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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Andanças de uma viola de cabaça

Por Gregório de Matos (1696)

Viu-vos o vosso Parente
numa moita fornicando,
e vós o caso negando
sois Pedro Silvestremente:
vós mentis, ou ele mente
dizendo a verdade pura:
vós estáveis na espessura,
onde a Negra vos espera,
e onde vos viram, ou era
o demo em vossa figura.

Já por vosso menoscabo
depois de injúrias tamanhas
dizem das vossas entranhas,
que é morada do diabo:
porque no cabo, ou no rabo
me dizia o coração,
que se há demo fodinchão,
havendo o tal de foder,
não podia tal fazer,
senão com vosso pismão.

Não sei, que menos torpeza
a vossa torpeza rara
acha na moita mais clara,
que na moita mais espessa:
tudo é foder à montesa,
e não tendes, que dizer,
replicar, nem defender,
que aqui foi, e não ali,
porque seja ali, ou aqui,
Silvestre, tudo é foder.

Se mudais de situação
não mais que por concluir,
em que anda sempre a mentir
vosso parente Fuão:
eu vos digo em conclusão,
que o tirardes a cassaca,
e abaixar-se-vos à taca
(como diz vosso Parente)
tudo é sinal evidente,
de que sois o autor da caca.

A PROPENÇÃO COM QUE ESTE SILVESTRE CARDOZO SEMPRE QUERIA IMITAR O
PEYOR.

Senhor Silvestre Cardoso,
só eu invejar sei bem
a inveja, que aqui vos tem
a esse membro façanhoso:
vosso Primo de invejoso
tanto o abate, e quebranta,
que isso a todos nos espanta,
pois quando a mentira encaixa,
como de falso o abaixa,
ele é, quem vo-lo levanta.

Diz, que Cristina jurou,
que se vos não levantara,
vós dizeis, que alguém tomara,
levar, o que ela levou:
e eu, que tão perplexo estou
entre crer, e duvidar,
quero levar, e apostar,
que tal não levou Cristina,
porque se acabe a contina
de alguém tomara levar.

Se vos põem algum defeito,
costumais logo dizer:
isso vi eu suceder
em tal parte a tal sujeito:
dai ao demo esse conceito,
que a alheia imperfeição
é triste consolação;
porque o amigo, ou parente
é como vós tão doente,
ficais vós acaso são?

Não vos mova a desairado
o mal daquele, e defeito:
tratai vós de andar direito,
e ande o mundo corcovado:
o mau exemplo estampado
no bronze, jaspe, ou história
o seu fim, e a sua glória
não é para se imitar,
senão para o desterrar
pelo escarmento a memória.

Vós toda a falta inquiris.
e em a chegando a saber
em vez de a aborrecer,
correntemente a seguis:
se a vossa má sorte quis,
que fôsseis, do que é pior
um perpétuo imitador,
e tendes habilidade
para imitar a maldade,
não é a virtude melhor?

E se o alheio se não
tomais por vossa desculpa,
quando vo-la dão em culpa,
até isso é imitação:
desculpai-vos co'a razão,
se a tendes para emprendê-lo,
se não calá-lo, e sofrê-lo,
porque geralmente dito,
do pecado, e do delito
a desculpa é não fazê-lo.

Verbi gratia uma senhora
cativa do coadjutor,
que nos trabalhos de amor
hoje é vossa coadjutora:
porque a bateis cada hora
com tanto afã, e canseira
no pasto, praia, e ladeira,
para que heis de publicar,
que vos não deixa parar,
porque é grande bolideira?

Este excesso tão insano
será acaso menos grave,
para que menos agrave,
porque o mesmo fez Fulano?
não: que fora entonces Ihano
poderdes herege arder,
porque Lutero o quis ser:
poderdes ser um Mafoma,
poderdes ser um Sodoma,
tendo, a quem vos parecer.

Ter sucedido o delito,
haver-se feito o pecado,
não faz, que esteja acabado
seu rencor, ou já prescrito:
antes um, e outro aflito
co'a pena, que se lhe pôs
pelo seu delito atroz,
faz a esses, que imitáveis
homens irremediáveis,
e incorrigível a vós.

Este amoroso vexame
vos dá um amigo, e aplica,
que não queirais não, que implica,
que vos censure, e vos ame:
antes, porque o mundo aclame
o zelo, com que me atrevo,
vendo, que nada relevo,
a quem devo obrigações,
vos mostro nestas razões,
que assim pago, o que vos devo.

À NEGRA MARGARIDA, QUE ACARIAVA HUM MULATO CHAMANDOLHE SENHOR
COM DEMAZIADA PERMISSÃO DELLE.

Carina, que acariais
aquele Senhor José
ontem tanga de guiné,
hoje Senhor de Cascais:
vós, e outras catingas mais,
outros cães, e outras cadelas
amais tanto as parentelas,
que imagina o vosso amor,
que em chamando ao cão Senhor
Ihe dourais suas mazelas.

Longe vá o mau agouro;
tirai-vos desse furor,
que o negro não toma cor,
e menos tomará ouro:
quem nasceu de negro couro,
sempre a pintura o respeita
tanto, que nunca o enfeita
de outra cor, pois fora aborto,
é, como quem nasceu torto,
que tarde, ou nunca endireita.

A nenhum cão chamais tal,
Senhor ao cão? isso não:
que o Senhor é perfeição,
e o cão é perro neutral:
do dilúvio universal
a esta parte, que é
desde o tempo de Noé,
gerou Cão filho maldito
negros de Guiné, e Egito,
que os brancos gerou Jafé.

(continua...)

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