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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Andanças de uma viola de cabaça

Por Gregório de Matos (1696)

É também conveniente,
que não tenha o parrameiro
a nota de ser traseiro,
e que seja um tanto quente:
que às vezes mui facilmente
são tais as misérias nossas,
que havemos mister as moças
para regalo da pica
com cono de pouca crica,
Apertado, bordas grossas.

Mas a maior regalia,
que no cono se há de achar,
para que possa levar
dos conos a primazia
(este ponto me esquecia)
para ser perfeito em tudo,
é nunca se achar barbudo,
por dar bom gosto ao foder,
como também deve ser
Chupão, enxuto, e carnudo.
A CERTO HOMEM QUE ESTANDO COM HUMA DAMA À NÃO DORMIO, POR VlR

HUMA LUZ NESSA OCCASIÃO FICANDOSE COM HUM ANEL DA MESMA DAMA.

Amigo, a quem não conheço,
inda que amigo vos chame,
pois no desar, com que amo,
a vós tanto me pareço:
bem alcanço, e reconheço,
qual é a força do destino,
mas se o desar mais mofino
estorva a luz da razão,
como a luz de um lampião
perdeis da ventura o tino.

Não duvido, que sejais
avechucho de Noruega,
se mostrais, que a luz vos cega,
perdendo, o que à luz buscais:
ave noturna cortais
a sombra mais denegrida,
e à luz, que é vossa homicida,
perdeis (estranho rigor)
emprego, dama e favor,
esperança, amor, e vida?

Que Madama, ou que Senhora
tendes tão pouco brilhante,
se vemos, que todo o amante
sua Dama é sua aurora?
eu cuidava, que na hora,
que um amante a Dama via,
nessa hora Ihe amanhecia;
e a vossa Dama chegou,
mas nem tocar-se deixou,
por falta da luz do dia.

É verdade, que a candeia
rompeu da noite o capuz,
mas dai-vos ao demo a luz,
que estorva, e não alumeia:
dai ao demo a luz, que ateia
para o dano vos urdir;
a luz sirva de luzir,
e não sirva de estorvar,
luza para alumiar,
e não para descobrir.

E se a luz o véu noturno
rompeu por vos dar na treta,
de Vênus não foi cometa,
foi influxo de Saturno:
se de um Planeta diurno
raio de luz campeara,
nem gostos vos estorvara,
em, quem éreis, descobrira,
mas a Moça se enxerira,
e algo mais se beliscara.

E seu dono, que aguardava,
qua vigia sempiterna,
não vira à luz da lenterna,
se ela vinha, ou se ficava:
e enquanto se apolegava
essa pêra mal madura,
assim pela noite escura
ficara a Moça sincera
derretida como cera,
batida como costura.

Mas vós sobre tanto anelo
ficastes em tal desdouro
com anel, que se era de ouro,
era anel do seu cabelo:
quis pagar-vos o desvelo
de perder aquela glória
tão breve, e tão transitória,
e porque lembre o sucesso
tão infausto, e tão avesso,
vo-lo deixou na memória.

Vós a prenda recebestes,
e vendo a perda tão clara
da Luz, que vos desgostara,
por ela vos esquecestes:
qual mercador vos houvestes,
e faltastes na verdade
do amor a sinceridade,
pois a Moça não lograstes,
e a memória Ihe tomastes
em desconto da vontade.

ASSUMPTO QUE HUMA DAMA MANDOU AO POETA.

Quisera, Senhor Doutor
uma informação, e é,
que me deram junto ao que
(do cu dissera melhor)
um golpe de tal rigor,
que passo mui maltratada
por me ver ali cortada:
quero me mande dizer
que remédio pode ter
junto do cu cutilada.
Anda aqui um Surgião
Fulano Lopes Monteiro,
que dizem para o traseiro
tem ele mui boa mão:
quisera saber então,
pois vivo tão desviada,
e como serei curada
por uma sua receita,
ficando sempre sujeita
a Dama da cutilada.

RESPOSTA DO POETA

Senhora Dona formosa
li a de vossa mercê
com a cutilada, que
a traz tanto desgostosa.
a ferida é mui danosa,
e não é para cheirada,
traga-a sempre abotoada,
que é, o que mais Ihe convém,
pois nunca curou ninguém
junto do cu cutilada.

Vi sarar dez mil feridas,
e muitas tão desestradas,
que por serem bem rasgadas,
Ihes chamavam desabridas:
sarar cabeças fendidas,
toda uma cara amassada,
rota uma perna, e escalada,
um braço, e outra cousa assi,
porém sarar nunca vi
junto do cu cutilada.

Causa grande admiração,
como em tal parte a cascou,
só se dormindo a apanhou,
ou estirada no chão:
esta é minha presunção,
que para ali ser cortada
devia estar estirada
com as pernas para o ar,
quando Ihe foram cascar
junto do cu cutilada.

Mas se estava conversando
zainamente, e par a par,
deviam de lha cascar
a barriga assovelhando:
que por juntas lhas meter
uma, e outra punhalada
teve a mão tão assentada,
que o contrário resvelando
de muitas veio a fazer
junto do cu cutilada.

Há feridas do diabo,
e de si muito nojentas,
porém as mais fedorentas
são, as que estão junto ao rabo:
eu tal ferida não gabo
por ser em parte arriscada,
que em que seja seringada,
como a parte é tão reimosa,
e sempre mui perigosa
junto do cu cutilada.

Algumas vezes curei
com ovos tão grandalhões,
que pareciam culhões,
mas debalde me cansei:
com mecha lhos encaixei,
que entrava tão ajustada,
que ia algum tanto apertada:
mas era cansar-me em vão,
porque ovos não curam não
junto do cu cutilada.

(continua...)

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