Por Gregório de Matos (1696)
Que fora, se hoje jantara!
ontem ceei parcamente;
não vi coisa mais corrente,
que feijões da Pericoara:
se meu amigo cheirara
este desar da buzeira,
corre risco, não me queira,
como é todo um arminho,
há de fazer-me focinho,
como à coisa, que mal cheira.
Pô diabo, há de dizer,
sem ser diabo, nem pó:
bebi o caldinho só,
e o feijão não quis comer:
que Ihe havia eu de fazer,
se o caldo era solutivo,
e no corpo semivivo
sem ter puxo, nem repuxo,
antes de eu tomar o puxo,
se saiu de seu motivo.
Eu nunca o caldo sentira
sair-me pelo franjido,
a não ter outro sentido
no nariz, que mo advertira:
então vi, que se saíra,
e temendo outra jornada
(semelhante cavalgada
não houve daqui ao Cairu)
não pude enfrear o cu,
e a fralda ficou selada.
Algum meu apaixonado
a gritos de aqui-d'EI-Rei
afirma que eu não caguei,
e cuida, que o tem provado:
meu amigo está empenhado
em fazer esta pesquisa,
e como é coisa precisa
por sua honra defendê-lo,
porá na matéria o selo,
e eu Ihe darei na camisa.
A ocasião foi temerária,
e na Igreja, onde assistia,
não faria valentia,
mas fiz coisa necessária:
a dor foi extraordinária,
é, que neste desconcerto,
é, que neste desacerto,
e em tão grande desalinho
um humor tão delgadinho
me pusesse em tal aperto.
Era água simples de cubos
a caca dos meus calções,
com que entendam, que os feijões
não tinham dez réis de adubos:
não fedem pubas, nem pubos,
o que fedia o meu rabo:
foi caçoula do diabo,
quanto me cheirava a caca,
depois fui Jaratacaca,
tresandava pelo rabo.
Fui-me logo para o mangue
co'a fralda disciplinante
molhada atrás, e adiante,
muita caca, e pouco sangue:
com medo, que se remangue
meu amigo contra mim,
borrada fiquei assim,
porque quando ele se segue,
e algum bofetão me pregue,
eu Ihe apregue o fraldelim.
Se do dia de Endoenças
a própria Etimologia
são andanças do tal dia,
para mim foram correnças:
por evitar desavenças
não irei mais aos sermões,
onde há tantos empuxões,
onde me agoniam Evas,
onde os Frades dão as trevas,
e me fazem dar trovões.
A HUMAS DAMAS DE LA VIDA AYRADA, QUE INDO E VINDO AO DIVERTIMENTO DE
HUMA ROÇA ZOMBAVAM DA HONESTIDADE DE HUMA IRMÃA CASADA.
Vamos cada dia à roça,
se é, que vai o camarada,
que ri, e folga à francesa,
e pinta à italiana.
Vamos, e fiquemos lá
um dia, ou uma semana,
que enquanto as gaitas se tocam,
sabe a roça, como gaitas.
Vamos à roça, inda que
nos fique em cada jornada
cada meia sem palmilha,
e sem sola cada alparca.
Vá Mané, e vá Marcela,
vá toda a nossa prosápia,
exceto a que por casada
não põe pé fora de casa.
Case, e tão casada fique,
que nem para fazer caca
jamais o marido a deixe,
nem se Ihe tire da ilharga.
Case, e depois de casar
tanto gema, e tanto paira,
que caia em meio das dores
na razão das minhas pragas.
Case, e tanto se arrependa,
como faz toda, a que casa,
que nem para descasar-se
a via da Igreja saiba.
E nos vamos para a roça
com nosso feixe de gaitas
até ver-me descasada
para me rir, de quem casa.
A HUMA MULATA APELIDADA MONTEYRA QUE DAVA CASA DE ALCOUCE.
Hoje em dia averiguou-se
(e aqui ninguém vos adula)
que dais, por mostrar-vos mula,
em lugar de couce alcouce:
por verdade isto assentou-se,
e eu também não vou contra ela,
antes sem contradizê-la,
quero sobre isto arguir,
que caça hei de descobrir
por Monteira, e por cadela.
A DAMAZIA QUE DAVA PRESSA À HUMA SAYA QUE SE ESTAVA FAZENDO, PARA
BOTAR NUMA FESTA, DIZENDO SER SUA SENDO ELLA DE SUA SENHORA.
Muito mentes, Mulatinha:
valha-te deus por Damásia!
não sei, quem sendo tu escura,
te ensina a mentir às claras.
Tal vestido, com tal pressa?
não vi mais ligeira saia;
mas como a seda é ligeira,
foi a mentira apressada.
Tal vestido não é teu,
nem tu tens, Damásia, cara,
para ganhar um vestido,
que custa tantas patacas.
Tu ganhas dous, três tostões
por duas ou três topadas;
não chegam as galaduras
para deitar uma gala.
Nem para os feitios chegam
os troquinhos, que tu ganhas,
pois não vale o teu feitio
mais que até meia-pataca.
De Soldado até Sargento,
ou até Cabo de esquadra
não passa o teu roçagante,
nem te chega a triste alçada.
Estes, que te podem dar,
mais que uma vara de caça,
uma cinta de baeta
e saia de persiana.
Colete de chamalote,
e de vara e meia a fralda,
que fazem oito mil-réis,
que é valor da pobre farda.
Todos sabem, que o vestido,
que em verdes campos se esmalta,
é verdura de algum besta,
que em tua Senhora pasta.
Mas o que é dela, teu é,
que é outra que tal jangada,
e talvez por to emprestar,
que ficaria ela em fraldas.
Apostemos, que não vestes
outra vez a verde saia,
e nem de a vestires mais,
te ficam as esperanças?
Ora toma o meu conselho,
e vive desenganada,
que enquanto fores faceira,
não hás de ganhar pataca.
A HUMA DAMA QUE ESTAVA SANGRADA.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.