Por Machado de Assis (1867)
— Não basta não dizer. É preciso mesmo nem falar. As mães são zelosas dos filhos, porque são mães. Muitas vezes andam a ouvir às portas, para ter certeza do estado dos filhos. Querem surpreendê-los na plena confiança que lhes dá a ausência delas... Tive uma suspeita: cuidei que minha mãe estivesse à porta.
Levantei-me e fui à porta. Não estava.
O doutor esperou-me sorrindo:
— Não está, mas podia estar, disse.
Voltei a sentar-me ao lado do doutor.
— Ouça bem, continuou ele, esta cisma constante de que há de morrer, estes trabalhos que tem e as suas forças atuais não comportam, tudo isso torna-o pior. Não vê como está ansiado...
— É a comoção.
— Já estava quando eu entrei. Ora pois, não pense mais em coisas tão lúgubres, e sobretudo não se ocupe de coisa alguma. Vamos lá: tomou os remédios?
— Tomei.
— E então?
— Ontem não senti melhoras algumas; agora estou melhor um pouco, apesar da ânsia.
— Ânsia é por culpa sua... Aposto que esteve a escrever versos.
— Não.
— Nem deve ocupar-se com isso. Há de ser bonito se escreve alguma poesia em que fale da morte e do que vai deixar, e depois de três meses fica-me aí são como um pero... Minha resposta foi sorrir-me.
— Ande deitar-se um pouco.
— Para quê?
— Porque a minha visita é mais longa hoje que de costume, e eu não quero que se canse. Vá deitar-se, deite-se e conte-me uma história.
— Obedeço. Que história quer?
— Uma história de meninos. As três cidras, O príncipe formoso...
Refleti um pouco e respondi:
— Contar-lhe-ei uma história interessante! um pouco velha, mas instrutiva.
VIII
Conheci um rapaz, poeta como eu, e como eu crente, a mais não poder ser, nas melhores ilusões desta vida.
Não era rico, devia viver por si; todavia, pôde alcançar meio de preparar-se para uma profissão literária. Foi estudar. Tinha ao lado das ilusões grande bom senso, e a ele deveu correr os primeiros anos de seus estudos sem cair nos laços do amor. Teve algumas fantasias, mas fantasias simplesmente, que começavam e acabavam na mesma noite. A sorte preparara-lhe... Abre a boca, doutor? A história o adormece?
— Não; pode continuar.
— A sorte preparara-lhe um golpe profundo, para castigá-lo do critério com que soube fugir às tentações que encontrou. Depois de muitas circunstâncias que não vêm ao caso, achou-se diante de uma mulher. Imagine o doutor que essa mulher era bela. Imagine mais que estava em circunstâncias especialmente romanescas. Acabava de perder o marido que na idade de dezesseis anos seus pais lhe tinham obrigado a tomar. Contava então vinte e dois, e a morte daquele homem, se não lhe matou a alma, porque a alma não se achava ligada a ele, deu-lhe certa tristeza e arrancou-lhe algumas lágrimas, o que era nela um fundo de honestidade e pureza.
O que é porém certo é que, à semelhança de uma criatura que deixa a prisão em que estivera detida por longos anos, ela reapareceu ao mundo, assombrada e abatida. Era uma viúva que se achava ainda solteira. Buscava uma alma para casar. Apareceu-lhe o poeta. Força da fatalidade os impeliu um para o outro. Parece que mesmo um para o outro se tinham conservado, ela na prisão que lhe armaram os pais, ele na torre de marfim de sua sossegada isenção. Mas viram-se e amaram-se. Naturalmente, pergunta me, com que amor se amaram? Foi com o verdadeiro amor, o amor que consorcia desde a primeira hora as almas, as vontades e os pensamentos para nunca mais se separarem. Nunca mais! Logo mais verá que não foi assim! Vai-se embora, doutor?
— Tenho que fazer.
— Fique, eu lhe peço.
— Com uma condição.
— Qual?
— Não continue essa história.
— Incomoda-se em ouvi-la?
— Um pouco.
— Deixe disso. Não me vê calmo? É verdade que como os fatos já se passaram há longo tempo, e o meu anjo... já morreu, estou hoje mais a frio e posso contá-la sem enternecer... E demais, assim ao menos não pensarei na minha visita, a morte.
— Oh! não, não pense nisso! Vamos lá, conte. Mas antes disso tome o remédio, sim?
— Sim.
IX
Tomei o remédio e continuei:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O último dia de um poeta. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1867.