Por Machado de Assis (1872)
E quando todas essas sombras lhe povoavam o espírito, e o coração lhe pulsava com mais força, perguntava-lhe a consciência se lhe era lícito opor algum obstáculo à felicidade da donzela, dado que esta vencesse o coração do seu noivo. Lívia não dormiu a noite toda. No dia seguinte, apenas a claridade da manhã lhe entrou no quarto, a viúva levantou-se, vestiu à pressa um roupão, e foi ao quarto de Raquel. A filha do coronel dormia profundamente. Repousava de suas longas reflexões. Lívia abriu o cortinado muito ao de leve, contemplou-lhe o rosto sereno e risonho, os olhos cerrados, e os lábios semi-abertos como se em sonhos murmurasse palavras de amor. Os cabelos esparsos lhe serviam de resplendor à sua cabeça angélica. "Não! pensava Lívia, o amor não dorme assim tranqüilo em dias de infortúnio e desespero. Criança inconsciente que te supões alar às regiões do sol, que sabes tu dos precipícios da viagem, que conheces tu das voragens do coração?"
— Ah! estava aqui! exclamou Raquel acordando; ainda bem!
— Por quê?
— Sonhei que morria, e que era recebida no Céu. Fora bom morrer assim; mas eu sempre tinha pena de deixar a Terra. Acordou hoje muito cedo.
— Queria dar um passeio, disse Lívia indo abrir a janela, mas a manha já está quente. Raquel olhou para ela; viu-lhe os olhos pisados e o rosto desfeito. Compreendeu que não havia dormido, e que chorara.
"Ama-o então muito?" perguntou ela a si mesma.
CAPÍTULO XVII / SACRIFÍCIO
A SITUAÇÃO das duas moças demandava um termo. Raquel foi a primeira que resolveu deixar completamente o campo; tinha no seu restabelecimento uma excelente razão para regressar a casa.
Lívia compreendeu a intenção da amiga quando esta lhe comunicou a sua resolução. Era tão simples e tocante o sacrifício, que a viúva não resistiu a um impulso generoso. Respondeu-lhe com um beijo. O beijo era de admiração; Raquel acreditou fosse de agradecimento, e sorriu com tristeza.
Ficou assentado que Raquel iria no domingo próximo, e nesse sentido foi avisado o coronel.
Estavam ainda no dia seguinte ao do episódio do menino. Nenhuma das suas circunstancias esquecera ao médico. A esquivança de Raquel continuava a preocupar-lhe o espírito, não menos que a infundada suspeita que nutria a respeito da viúva. Era meado do mês de dezembro. A data do casamento estava próxima. Tudo exigia um desenlace a tempo.
Não tardou que o médico descobrisse os sentimentos que a filha do coronel nutria a seu respeito. Surpreendeu-a perto de uma janela interior, a beijar uma página de um álbum de retratos. Aproximou-se cauteloso, lançou os olhos à página e viu nela o seu próprio retrato.
A descoberta fê-lo sorrir. Seria aquilo a razão da mudança que notara nela? Nesse caso sabia já da afeição que o ligava à viúva, talvez do projetado casamento. Era possível também que a volta dela à casa de seus pais não tivesse outro motivo. Por mais isento que seja o espírito de um homem, é raro que o não lisonjeie uma afeição assim, medrosa e silenciosa, nascida e vivida na soledade da alma. Félix sentiu primeiro essa impressão de egoísmo. Veio depois outro sentimento melhor, o de uma respeitosa admiração. Seu pensamento entrou a conjeturar a data daquele singular amor; à proporção que se internava nos dias do passado, ia combinando uma série de episódios esparsos, aparentemente vagos, agora significativos e eloqüentes. Não era recente a afeição dela; era talvez anterior à sua enfermidade.
Chegara o sábado, véspera da partida de Raquel. Era de noite. Félix estava em casa da viúva, e ambos, e Raquel, e até Viana todos pareciam preocupados e tristes. O médico olhava para a filha do Coronel, sem reparar que os olhos de Lívia seguiam os seus e como que buscavam ler por eles os sentimentos do coração.
Raquel esquivava-se às atenções do médico. Em certa ocasião, porém, - achando-se Félix mais afastado, - aproximou-se dele com um livro.
— Já leu este romance? perguntou ela.
— Deixe ver disse Félix, convidando-a com um gesto a sentar-se.
Raquel não se sentou; estendeu-lhe o livro, e olhou com insistência para o médico. Félix pegou no livro e consultou a primeira página; ia voltar distraidamente a segunda, quando lhe caiu nos joelhos um papelinho dobrado. Raquel voltou assustada a cabeça para lado de Lívia, que de pé, junto do piano, tirava notas soltas do teclado, sem olhar para o grupo. Raquel fez ao médico um sinal de silêncio e afastou-se dele. Félix guardou o papel no bolso.
"Quase uma criança!" ia ele pensando quando se retirava para casa depois do chá. Quando ali chegou não se deu ao trabalho de tirar o chapéu. Abriu a carta logo na sala. Dizia a carta:
"Pela memória de sua mãe, não seja cruel! Lívia ama-o muito. Não a faça morrer, que seria um pecado!"
Félix esfregou os olhos e releu o bilhete.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Ressurreição. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1872.