a todos com volubilidade e graça inefável. De todos os lados da sala os olhos estavam voltados para ela, e um observador sagaz podia apreciar a diferença da expressão que ia em todos esses olhares. Da parte dos homens era, admiração em uns, despeito de vencidos em outros; da parte das mulheres era certa vaidade mal contida e certa inveja mal disfarçada.
Sílvia sabia que era singularmente bela e tinha vaidade disso; era elegante por natureza e por educação; os homens a reqüestavam e repetiam-lhe a cada momento aquilo que o espelho lhe dizia durante o dia a cada hora.
Teófilo parou à porta vendo a turba que cercava a moça.
— Iremos depois, disse ele.
— Por quê?
— Tanta gente...
— Não sejas tolo. Anda cá.
Teófilo deixou-se arrastar.
Augusto aproximou-se do grupo.
A moça apenas o viu fez-lhe um sinal com o olhar. O moço obedeceu aproximando-se.
— Não me acha um ar de filósofo? disse ele sem largar o braço de Teófilo.
— Talvez, disse ela.
— Sou um peripatético que vê correr as horas, olhando para o céu, à espera do momento em que deve aparecer Diana para vir empalidecer as estrelas...
— Deveras? disse ela movendo voluptuosamente o leque.
Augusto fez a apresentação de Teófilo.
Sílvia inclinou ligeiramente a cabeça à saudação de Teófilo. Os seus olhos puros e grandes fitaram-se no moço. Este não pôde desviar os seus.
A conversa continuou animada pelos ditos joviais e de algum modo familiares de Augusto. Teófilo tomava parte na conversação quanto lhe permitia o êxtase em que estava diante da singular beleza de Sílvia.
Sílvia era realmente bela no sentido amplo e elevado da palavra. Vinha à mente a idéia de Cleópatra, era um duplo efeito que o aspecto da moça produzira no espírito e nos sentidos. Quem amasse aquela moça desejaria que, como a Antônio, fosse trasladado para a campa o leito nupcial da vida; ela devia inspirar uma como que voluptuosidade ainda depois da morte.
Devo dizer, em honra de Teófilo, que a impressão produzida no moço não tinha esse caráter. O espírito do poeta só via e sentia o que havia de puro e adorável na mulher. Sílvia era um tanto pálida, não dessa fria palidez de cera que não comove. Tinha a testa arredondada e polida, os olhos negros, profundos, rasgados, desferindo um olhar penetrante; um nariz ligeiramente aquilino, servindo de base a duas sobrancelhas arcadas, bastas e negras; a boca, graciosa e pequena, abria-se em dois lábios demasiadamente rosados, úmidos, voluptuosos; um pescoço perfeitamente contornado ligava a cabeça aos ombros e fazia descer o olhar fascinado para o colo e para as espáduas, nus até onde consentiam a vaidade e o decoro. Sobre aquele colo ideal fulgia uma pequena cruz de brilhantes em completa oscilação pelo arfar do seio. Sílvia vestia com simplicidade e gosto, mas via-se nos maiores enfeites, como nos menores gestos, a consciência da beleza que procurava realçar o que recebeu do céu com o auxílio do que se inventou na terra.
Teófilo não podia desviar os olhos de Sílvia. O espírito do poeta sentia-se tomado de uma ebriedade celeste diante daquela beleza fascinante. Era o filtro mágico do amor que se lhe entornava nos olhos.
Até então o poeta conhecera a beleza pelo que a imaginação lhe figurava. Esta beleza estava ali, diante dele, palpável, visível, deslumbrante.
Sílvia conheceu o efeito que causara em Teófilo, ou antes supôs que ele não podia fugir à lei comum dos outros homens que a cercavam. Fitou um olhar fascinante no poeta, e depois retirou os olhos para dirigir a palavra à dona da casa.
Augusto esperou que a moça acabasse de falar, para interpor uma petição. Era a petição de ser contemplado entre os cavalheiros que deviam merecer a honra de acompanhá-la à dança. Sílvia deu-lhe uma quadrilha. Augusto intercedeu por Teófilo, e Teófilo obteve uma valsa.
Depois os dois moços separaram-se.
— É bela, não? perguntou ao poeta.
— Esplêndida! murmurou este.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Possível e impossível. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1867.