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#Contos#Literatura Brasileira

O escrivão Coimbra

Por Machado de Assis (1906)

— Pois esteve muito bonita. Houve muitas esmolas e grande concorrência. A mesa foi reeleita, sabe?

Coimbra não sabia, mas disse que sim, e sinceramente achou que devia sabê-lo; chamou-se descuidado, relaxado, e voltou para a imagem olhos que supôs contritos e pode ser que o fossem. Ao sacristão pareceram devotos. Também este elevou os seus à imagem, e fez a reverência habitual, inclinando meio corpo e dobrando a perna. Coimbra não foi tão extenso, mas imitou o gesto.

— A escola vai bem, sabe? disse o sacristão.

— A escola? Ah! sim. Ainda existe?

— Se existe? Tem setenta e nove alunos.

Tratava-se de uma escola que ainda em tempo da esposa do escrivão, a irmandade fundara com o nome do santo, a escola de S. Bernardo. O desapego religioso do escrivão chegara ao ponto de não acompanhar a prosperidade do estabelecimento, quase esquecê-lo de todo. Ouvindo a notícia, ficou pasmado. No tempo dele não houve mais de uma dúzia de alunos, agora eram setenta e nove. Por algumas perguntas sobre a administração, soube que a irmandade pagava a um diretor e três professores. No fim do ano ia haver a distribuição dos prêmios, grande festa a que esperavam trazer o arcebispo. Quando saiu da igreja, trazia Coimbra não sei que ressurreições vagas e cinzentas. Propriamente não tinham cor, mas esta expressão serve a indicar uma feição nem viva, como dantes, nem totalmente morta. O coração não é só berço e túmulo, é também hospital. Guarda algum doente, que um dia, sem saber como, convalesce do mal, sacode a paralisia e dá um salto em pé. No coração de Coimbra o enfermo não deu salto, entrou a mover os dedos e os lábios, com tais sinais de vida que pareciam chamar o escrivão e dizer-lhe coisas de outro tempo.

— O último! Quinhentos contos, bradavam os meninos, quando ele ia a entrar no cartório. Quinhentos contos! O último! Estas vozes entraram com ele e repetiram-se várias vezes, durante o dia, ou da boca de outros vendedores ou dos ouvidos dele mesmo. Quando voltou para casa, passou novamente pela igreja mas não entrou; um diabo ou o que quer que era desviou o gesto que ele começou a fazer.

Não foi menos inquieto o dia 23. Coimbra lembrou-se de passar pela escola de S. Bernardo; já não era na casa antiga; estava em outra, uma boa casa assobradada, de sete janelas, portão de ferro ao lado e jardim. Como é que ele fora um dos primeiros autores de obra tão conspícua? Passou duas vezes por ela, chegou a querer entrar, mas não saberia que dissesse ao diretor e temeu o riso dos meninos. Foi para o cartório e, de caminho, mil recordações lhe restituíam o tempo em que aprendia a ler. Que ele também andou na escola, e evitou muita palmatoada com promessas de orações a santos. Um dia, em casa, ameaçado de apanhar por haver tirado ao pai um doce, aliás indigesto, prometeu uma vela de cera a Nossa Senhora. A mãe pediu por ele, e alcançou perdoá-lo; ele pediu à mãe o preço da vela e cumpriu a promessa. Reminiscências velhas e amigas que vinham temperar o árido preparo dos papéis. Ao mesmo S. Bernardo fizera mais de uma promessa, quando era irmão efetivo e mesário, e cumpriu-as todas. Onde iam tais tempos?

Enfim, surdiu a manhã de 24 de dezembro. A roda tinha de correr ao meio-dia. Coimbra acordou mais cedo que de costume, mal começava a clarear. Conquanto trouxesse de cor o número do bilhete, lembrou-se de o escrever na folha da carteira para havê-lo bem fixo, e no caso de tirar a sorte grande... Esta idéia fê-lo estremecer. Uma derradeira esperança (que o homem de fé nunca perde) lhe perguntou sem palavras: que é que lhe impedia tirar os quinhentos contos? Quinhentos contos! Tais coisas viu neste algarismo que fechou os olhos deslumbrados. O ar, como um eco, repetiu: Quinhentos contos! E as mãos apalparam a mesma quantia.

De caminho, foi à igreja, que achou aberta e deserta. Não, não estava deserta. Uma preta velha, ajoelhada diante do altar de S. Bernardo, com um rosário na mão, parecia pedir-lhe alguma coisa, se não é que lhe pagava em orações o beneficio já recebido. Coimbra viu a postura e o gesto. Advertiu que ele era o autor daquela consolação da devota e olhou também para a imagem. Era a mesma do seu tempo. A preta acabou beijando a cruz do rosário, persignou-se, levantou-se e saiu.

(continua...)

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