Por Machado de Assis (1878)
— Não te lastimes, meu divino artista; dizia ele a Inácio; e ajuda-me no sucesso do machete.
Riam-se os dois, e mais do que eles se ria Barbosa, riso de triunfo e satisfação porque o sucesso não podia ser mais completo.
— Magnífico!
— Bravo!
— Soberbo!
— Bravíssimo!
O machete foi o herói da noite. Carlota repetia às pessoas que a cercavam:
— Não lhes dizia eu? é um portento.
— Realmente, dizia um crítico do lugar, assim nem o Fagundes ...
Fagundes era o subdelegado.
Pode-se dizer que Inácio e Amaral foram os únicos alheios ao entusiasmo do machete. Conversavam eles, ao pé de uma janela, dos grandes mestres e das grandes obras da arte.
— Você por que não dá um concerto? perguntou Amaral ao artista.
— Oh! não.
— Por quê?
— Tenho medo...
— Ora, medo!
— Medo de nao agradar...
— Há de agradar por força!
— Além disso, o violoncelo está tao ligado aos sucessos mais íntimos da minha vida, que eu o considero antes como a minha arte doméstica...
Amaral combatia estas objeções de Inácio Ramos; e este fazia-se cada vez mais forte nelas. A conversa foi prolongada, repetiu-se daí a dois dias, até que no fim de uma semana, Inácio deixou-se vencer.
— Você verá, dizia-lhe o estudante, e verá como todo o público vai ficar delirante. Assentou-se que o concerto seria dali a dois meses. Inácio tocaria uma das peças já compostas por ele, e duas de dois mestres que escolheu dentre as muitas. Barbosa não foi dos menos entusiastas da idéia do concerto. Ele parecia tomar agora mais interesse nos sucessos do artista, ouvia com prazer, ao menos aparente, os serões de violoncelo, que eram duas vezes por semana. Carlotinha propôs que os serões fossem três; mas Inácio nada concedeu além dos dois. Aquelas noites eram passadas somente em família; e o machete acabava muita vez o que o violoncelo começava. Era uma condescendência para com a dona da casa e o artista! — o artista do machete.
Um dia Amaral olhou Inácio preocupado e triste. Não quis perguntar-lhe nada; mas como a preocupação continuasse nos dias sub seqüentes, não se pôde ter e interrogou-o. Inácio respondeu-lhe com evasivas.
— Não, dizia o estudante; você tem alguma cousa que o incomoda certamente.
— Cousa nenhuma!
E depois de um instante de silêncio:
— O que tenho é que estou arrependido do violoncelo; se eu tivesse estudado o machete! Amaral ouviu admirado estas palavras; depois sorriu e abanou a cabeça. Seu entusiasmo recebera um grande abalo. A que vinha aquele ciúme por causa do efeito diferente que os dois instrumentos tinham produzido? Que rivalidade era aquela entre a arte e o passatempo?
— Não podias ser perfeito, dizia Amaral consigo; tinhas por força um ponto fraco; infelizmente para ti o ponto é ridículo.
Daí em diante os serões foram menos amiudados. A preocupação de Inácio Ramos continuava; Amaral sentia que o seu entusiasmo ia cada vez a menos, o entusiasmo em relação ao homem, porque bastava ouvi-lo tocar para acordarem-se-lhe as primeiras impressões.
A melancolia de Inácio era cada vez maior. Sua mulher só reparou nela quando absolutamente se lhe meteu pelos olhos.
— Que tens? perguntou-lhe Carlotinha.
— Nada, respondia Inácio.
— Aposto que está pensando em alguma composição nova, disse Barbosa que dessas ocasiões estava presente.
— Talvez, respondeu Inácio; penso em fazer uma cousa inteiramente nova; um concerto para violoncelo e machete.
— Por que não? disse Barbosa com simplicidade. Faça isso, e veremos o efeito que há de ser delicioso.
— Eu creio que sim, murmurou Inácio.
Não houve concerto no teatro, como se havia assentado; porque Inácio Ramos de todo se recusou. Acabaram-se as férias e os dois estudantes voltaram para S. Paulo.
— Virei vê-lo daqui a pouco, disse Amaral. Virei até cá somente para ouvi-lo. Efetivamente vieram os dois, sendo a viagem anunciada por carta de ambos. Inácio deu a notícia à mulher, que a recebeu com alegria.
— Vêm ficar muitos dias? disse ela.
— Parece que somente três.
— Três!
— É pouco, disse Inácio; mas nas férias que vêm, desejo aprender o machete. Carlotinha sorriu, mas de um sorriso acanhado, que o marido viu e guardou consigo. Os dois estudantes foram recebidos como se fossem de casa. Inácio e Carlotinha desfaziam-se em obséquios. Na noite do mesmo dia, houve serão musical; só violoncelo, a instâncias de Amaral, que dizia:
— Não profanemos a arte!
Três dias vinham eles demorar-se, mas não se retiraram no fim deles.
— Vamos daqui a dois dias.
— O melhor é completar a semana, observou Carlotinha.
— Pode ser.
No fim de uma semana, Amaral despediu-se e voltou a S. Paulo; Barbosa não voltou; ficara doente. A doença durou somente dois dias, no fim dos quais ele foi visitar o violoncelista.
— Vai agora? perguntou este.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O machete. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1878.