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#Contos#Literatura Brasileira

Os óculos de Pedro Antão

Por Machado de Assis (1874)

— Foi uma paixão? Não te rias. Eu imagino que teu tio se apaixonou por alguma dama formosa. Sabes donde concluo isto? Do gosto pelas artes. As artes substituem os amores, quando estes são impossíveis. Amou, e não querendo ou não podendo casar com ela, retirou-se por aqui. A solidão e a paixão começaram a atuar na sua imaginação. Olha os livros que ele lia; vê estes dois bustos de Cristo e de Satanás; olha estes objetos de feitiçaria esparsos no chão; tudo isto quer dizer que a religião nem a filosofia bastavam à alma do tio e quando a filosofia e a religião não podem triunfar de uma alma, triunfa a superstição. Que te parece?

— Um conto para passar o tempo.

— Ouve o resto. Ao cabo de um ou dois anos, Pedro Antão recebeu uma pequena cartinha...

— Ah! onde está?

— Não sei; mas recebeu. Talvez a encontremos dentro desta secretária. O bilhete era da mulher amada, e dizia provavelmente que tendo ele fugido, vinha ela em busca dele.

— E veio?

— Veio morar na vizinhança, naquele sobrado cujos fundos vimos pela janela do sótão. O tio não respondeu à carta; a dama que eu chamarei Cecília esperou debalde a resposta. Nova carta: novo silêncio. Cecília, no furor da paixão, veste-se um dia com uma mantilha e entra por aqui a pretexto de vir buscar esmolas para os indigentes da paróquia.

— Mande entrar quem é, disse Pedro Antão. A rapariga entrou, e quando se achou a sós com o tio, descobriu o rosto.

— Céus! és tu!

— Sim sou eu; vim porque me recusavas; amo-te...

— Mas desgraçada! não sabes que o teu ato é uma loucura e um crime?

— É uma virtude pois que amo. O tio pôs o rosto nas mãos; estava desesperado.

— Compreendo. E depois?

— Procurou dissuadi-la dos planos que ela concebera; a única coisa que conseguiu foi dar sua palavra de que iria vê-la à casa ou ao menos conversar de fora.

— Mas eu não sei como possa lá ir, objetou Pedro Antão.

— A janela do teu salão dá para os fundos da minha casa. Sobe ao telhado e eu conversarei da janela.

— Pois sim respondeu teu tio.

— Supões que ele respondeu assim?

— Com certeza.

— O tio cumpriu então a promessa?

— Cumpriu. Quando toda a vizinhança estava recolhida, trepava ele ao telhado e ia conversar por baixo da janela de Cecília até que vinha a madrugada e Pedro Antão voltava para casa com o coração mais tranqüilo...

— E uma constipação no lombo.

— Não te rias, Mendonça; és um espírito futil. Ouve o resto, e verás que tudo se explica; eu aprendi a arte de interpretar as coisas mais insignificantes. Ora, atende; atende e concordarás comigo.

— Continua.

— Assim se passaram os dias, as semanas, os meses; era um idílio renouvelé de Roméo. Um dia provavelmente o pai da moça percebeu que alguém costumava perlustrar os telhados, e tendo ouvido conjugar o verbo amar todas as noites sempre no indicativo do tempo presente, resolveu pôr em cena um quinto ato de Crebillon; comprou uma pistola...

— E matou o tio?

— Não!

— Felizmente.

— Pôs-se de emboscada; apenas apareceu um vulto, disparou a pistola... Dois gritos agudos acompanharam o som do tiro; Pedro Antão correu a meter-se em casa. Cecília caiu redondamente no chão.

— Morta?

— Desmaiada. Acudiu toda a família. O pai acudiu também; mandou chamar um médico e deram-se à pequena os primeiros cuidados que a situação exigia. Albuquerque (deve ser o nome do pai) era homem de costumes severos; guardou uma repreensão para a filha depois que ficasse boa. A menina ficou no quarto com a mãe e uma escrava velha, a tia Mônica. Aqui não te posso dizer quanto tempo esteve ela gravemente enferma; o que te afirmo é que, apenas tornou em si, e pôde lembrar-se do episódio do tiro, disse que tivera um grande pesadelo, e a isso devera o desmaio. A mãe engoliu a pílula; o pai achou-a amarga demais. Passaram-se os dias; Cecília sempre de cama, ficava então só com a escrava. Uma noite, disse-lhe a escrava:

— Por que razão, sinhá-moça, quer sempre que eu vá à janela de noite?

— Cecília fitou nela os olhos, e com voz fraca disse:

— Tia Mônica, você é capaz de guardar um segredo?

— Sou, respondeu a preta. Cecília contou então tudo; e quando acabou, disse:

— Eis aqui por que eu te mando à janela: é para ver se vês o meu querido Antão; morreria ele?

— Não, sinhá, respondeu Mônica; está vivo. A moça respirou. Depois ouvindo rumor no telhado, disse à preta que fosse ver o que era.

— É ele, disse Mônica.

— Ah! diz-lhe que eu estou de cama, mas que preciso falar-lhe. A preta deu conta do recado; Pedro Antão voltou para casa. Meditou nos meios de subir à casa de Cecília e vê-la um minuto que fosse. Por honra dele, devo dizer que hesitou muito tempo em cumprir a promessa...

Mendonça neste ponto inclinou-se mais para mim e disse:

— Não ouves?

— O quê?

— Um rumor?

— São ratos. Deixa-te de vãos temores. Ouve a narração. Não te parece exata?

— Sim; parece. Tens uma penetração rara! Quem não dirá que isso não é a verdade?

— Ninguém pode dizê-lo.

— Continua.

(continua...)

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