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#Romances#Literatura Brasileira

Ressurreição

Por Machado de Assis (1872)

Não havia negá-lo; a letra era de Raquel e o conteúdo era uma súplica a favor da rival. Não sorria o médico, estava atônito. A verdade, tão inverossímil desta vez, metia-se-lhe pelos olhos, singela eloqüente, espontânea. Espontânea seria? Félix fez essa pergunta a si mesmo, e afirmativamente lhe respondeu, não atribuía à viúva tamanha influência, nem à donzela tamanha submissão, que uma inspirasse e a outra escrevesse aquela carta. A cousa pareceu-lhe o que realmente era: um sacrifício de Raquel.

Félix não era homem de grandes expansões; mas, se Raquel estivesse diante dele naquela ocasião, era capaz de cair-lhe aos pés. Abafar uma afeição silenciosa, a primeira talvez, para pedir a felicidade de outra mulher, era abnegação rara, que o surpreendia. A ação de Raquel fez-lhe esquecer por algum tempo a viúva, objeto da carta que acabava de ler. Raquel não afirmaria tão claramente os sentimentos da amiga, se não tivesse plena certeza deles. Como conciliaria, entretanto, a afirmação de hoje como a suspeita de ontem? A mesma Raquel lhe insinuara diversa inclinação da viúva. Naturalmente reconhecera o contrário. A idéia da reabilitação de Lívia para logo dominou o espírito de Félix. Seu amor existia no mesmo estado de força e viço; fácil de desmaiar, não era menos fácil de se restabelecer. No dia seguinte parecia desfeita a nuvem que por alguns dias o abafara.

Foi à casa da viúva; era uma hora da tarde. Tinha curiosidade de encarar a filha do coronel. Achou-a tão alegre e travessa como era dantes. Era assim aparentemente- os olhos estranhos não viam a mágoa interior e encoberta que lhe roía o coração. Seu infortúnio tinha pudor.

Ao médico era impossível encobrir esse estado. A tocante generosidade da moca fez-lhe bem ao coração. Teve ele a delicadeza de não tratar a viúva por modo que magoasse a donzela; mas, tão outro se mostrava do que fora até então, que a viúva não pôde resistir lhe, e aquele dia foi muito menos triste que os outros.

As travessuras de Luís faziam coro com as de Raquel. A porta da sala estava aberta. Luís desceu os degraus que comunicavam da sala com o jardim, na ocasião em que Lívia fechava uma pulseira de Raquel. Quando a viúva deu por falta do filho, correu à porta. O menino corria na direção da porta da rua. A mãe desceu atrás dele.

Raquel ia descer também; Félix pegou-lhe na mão. A moça estremeceu toda; afoguearam-se-lhe as faces, e ela balbuciou:

— Leu a minha carta?

— Li, respondeu Félix cravando nela um olhar que era a um tempo de simpatia e de pena. Li, e não sei se deva crer o que lá me diz.

— É a verdade.

— Mas então supõe!...

— Que ela o ama, afirmo-lho.

— E que eu a amo também? perguntou com hesitação.

— Isso... creio, assentiu Raquel, abaixando os olhos.

Félix calou-se. Decorreram dous ou três minutos de silêncio. Raquel continha com dificuldade os movimentos do coração. Preferia estar a cem léguas dali, mas lembrava-se da outra e isso lhe dava ânimo.

O médico foi o primeiro que falou:

—Como sabe que ela me ama?

— Sei, respondeu Raquel sorrindo com afetação, e é quanto basta. Demais, nenhuma moça escreveria semelhante carta a um homem se não tivesse certeza do que afirmava. Só lhe peço uma cousa: destrua essa carta. Nada vale, mas eu não quisera que a conservasse.

Lívia aproximava-se; sentiram passos na escada de pedra. Raquel correu à porta, enquanto Félix tirava a carteira do bolso, e procurava o bilhete de Raquel. Foi nessa ocasião que o coronel e a esposa chegaram. As duas moças desceram a recebe-los. Félix desceu também e caminhou a alguns passos de distância, com o coração dividido entre o amor de Lívia e a admiração de Raquel.

Os pais da moça jantaram nas Laranjeiras. Lívia acompanhou depois toda a família à cidade. Na ocasião de se despedir do médico, a filha do coronel sentiu que as forças lhe iam faltando. Reagiu, porém sobre si mesma, e sem olhar para ele, estendeu-lhe a mão, que o médico respeitosamente apertou. Ao voltar-lhe as costas um suspiro lhe saiu do peito; partira-se o último vínculo da esperança.

CAPÍTULO XVIII / RENOVAÇÃO

LÍVIA NÃO IGNOROU muito tempo a existência da carta de Raquel. Félix mostrou-lha no dia seguinte, desejoso de saber como havia nascido no espírito da moça a convicção tão generosamente afirmada.

— Contei-lhe tudo, disse a viúva, quando supunha que tudo estivesse morto no teu coração. Ela condoeu-se de mim, e vejo agora que não era sentimento estéril o que me revelara. Pobre Raquel!

— Esta carta foi excelente consolação, Lívia, porque eu sentia uma dúvida cruel a teu respeito... Mas a que propósito lhe falaste?

Lívia hesitou alguns instantes. Ou melhor, reprimiu o seu primeiro impulso; que foi referir ao médico o amor e a confissão de Raquel. Estaria no seu caráter se o fizesse- mas um vislumbre de reflexão atalhou essa confidencia prestes a subir-lhe aos lábios. Recearia que a notícia de um amor tão generoso o desviasse dela? Pode ser. A explicação que lhe deu foi breve.

(continua...)

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