Por Gregório de Matos (1696)
Estava Clóris sangrada,
e Fábio, que a visitava
com ver, que sangrada estava
Ihe deu logo outra picada:
ela tão aliviada
ficou, que se ergueu da cama,
dizendo, bem haja a Dama
de Adônis, cuja virtude,
quando me pica em saúde,
eu me sangro, ele derrama.
Como na vida acertou,
onde habita a saudade,
extinta a má qualidade,
a enfermidade acabou:
nunca Galeno alcançou
nas sangrias, que me aplica,
quanto o ferro prejudica,
e eu curada com dieta
já sei, que pica a lanceta,
e somente sangra a pica.
Fábio me curou do mal,
que na cama Ihe informei,
não com xarope de rei,
mas com régio cordial:
se se curar cada qual
somente com seu galante,
há de sarar num instante,
pois quando eu caio doentinha,
não hei mister mais meizinha,
que a meu Mano se levante.
A HUMA DAMA CHAMADA JOSEPHA, QUE EM NOYTE DE SAM JOÃO LHE
REBENTOU HUM FOGUETE BUSCAPE ENTRE AS PERNAS, DE QUE FICOU BEM
MAL TRATADA.
Só vós, Josefa, só vós
sabeis em todo o sertão
festejar o São João,
na noite de catrapós:
os vossos foguetes sós
de fio, taboca, e pez
são foguetes, pois num mês
tivestes por vosso abono
um foguete busca-cono,
um lugar de busca-pés.
Quem tal foguete botou,
que em boa realidade
vos fodeu contra a vontade
e a foda vos não pagou?
conforme ele se embocou
vinha bem industriado;
mas não foi grande o pecado,
em que o foguete há caído
deixar-vos o cono ardido,
se antes andava arreitado.
O foguete por tramóia
vos queima, e deixa arrasada,
e os que passam pela estrada,
vão dizendo "aqui foi Tróia":
vaso, que sendo uma jóia
não pôde ao menor resquício,
reparar em o artifício,
digam-lhe em forma de pedra
escallo armado de Yedra
yo te conoci Edifício.
Deixou-vos vosso parceiro,
vendo, que entre tantas falhas,
O que eram altas muralhas,
hoje é triste pardieiro:
que faria o pegureiro
vendo, no que vaso foi
lo que va de ayer a oy
e Ihe dizíeis ali,
que ayer maravilla fuí
y oy sombra mia aun no soy.
Deixou-vos tão de carreira
com medo deste fracasso,
pois viu, que o que era vaso,
já agora estava caveira:
como quereis, que vos queira,
nem que torne ao vosso horto,
se de pasmado, e absorto
Ihe pareceu, que seria
pecado de Sodomia
fornicar um vaso morto.
Daquela campanha chã
tão rasa, e tão abrasada
fugiu, porque era estampada
a pedra da Itapoã:
e como cada manhã
a pedra furada atroa,
e o homem era pessoa
tão amigo de um bom trato,
vos disse "fora Lobato,
que esse vaso mal me soa".
Mas como vós sois cachorra;
e sobre isto ardida estais,
de uma em outra porta andais
pedindo esmolas de porra:
não achais, quem vos socorra,
nem quem para vós se emangue,
com que a cada pé de mangue
chorais, que em tão triste caso
ninguém vos aceita o vaso,
temendo Ihe queime o sangue.
Josefa, o que está melhor
ao vosso cono caveira,
é dá-lo uma sexta-feira
de Quaresma a um Pregador:
porque ele com seu fervor,
e co'a caveira na mão
fara tão grande sermão,
que os homens por seu abono
ouvindo o memento cono
todos se arrependerão.
A HUMA DAMA, A QUEM SOLICITANDO-A O POETA, LHE PEDIO DINHEYRO, DE
QUE ELLE SE DESEMPULHA.
Senhora, é o vosso pedir
um impedir as vontades,
que pertendem humildades,
de quem deseja servir:
faz-me vontade de rir
um pedir tão despedido,
que dele tenho entendido,
que o pedir despedir é:
bem podeis viver na fé,
que esse pedir é perdido.
Peça amores, e finezas,
peça beijos, peça abraços,
pois que os abraços são laços,
que prendem grandes firmezas:
não há maiores despesas
que um requebro, e um carinho,
pois no tomar de um beijinho
fica a riqueza ganhada,
e tudo o mais não val nada:
não peças mais, meu Anjinho.
Se vos vira, minha Mana,
recolhida, e não faceira
dissera, que como Freira
pedíeis à franciscana:
porém vós sois muito ufana,
e logo pedis a panca:
eu de vós direi, arranca,
que o vosso pedir cruel
pica mais do que um burel,
e dói mais que uma tranca.
A HUMA DAMA QUE MACHEAVA OUTRAS MULHERES.
MOTE
Namorei-me sem saber
esse vício, a que te vás,
que a homem nenhum te dás,
e tomas toda a mulher.
Foste tão presta em matar-me
Nise, que não sei dizer-te,
se em mim foi primeiro o ver-te,
do que em ti o contentar-me
sendo força o namorar-me
com tal pressa houve de ser,
que importando-me aprender
a querer, e namorar,
por mais me não dilatar
Namorei-me sem saber.
A saber como te amara,
menos mal me acontecera,
pois se mais te comprendera,
tanto menos te adorara:
a vista nunca repara,
no que dentro d'alma jaz,
e pois tão louca te traz
que só por Damas suspiras,
não te amara, que tu viras,
Esse vício, a que te vás.
Se por Damas me aborreces
absorta em suas belezas,
a tua como a desprezas,
se é maior que as que apeteces?
se a ti mesma te quisesses,
querendo, o que a mim me praz,
seria eu contente assaz,
mas como serei contente,
se por mulheres se sente,
Que a homem nenhum te dás?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.