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#Contos#Literatura Brasileira

Onze anos depois

Por Machado de Assis (1875)

— É evidente que eu gosto dela alguma coisa, não muito, um gostar frio que me não tira a razão, nem a serenidade. Ela não desgosta de mim; creio até que gosta muito, quase tanto como no outro tempo, e é claro que se casou só por fazer a vontade à mãe. Se não houvesse casado, é duvidoso que eu tomasse tal encargo; já agora não me caso mais, salvo por negócio. Mas quem me pode impedir que a ame, que seja amado, que sejamos felizes?

Aqui saboreou um gole de café e continuou:

— O Alves não há de certamente gostar disto; mas também não é necessário dizer-lho; é até prudente não lhe dizer nada. A minha consciência...

Outro gole de café.

— A minha consciência está a dizer-me que ele é meu amigo, e que fui e sou talvez amigo dele; mas há um rifão que diz: amigos, amigos, negócios à parte. Ele é que errou em casar com uma moça de quem eu gostava; tudo isto é agora uma mera conseqüência. Moreira esvaziou a xícara, acendeu um charuto, e pensou seriamente em escrever uma carta a Eulália. Fechou a porta do quarto, travou da pena e escreveu o rascunho da carta que se vai ler:

Eulália,

Quem diria que onze anos depois nos havíamos de encontrar em semelhante situação? Foram onze séculos de martírio para mim, que vaguei tão longe do lugar onde tu vivias, onde vivia a minha única felicidade. Poupo-te a história aflitiva desse longo prazo de amarguras; calcula pelo que padeceste também. Sim, ouso afirmar que padeceste, porque leio nos teus olhos, porque o meu coração me diz que ainda me amas, e que, assim como eu me não esqueci de ti, assim tu te não esqueceste de mim.

Oh! se assim não fora! se ao cabo de tanto tempo de estranhas e irreparáveis mágoas, meu coração viesse achar o teu coração gelado e sem o mínimo vestígio de amor, juro-te, Eulália, que me mataria. Era muito que o destino nos separasse; era muito, mas podia sofrer-se. O que, porém, está acima de todas as forças humanas, das minhas forças pelo menos, era que tu me esquecesses! Odeia-me, se queres, mas lembra-te de mim!

Bem vejo que a nossa situação é hoje melindrosa e singularmente infeliz; mas um raio de luz me basta. Nada mais quero para ser o mais venturoso dos mortais, do que a certeza do teu afeto e um sincero olhar de benevolência.

Ama aquele que sempre te amou.

Teu até a morte.

M.

Releu Moreira esta epístola e achou-a boa para o caso. Não é preciso apontar ao leitor a diferença do monólogo e da epístola: ele a terá notado por si.

Não se demorou Moreira em copiar a carta; fê-lo com a sua letra mais trêmula e comovida; fechou-a, e acabava de a pôr na carteira, quando lhe foi anunciada a visita de Alves.

Foi recebê-lo com a maior alegria no rosto.

— Não achas novidade que eu aqui viesse depois de tantas promessas inúteis? perguntou o advogado logo que viu assomar à porta a figura do amigo.

— Novidade decerto que é.

— Uma idéia.

— Ah! vejamos.

— Vamos para Petrópolis sábado. Queres vir conosco?

— Sábado?

— Sim.

— Não sei se posso; em todo caso, farei os esforços possíveis...

— Esforços! disse Alves encolhendo os ombros. Quem te ouvir, dirá que tens graves negócios em mão.

— Talvez.

— Imagino.

— Pois bem, iremos todos no sábado, disse Moreira depois de alguns instantes de reflexão.

— Vou apenas estar uns quinze dias; aproveito as férias, explicou Alves levantando-se e pegando no chapéu.

— Já?

— Já. Vou a São Cristóvão; aproveitei esta ocasião para fazer-te a visita e o pedido. Vais lá de noite?

— É provável.

Era definitivo, leitor; ele não tinha outro projeto senão ir lá de noite, e quanto à viagem a Petrópolis, achou desde o princípio que era uma grande fortuna. Os três dias passaram se depressa; às duas horas da tarde de sábado estavam os três na barca; a barca saiu, chegou a Mauá, saiu o trem, fez-se enfim a viagem até a cidade sem notável incidente.

Perdão; houve um incidente.

Na estação do caminho de ferro, vendo Moreira que o amigo conversava com um amigo, entregou a Eulália o lenço que lhe havia caído.

A moça agradeceu com uma leve inclinação de cabeça; pegou no lenço e sentiu um corpo estranho. Era papel; era naturalmente uma carta; fez-se vermelha e foi ao braço do marido.

Durante a viagem Moreira procurou muitas vezes, com os olhos, os olhos de Eulália; apenas uma vez os encontrou, mas tão medrosos eram, que para logo fugiram para se cravarem no marido. Este sorriu, com a benevolência e o amor do costume; a felicidade de Alves estava toda na mulher; vê-la feliz e contente era a sua maior fortuna.

No dia seguinte ao da chegada a Petrópolis, foram os três, logo de manhã, dar um passeio de carro. A manhã estava deliciosa. Mas o que fez espantar o namorado não foi a manhã, foi Eulália. A moça parecia singularmente alegre, alegre como a não vira desde que de novo a encontrara. Esta mesma mudança fazia admirar não menos ao marido; mas a admiração deste era mesclada de ainda maior contentamento que a de Moreira. As férias começavam bem; todos pareciam felizes.

Tão feliz que Alves tornou por vezes a ser o que fora no tempo de solteiro: palrador e amavelmente indiscreto.

(continua...)

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